BRANDS' ECO Biomassa é ativo estratégico ainda por explorar
Já é a maior fonte renovável do país e pode ser um trunfo para a segurança energética, a indústria verde e a gestão florestal, mas ainda falta estratégia e escala.
Ao longo da última década, a biomassa representou entre 42% e 55% do total da produção de energia renovável em Portugal. Os dados são da Direção‑Geral de Energia e Geologia (DGEG) e demonstram a importância desta fonte de energia que, apesar do peso no mix energético nacional, é ainda desconhecida de muitos portugueses. E, quando se inclui energia térmica e cogeração, o peso é ainda maior, tornando‑a a principal fonte renovável efetiva no sistema energético nacional.
Esta realidade contrasta, contudo, com a perceção pública, mais centrada no crescimento do solar e da eólica, mas demonstra que a biomassa é estrutural para a segurança energética portuguesa.

Apesar disso, num momento em que a Europa acelera a corrida ao biometano, aos biocombustíveis avançados e ao CO2 biogénico, Portugal arrisca perder terreno se não transformar este recurso abundante numa política industrial estratégica.
Uma cadeia de valor estratégica para energia e indústria
Com impacto direto e simultâneo na energia, na indústria e na gestão florestal, a biomassa tem uma aplicação prática que transcende a produção de eletricidade. Esta fonte renovável é uma das poucas capazes de fornecer calor a processos de fabrico industriais como, por exemplo, em setores como cerâmica, papel, agroalimentar ou química.
A Agência Internacional da Energia alerta que a procura europeia de biomassa poderá ultrapassar a oferta até 2050, pressionando preços e aumentando a competição por recursos
A biomassa é também a base para novas cadeias de valor que a União Europeia considera estratégicas como o biometano, biocombustíveis avançados e CO2 biogénico, essencial para combustíveis sintéticos verdes. Por exemplo, sem CO2 biogénico, projetos como o “Corredor de Sines” (infraestrutura ferroviária prioritária projetada para ligar Sines aos mercados europeus) não conseguem cumprir os critérios de renovabilidade exigidos por Bruxelas.
Mas o impacto da biomassa vai além da energia. Portugal enfrenta um problema estrutural de gestão florestal, com mais de 60% do território coberto por floresta e matos, e uma elevada carga combustível acumulada especialmente após as tempestades que assolaram o país no início deste ano. A utilização de resíduos florestais para produção energética contribui para reduzir esse risco, enquanto gera atividade económica local. A Central de Biomassa do Fundão, por exemplo, obtém entre 70% e 90% da sua faturação na região, segundo dados citados pelo Público, demonstrando o potencial de desenvolvimento territorial associado a este setor.
Contudo, o país está longe de explorar todo o seu potencial. A Agência Internacional da Energia alerta que a procura europeia de biomassa poderá ultrapassar a oferta até 2050, pressionando preços e aumentando a competição por recursos. Para Portugal, isto significa que a janela de oportunidade é curta e que novas centrais, projetos de biometano e unidades de valorização de resíduos precisam de enquadramento regulatório e incentivos antes que o mercado europeu absorva a matéria‑prima disponível.
Portugal tem os recursos, tem a necessidade e tem a oportunidade. Falta decidir se quer transformar a biomassa num pilar da sua política energética ou continuar a tratá‑la como um parente pobre das renováveis
O desafio, porém, não é apenas económico. A expansão da biomassa exige critérios rigorosos de sustentabilidade. Organizações ambientais alertam que a definição de ‘resíduo’ deve ser clara para evitar pressão excessiva sobre a floresta. A conversão de grandes centrais, como a do Pego, levanta dúvidas sobre a necessidade de importação de pellets ou madeira, o que reduziria o benefício ambiental e económico. A biomassa pode ser parte da solução, mas não substitui políticas de ordenamento, silvicultura ativa e diversificação das espécies florestais.
Ainda assim, o consenso entre especialistas é o de que, sem biomassa, Portugal não cumpre as metas de renováveis para 2030, nem assegura a descarbonização de setores industriais difíceis de eletrificar.
A biomassa é, por isso, uma peça crítica essencial para o futuro energético português, desde que integrada numa estratégia que combine competitividade, sustentabilidade e gestão florestal. Portugal tem os recursos, tem a necessidade e tem a oportunidade. Falta decidir se quer transformar a biomassa num pilar da sua política energética ou continuar a tratá‑la como um parente pobre das renováveis.
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