Negócio das entregas faz-se entre campeões. Uber atrás da dona da Glovo (sem parar a bicicleta)

Um ano após a sua maior rival americana, a DoorDash, comprar a britânica Deliveroo, a Uber lança-se em ofertas pela alemã Delivery Hero sem sinais de desistência.

ECO Fast
  • A Uber está a avançar com uma OPA sobre a Delivery Hero, dona da Glovo, aumentando a sua oferta para 38 euros por ação.
  • A Delivery Hero opera em cerca de 65 países e, se a fusão ocorrer, a Uber consolidará uma posição de liderança na Península Ibérica.
  • A Comissão Europeia poderá impor restrições à operação, dado o seu histórico de controlo de monopólios no setor de entregas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

E se a Uber Eats e a Glovo fossem uma só? É o que a empresa de TVDE mais conhecida do mundo pretende, até porque tem em marcha uma OPA pela dona da Glovo, a alemã Delivery Hero, que não dá sinais de abrandamento. Um ano após a maior rival da Uber Eats nos Estados Unidos, a DoorDash, ter comprado a britânica Deliveroo, avaliando-a em 2,9 mil milhões de libras (3,3 mil milhões de euros), o mercado das entregas (delivery) volta a mostrar que a tendência são os gigantes.

Há precisamente uma semana, o conselho de administração da Uber fez uma pausa no descanso de sábado para marcar uma reunião na qual discutiu o aumento da sua oferta pela alemã Delivery Hero, depois de ter visto chumbada uma proposta de 33 euros (38 dólares) por ação, que avaliaria o grupo de entregas em mais de 10 mil milhões de euros. Insistiu, foi mais longe e fê-la crescer até aos 38 euros (e, consequentemente, uma avaliação de 11,5 mil milhões de euros) e está agora a ponderar se sobe (mais) a proposta, segundo o Financial Times.

As negociações têm-se desenrolado fora dos ecrãs e entre as mais altas lideranças. Segundo o jornal britânico, o CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, chegou a viajar para Oslo para se reunir com a presidente do conselho de administração da Delivery Hero, Kristin Skogen Lund, e apresentar presencialmente a OPA. Certo é que os mais de 8.400 km e 15 horas de voo não foram suficientes para impressionar a norueguesa que também chefia a prestigiada escola de negócios INSEAD.

Bastaram alguns dias para a Uber enveredar por uma estratégia de aumento da participação na Delivery Hero, da qual já é acionista, passando de uma posição de 25% para quase 37%, após ficar com títulos que pertenciam à Aspex Management, de acordo com a Reuters. Os próximos dias serão cruciais para perceber quais as movimentações da Uber – e quão disponível está para aumentar (ainda mais) a proposta.

A Uber tem um cardápio relativamente curto (e nem sempre vitorioso) de aquisições no delivery. Em 2019, lançou-se na compra da startup Cornershop, que faz entregas de mercearia ao domicílio numa hora no Chile, no México, no Peru e no Canadá.

No ano seguinte, em plena pandemia, marcadas por confinamentos nos quais estas aplicações foram ‘rainhas e senhoras’, a Uber adquiriu a Postmates por 2,65 mil milhões de dólares (2,27 mil milhões de euros) para abarcar restaurantes de pequena e média dimensão nos Estados Unidos.

Instada pelo vírus que mantinha a população em casa, comprou a Drizly, dedicada só a bebidas alcoólicas, por 1,1 mil milhões, mas na ressaca da Covid-19, acabou por fechar a operação três anos mais tarde.

Mas a Europa tem outro encanto e margem de expansão, até porque o plano é pôr a Uber Eats em mais sete países europeus ainda em 2026, nomeadamente a República Checa, a Grécia e a Roménia, segundo a agência Reuters. Com a Delivery Hero ganhava cotada na Bolsa de Frankfurt desde 2017

Marcas que a Uber quer pôr no mesmo saco

A Delivery Hero, com sede em Berlim, é uma empresa mundial de entregas com operação em cerca de 65 países na Europa, Ásia, América Latina, Médio Oriente e África. No Velho Continente, as insígnias da holding criada em 2011 são quatro e, se ficassem sob o mesmo chapéu da Uber, colocariam a tecnológica norte-americana numa indiscutível posição de liderança, sobretudo na Península Ibérica.

  • Glovo – Fundada em 2015, opera no sul da Europa (Portugal, Espanha, Itália…), Ásia Central e África com serviços on-demand de diversas categorias, desde restaurantes locais, mercearias e supermercados, a lojas de retalho de rua. A ideia é poder “pedir qualquer coisa”.
  • Foodora – Fundada em 2014, é a marca presente na Áustria, República Checa, Hungria, Noruega e Suécia com a mesma missão de proporcionar uma experiência de entrega rápida de mercearias, produtos para a casa, refeições de restaurantes, entre outros.
  • Efood – Fundada em 2011, é a plataforma líder na Grécia.
  • Foody – Fundada em 2015 por uma equipa de cinco pessoas, tornou-se a principal plataforma de entregas online no Chipre.

Dado o historial da Comissão Europeia no controlo de monopólios, inclusive neste setor de delivery, dificilmente esta operação – se o acordo entre as partes for bem-sucedido – passará sem imposição de remédios. Basta recordar o meganegócio das entregas ao qual Bruxelas deu ‘luz verde’ em agosto de 2025: a aquisição da Just Eat Takeaway.com (JET) pelo grupo sul-africano Naspers, através da subsidiária neerlandesa Prosus.

A instituição liderada por Ursula von der Leyen deu o OK a este campeão das entregas dos Países Baixos (e mais além), mas impôs compromissos para concluir a transação de 4,1 mil milhões de euros e criar um “campeão das entregas”. O fundo Prosus teve de reduzir a posição na concorrente, Delivery Hero, que fez correr tinta nos jornais.

Quais eram as preocupações de Bruxelas? Como a Prosus detém uma participação minoritária de 27,4% na concorrente Delivery Hero, que também faz entregas de refeições em cinco Estados-membros nos quais a Just Eat trabalha, corria-se o risco de haver um desincentivo à Just Eat competir com a Delivery Hero nesses países – onde seriam os maiores operadores – e haver probabilidade de coordenação tácita que faça subir os preços mais elevados ou levar até a saídas do mercado.

Então, a Naspers propôs reduzir “significativamente” a sua posição na Delivery Hero, não aumentar essa participação acionista além do nível máximo especificado e não exercer os direitos de voto associados à sua participação limitada remanescente na Delivery Hero.

Na mesma lógica, a Comissão Europeia multou a Delivery Hero e a Glovo, no verão passado, em 329 milhões de euros por participarem num cartel no setor das entregas de refeições, demonstrando que está atenta a práticas ilegais de coordenação de preços.

Tentativa falhada na Ásia

Não é a primeira vez que a Uber aborda a Delivery Hero. Há cerca de dois anos, tentou uma consolidação no mercado asiático que acabou por colapsar. No Natal de 2024, a Uber recebeu um presente envenenado, porque pretendia adquirir o negócio da Foodpanda – delivery de refeições e mercearias – em Taiwan à Delivery Hero, por 950 milhões de dólares (cerca de 912 milhões de euros), mas a transação foi travada.

A Comissão de Comércio Justo de Taiwan concluiu que a proposta de aquisição gerava preocupações anticoncorrenciais, embora o diretor geral da Uber Eats em Taiwan tivesse dito, quando assinou o acordo inicial para esta compra, que “se for aprovada e concluída, a plataforma combinada permitir-nos-á entregar uma gama mais ampla de alimentos e bens, os melhores preços para os consumidores, uma procura mais forte por restaurantes e lojas”.

CEO da Delivery Hero está de saída

Maio foi um mês quente para a empresa germânica. Por entre uma proposta de compra aumentada e mexidas na estrutura acionista, a Delivery Hero informou ainda que o cofundador e CEO, Niklas Östberg, deixará o cargo até dia 31 de março de 2027.

Nos próximos meses, o empresário sueco estará a apoiar a fase de transição, bem como a “próxima fase da revisão estratégica e os processos de M&A associados”, enquanto o conselho de supervisão da Delivery Hero vai “em breve” dar início à busca por um sucessor.

O objetivo é concluir o recrutamento de um novo presidente executivo até ao final deste ano, de forma a ainda terem um trimestre inteiro para fazer a passagem de testemunho.

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