BRANDS' ECO Região Norte continua a 71% do PIB da União Europeia
Competitividade, talento, agricultura e fundos europeus foram as áreas destacadas pelo debate da estratégia Norte 2040, marcado pela exigência de mudar o modelo de desenvolvimento regional.
A Estratégia Norte 2040 arrancou na passada sexta-feira no Europarque, em Santa Maria da Feira, com um apelo à afirmação política, económica e territorial da região norte num contexto europeu marcado por mudanças geopolíticas, tecnológicas e económicas. Ao longo da conferência, responsáveis políticos, académicos e representantes empresariais defenderam uma maior capacidade de decisão regional, mais foco na inovação e uma estratégia capaz de transformar o potencial económico da região em crescimento efetivo e convergência com a média europeia.
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Na abertura da sessão, Amadeu Albergaria, presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, sublinhou o peso económico do concelho, que ultrapassou pela primeira vez as 18 mil empresas instaladas e acompanhou, só em 2025, cerca de 470 milhões de euros de intenções de investimento. Também destacou o investimento de 370 milhões de euros da Lufthansa Technik e defendeu que “a região norte devia ser rica na Europa”, apontando a necessidade de combater o centralismo e reforçar a descentralização regional.
Também Francisco Lopes, presidente do Conselho Regional, alertou para a importância de preservar a capacidade de decisão regional no próximo ciclo de fundos europeus. O responsável criticou a centralização do PRR e recordou que, apesar de o Norte 2030 já apresentar uma taxa de candidaturas de 70%, “nos primeiros anos a taxa de aprovação foi de apenas 0,8%”. Apesar de reconhecer que a região norte tem condições para assumir um papel decisivo na redefinição das prioridades europeias, alerta que é essencial evitar “um retrocesso no processo de decisão regional”.
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Amadeu Albergaria, presidente da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira -
Francisco Lopes, presidente do Conselho Regional
Qual a proposta da União Europeia?
A proposta do novo quadro financeiro plurianual da União Europeia para 2028-2034 esteve no centro da intervenção de Hugo Sobral, diretor-geral adjunto da DG Regio da Comissão Europeia, que traçou um retrato das transformações estruturais que estão a alterar o posicionamento europeu no mundo. Neste retrato, apontou três mudanças de paradigma – securitário, económico e tecnológico – e alertou para a perda de influência da União Europeia face a outros blocos internacionais, tanto ao nível do PIB como do poder de compra.
Segundo Hugo Sobral, a nova proposta orçamental procura responder a esse contexto mantendo um volume de investimento semelhante ao do ciclo anterior. E, para elucidar melhor, detalhou que o futuro orçamento europeu prevê 865 mil milhões de euros para investimentos e reformas, 302 mil milhões para agricultura e pescas, 218 mil milhões destinados às regiões mais pobres e uma meta de 43% para clima e ambiente. Portugal deverá receber cerca de 32,5 mil milhões de euros. Ainda assim, defendeu que os investimentos, por si só, “não são suficientes para resolver problemas de desenvolvimento económico”, devendo ser acompanhados por reformas estruturais.

O diretor-geral adjunto da DG Regio deixou também um aviso sobre o posicionamento da região norte no contexto europeu. Mesmo reconhecendo que o norte “tem sido o motor de crescimento do país”, considerou que esse crescimento “não tem sido suficiente para atingir os valores da média europeia” e que, para resolver esta dificuldade, é necessário acelerar o processo de convergência.
Inovação e competitividade regional de mãos dadas
A competitividade regional e a inovação dominaram o primeiro painel de debate, onde os intervenientes insistiram na necessidade de transformar conhecimento em resultados económicos concretos. Raul Fangueiro, pró-reitor para a Inovação e Empreendedorismo da Universidade do Minho, considerou que os fundos comunitários tiveram um papel “transformador” na região norte, sobretudo no ensino superior e na inovação, mas admitiu que “sabe a pouco” perante o potencial instalado. Defendeu, por isso, um “choque em inovação”, que permitisse converter capacidade científica e tecnológica em soluções transferíveis para o mercado.
O académico destacou ainda a importância de apostar simultaneamente na regeneração das indústrias tradicionais e em setores emergentes, como o espaço e a defesa. Segundo Raúl Fangueiro, a área do “dual use” representa uma oportunidade para universidades e empresas entrarem no setor da defesa através de tecnologias desenvolvidas no setor civil. O académico insistiu também na necessidade de consolidar ecossistemas colaborativos entre academia, empresas e território, alertando para os riscos de perda de talento em resultado da instabilidade dos financiamentos.
Também Catarina Selada, diretora da Unidade de Cidades Inteligentes do CeiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento, apontou o espaço como uma oportunidade estratégica para o norte do país. Citando um estudo da BCG, referiu que esta indústria poderá gerar 40 mil milhões de euros até 2040 e destacou ainda projetos como a Geosat e a Constelação do Atlântico, que prevê 16 satélites em órbita até 2030, e que vai permitir recolher dados combinados com inteligência artificial para áreas como defesa, resiliência climática e gestão de catástrofes.
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Painel "Competitividade regional e a inovação" -
Catarina Selada, diretora da Unidade de Cidades Inteligentes do CeiiA -
Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP - Associação Empresarial de Portugal e presidente do Cluster das Indústrias Culturais e Criativas -
Raul Fangueiro, pró-reitor para a Inovação e Empreendedorismo da Universidade do Minho, em debate
A responsável do CeiiA alertou, contudo, para a necessidade de Portugal apostar em produtos próprios e não apenas na integração de tecnologia desenvolvida por terceiros. “Precisamos de escala e impacto”, afirmou, ao mesmo tempo que alertou para a importância de atrair o talento português emigrado. Neste âmbito deu o exemplo do próprio CeiiA, que contratou profissionais vindos da Airbus para trabalhar nos projetos ligados aos satélites.
Já Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP – Associação Empresarial de Portugal e presidente do Cluster das Indústrias Culturais e Criativas, considerou que a região norte continua a viver um “paradoxo”: apesar da forte capacidade exportadora, do tecido empresarial e das universidades, os indicadores económicos continuam aquém do desejável. O responsável da AEP criticou a burocracia europeia e nacional, defendendo maior rapidez na definição de prioridades e execução dos programas.
Para o dirigente empresarial, o tema da defesa é uma oportunidade relevante para a região, sobretudo para empresas que poderão adaptar a sua produção às novas exigências internacionais. Ainda assim, alertou que “não podemos querer investir em tecnologia, IA, e não investir em pessoas”, lembrando que cerca de metade dos trabalhadores da indústria têm apenas o ensino básico. Neste sentido, Luís Miguel Ribeiro considera crucial oferecer mais formação para quadros intermédios, maior flexibilidade regional nos fundos e menos burocracia nos programas de apoio.
E quais as soluções para o setor agrícola?
A questão do talento acabou por fazer a ponte para o segundo painel, dedicado à coesão territorial e agricultura, onde os intervenientes alertaram para as dificuldades de renovação geracional no setor agrícola. Luís Leite Ramos, professor na UTAD e diretor executivo do Portugal por Inteiro, questionou por que razão Portugal continua distante dos indicadores europeus “depois da pipa de massa” recebida ao longo de décadas de fundos europeus. O académico defendeu que o debate não deve centrar-se apenas na quantidade de verbas, mas sobretudo na forma como serão aplicadas e transformadas em mudanças estruturais.
Luís Leite Ramos destacou ainda o problema profundo de atratividade junto dos jovens que a agricultura enfrenta e alertou para a necessidade de reforçar a valorização de produtos certificados, área onde o norte possui um enorme potencial ainda pouco aproveitado. Como solução, sugeriu uma agenda regional de investigação aplicada à agricultura, articulada com as necessidades concretas do setor.
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Painel "Coesão territorial e agricultura" -
Luís Leite Ramos, professor na UTAD e diretor executivo do Portugal por Inteiro -
Susana Carvalho, professora na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e vice-diretora da GreenUPorto -
Idalino Leão, presidente do Conselho de Administração da CONFAGRI -
Painel "Coesão territorial e agricultura"
Susana Carvalho, professora na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e vice-diretora da GreenUPorto – Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável, recordou que a idade média do agricultor em Portugal é atualmente de 64 anos. Apesar disso, salientou que os cursos ligados à agricultura apresentam empregabilidade praticamente total e, neste âmbito, a digitalização do setor pode ajudar a torná-lo mais atrativo para os jovens. Para a docente, além da renovação geracional, é urgente apostar no reskilling e na qualificação dos profissionais que já estão no terreno.
Também Idalino Leão, presidente do Conselho de Administração da CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal, considerou que o envelhecimento dos agricultores representa, “de longe, o maior falhanço da PAC desde que ela foi criada”. O dirigente apontou a fragmentação fundiária como um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor e defendeu a criação de programas de emparcelamento, deixando um alerta para os riscos ligados à segurança alimentar ao revelar que Portugal tem atualmente apenas 10 dias de stock de cereais para alimentação humana e animal.
Estratégia Norte 2040 como “pacto regional para o futuro”?
Na sessão de encerramento, Álvaro Santos, presidente do Conselho Diretivo da CCDR Norte, defendeu que a Estratégia Norte 2040 deve assumir-se como “um pacto regional para o futuro” e não apenas como mais um documento de programação. Até porque, insistiu, “as próximas décadas não serão decididas apenas nos centros políticos europeus, serão decididas também na capacidade de as regiões se posicionarem estrategicamente“, reforçando que “o futuro constrói-se a partir das regiões”.
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Álvaro Santos, presidente do Conselho Diretivo da CCDR Norte -
Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial
Já o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, admitiu que os resultados das últimas décadas continuam aquém do esperado, lembrando que a região norte está “ainda a 71% do PIB per capita da União Europeia”. O governante defendeu uma nova lógica de planeamento regional baseada em escolhas claras, integração entre competitividade e coesão e maior ligação entre financiamento, metas e resultados.
Para Manuel Castro Almeida, a Estratégia Norte 2040 terá de funcionar como um verdadeiro instrumento de transformação regional, capaz de combinar competitividade, inovação e coesão territorial, defendendo que a próxima década exige menos foco na despesa e mais foco no impacto. “O desafio que vos faço é que não tenham medo de escolher”, concluiu o ministro.
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