Operação Imergente trava embalo do PS e dá força ao Chega
A investigação da Polícia Judiciária ameaça travar a recuperação eleitoral do partido, fragilizar a liderança de José Luís Carneiro e reforçar o discurso anti-sistema do Chega, alertam politólogos.
As buscas realizadas pela Polícia Judiciária (PJ) à sede nacional do Partido Socialista (PS) e a várias câmaras municipais e juntas de freguesia socialistas poderá comprometer a recuperação eleitoral dos socialistas, afetar a popularidade da nova liderança de José Luís Carneiro e abrir espaço para um reforço do discurso anti-sistema do Chega, consideram vários politólogos ouvidos pelo ECO.
A investigação do Ministério Público incide sobre suspeitas relacionadas com adjudicações públicas promovidas por autarquias, cujo valor global ascende a cerca de dois milhões de euros, bem como sobre a alegada emissão de faturas para o recebimento indevido de verbas por parte de dois suspeitos associados a um partido político.
O caso rebenta quando o PS procurava capitalizar os sinais de recuperação eleitoral registados nos últimos meses sob a liderança de José Luís Carneiro, com as últimas sondagens a apontarem os socialistas como a força política mais votada, à frente da Aliança Democrática (PSD/CDS).
Para André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, “o impacto expectável é claramente negativo, não só para o PS, que tem aliás um historial de problemas com a justiça, mas em particular para a nova liderança do partido, que estava até agora relativamente afastada desse tipo de problemas, mas que vê agora figuras muito próximas do novo líder José Luís Carneiro serem postas em causa”.
A observação ganha relevância porque o secretário-geral socialista, José Luís Carneiro, tem procurado afirmar-se como um rosto de renovação dentro do partido após o ciclo governativo liderado por António Costa e depois da hecatombe eleitoral que Pedro Nuno Santos sofreu à frente do PS, nas legislativas de maio do ano passado, e que ditou a sua saída da liderança.
A associação de dirigentes próximos do secretário-geral a uma investigação criminal, como o assessor e diretor de comunicação Duarte Moral, que foi detido, no âmbito da Operação Imergente, ameaça dificultar essa estratégia de reposicionamento político.
Apesar de os politólogos não anteciparem uma fuga imediata do eleitorado tradicional socialista, consideram que o maior risco reside na capacidade do partido para conquistar eleitores mais voláteis e menos identificados ideologicamente.
Hugo Ferrinho Lopes, investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, considera que o principal dano poderá surgir precisamente junto desse segmento do eleitorado. “O risco para o PS não é perder imediatamente a sua base eleitoral; é perder o embalo junto dos eleitores disponíveis. Não necessariamente porque altere de imediato o voto dos eleitores mais fiéis ao PS, mas porque pode travar a recuperação do partido junto de eleitores mais voláteis, moderados ou indecisos”, explica.
O risco para o PS não é perder imediatamente a sua base eleitoral; é perder o embalo junto dos eleitores disponíveis.
Casos desta natureza têm um efeito particularmente sensível porque dizem respeito a matérias em relação às quais existe um consenso transversal na sociedade, segundo o investigador. “Em ciência política, estes casos funcionam muitas vezes como temas de valência: ninguém é ‘a favor’ de corrupção, favorecimento ou abuso de poder. Por isso, quando um partido é associado a suspeitas deste tipo, o dano não é tanto ideológico; é reputacional. Afeta perceções de integridade, competência e renovação“, sustenta.
Na sua perspetiva, a operação surge num momento especialmente delicado para os socialistas, uma vez que o partido vinha beneficiando do desgaste político do Governo. “A subida do PS assentava muito no desgaste do Governo; este caso obriga o PS a defender-se em vez de atacar”, resume.
Também a politóloga Sílvia Mangerona acredita que as suspeitas agora conhecidas poderão comprometer a tendência de crescimento que algumas sondagens atribuíam aos socialistas. “Esta operação ‘Imergente’ vai abanar as estruturas do Partido Socialista”, afirma. A investigadora sublinha que estão em causa alegações relacionadas com contratos públicos e potenciais prejuízos para o erário público, matérias que tendem a ter forte impacto na opinião pública.
Estas suspeitas podem, efetivamente, condicionar a tendência de subida do PS nas sondagens, mas creio que ainda é cedo para avaliar o impacto.
“O que está em causa não é novo. São contratos duvidosos que lesam o erário público em milhares de euros. Como envolve juntas de freguesia, o que está em causa também pode afetar a imagem dos partidos e não só a imagem dos protagonistas dos alegados crimes de prevaricação“, acrescenta.
Para a politóloga, os efeitos eleitorais dependerão em larga medida da forma como a direção socialista gerir politicamente a crise. “Estas suspeitas podem, efetivamente, condicionar a tendência de subida do PS nas sondagens, mas creio que ainda é cedo para avaliar o impacto. Tratando-se de questões de transparência, a forma como o PS se vai posicionar e comunicar perante este caso específico pode condicionar a leitura de responsabilidade”, defende.
Mangerona vai mais longe e sugere que os partidos políticos deveriam criar mecanismos internos mais robustos de fiscalização e prevenção. “Seria importante que partidos políticos investissem na formação de grupos internos para monitorizar comportamentos menos próprios, comportamentos duvidosos ou mesmo incumprimentos e negligência para atempadamente se demarcarem dos prevaricadores”, afirma.
Vitória socialista em futuras eleições torna-se mais incerta
Embora nenhum dos especialistas arrisque fazer previsões sobre cenários eleitorais futuros, todos concordam que a investigação torna mais difícil a tarefa dos socialistas.
André Azevedo Alves considera que, caso o país viesse a enfrentar novas eleições legislativas, o PS entraria em campanha numa posição menos favorável do que aquela que parecia estar a construir nas últimas semanas. “Creio que torna a posição do PS menos vantajosa. Com um sistema partidário agora dividido entre três grandes forças partidárias, o vencedor de umas próximas eleições legislativas é especialmente incerto“, afirma.
O politólogo considera mesmo que a investigação reforça a ideia de que o atual sistema político português atravessa uma fase de elevada volatilidade. “A investigação em curso vem reforçar que tudo estará em aberto”, acrescenta.
Se existe um ponto de consenso entre os analistas é o facto de o Chega surgir como o partido com maior potencial para retirar dividendos políticos da Operação Imergente.
Para André Azevedo Alves, o PSD poderá ter dificuldade em capitalizar diretamente o desgaste dos socialistas, uma vez que também enfrenta episódios polémicos relacionados com alegadas irregularidades. “O PSD tem os seus próprios problemas e questões pendentes nesta matéria, basta recordar a Operação Tutti-Frutti ou mesmo o caso Spinumviva envolvendo Luís Montenegro“, observa. Por isso, conclui, “o grande beneficiário potencial aqui é inequivocamente o Chega“.
Na sua leitura, o partido liderado por André Ventura beneficia em duas frentes: por um lado, reforça a narrativa de combate à corrupção; por outro, alimenta a ideia de que PS e PSD fazem parte do mesmo sistema de interesses e de distribuição de recursos públicos.
Hugo Ferrinho Lopes partilha uma análise semelhante. “Quando há suspeitas sobre partidos tradicionais, o populismo não precisa de provar muito: basta-lhe dizer ‘são todos iguais’“, afirma. Segundo o investigador, a força da mensagem do Chega reside precisamente na sua simplicidade. “O Chega tende a beneficiar mais diretamente porque tem uma narrativa já preparada: a ideia de que os partidos tradicionais se protegem, ocupam o Estado e distribuem recursos entre si“, sustenta.
O PSD tem os seus próprios problemas e questões pendentes nesta matéria, basta recordar a Operação Tutti-Frutti ou mesmo o caso Spinumviva envolvendo Luís Montenegro (…) o grande beneficiário potencial aqui é inequivocamente o Chega.
Já Sílvia Mangerona recorda que o novo contexto político português, marcado pela existência de três grandes partidos nacionais, torna o eleitorado mais permeável a oscilações provocadas por crises ou escândalos. “Uma crise, um escândalo ou erro grave de comunicação pode desequilibrar as intenções de voto e influenciar a orientação do eleitorado flutuante“, alerta.
Além das consequências eleitorais, a Operação Imergente poderá ter efeitos imediatos sobre a agenda mediática e política. Questionados sobre a possibilidade de as buscas relegarem para segundo plano o caso SIRESP – que levou à demissão do secretário-geral adjunto do Ministério da Administração Interna – os especialistas admitem que a atenção pública poderá deslocar-se temporariamente para a investigação que envolve o PS.
“O ponto não é tanto se é ou não uma coincidência. É mais o facto de mesmo uma coincidência poder reorganizar a agenda política”, refere Hugo Ferrinho Lopes. “Uma megaoperação policial com buscas na sede de um grande partido tem enorme força noticiosa e tende a deslocar a atenção pública. Isto é agenda-setting: os temas competem por espaço mediático e político”, acrescenta.
Ainda assim, o investigador considera improvável que o caso SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal) desapareça do debate político devido à sua relevância institucional e às implicações para um setor tão sensível como o das comunicações de emergência. No mesmo sentido, Sílvia Mangerona entende que, embora uma nova crise política possa absorver temporariamente a atenção mediática, “o caso SIRESP não corre o risco de sair da agenda”.
A Operação Imergente surge como o primeiro grande teste político à liderança de José Luís Carneiro. Embora seja ainda prematuro medir os seus efeitos eleitorais concretos, os especialistas concordam que a investigação representa um obstáculo à recuperação socialista, fragiliza a narrativa de renovação interna e oferece novas oportunidades de crescimento às forças que têm feito da crítica ao sistema político tradicional uma das suas principais bandeiras.
PS recuperava terreno antes da Operação Imergente
A relevância política da Operação Imergente é ainda maior por surgir numa altura em que o PS dava sinais claros de recuperação eleitoral. Uma sondagem ICS-ISCTE-GfK Metris para a SIC e o Expresso, divulgada esta semana, colocou os socialistas pela primeira vez em mais de dois anos à frente da Aliança Democrática (AD) nas intenções de voto.
O PS surge com 24% das intenções diretas de voto, contra 21% da AD liderada por Luís Montenegro, segundo o estudo. Na projeção com distribuição de indecisos, a vantagem aumenta para quatro pontos percentuais, com os socialistas a atingirem os 31% face aos 27% da coligação governamental.
Os resultados representam uma subida significativa do PS relativamente às eleições legislativas de maio, quando o partido obteve 22,85% dos votos, e confirmam uma tendência de recuperação iniciada após a eleição de José Luís Carneiro para secretário-geral.
A mesma sondagem revela ainda um recuo dos restantes partidos da oposição. O Chega surge como terceira força política com 17% das intenções de voto, menos quatro pontos do que no estudo anterior, enquanto a Iniciativa Liberal desce de 4% para 2%. A CDU sobe um ponto percentual, alcançando os 4%.
É neste contexto de recuperação eleitoral dos socialistas e de desgaste simultâneo da AD que a Operação Imergente poderá assumir particular relevância política. Como assinalam os politólogos ouvidos pelo ECO, o principal efeito da investigação poderá não ser tanto a perda imediata do eleitorado tradicional do PS, mas antes o travão a uma dinâmica de crescimento que começava a consolidar-se nas sondagens.
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