Luís Portela: “Eu tinha o sonho de levar novos medicamentos ao mundo a partir da Bial”
Tinha o sonho de estudar medicina para investigar as áreas da neurociência e da parapsicologia. Mas aos 21 anos, depois de o pai falecer, ficou à frente da Bial. Abdicou do caminho, mas não do sonho.
Luís Portela, Presidente da Fundação Bial, médico, professor e escritor, é o 80º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Com apenas 14 anos, adorava ler livros que explorassem os temas da espiritualidade, da neurociência e da parapsicologia. Mais tarde, essa curiosidade fê-lo querer estudar medicina para conseguir investigar estas áreas sob o ponto de vista científico. No entanto, ainda estava a estudar quando o falecimento do seu pai o levou a tomar uma decisão: abdicar de ser médico e investigador e assumir o legado que o avô e pai tinham criado, a Bial.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
“Eu ia lendo muitas coisas – desde o catolicismo ao protestantismo, do yoga ao budismo e ao espiritismo, lia filosofia – e procurava por aquelas coisas que eu gostava e que eu achava que eram verdade e importantes. E, em tudo aquilo que ia lendo, ia identificando, em todas as religiões e doutrinas, coisas que também não me agradavam. Por isso, acabei por ir cultivando algum prazer em me manter independente e de ser um livre pensador. E é aí que nasce aí o homem da ciência“, começou por dizer.
Se, por um lado, havia um fascínio pelo tema, por outro lado Luís Portela reconhece que se sentia confuso quando percebia que, “pela via da fé, as pessoas admitiam demasiadas coisas”: “Interessando-me pelos fenómenos que hoje são chamados parapsicológicos, e que estão profusamente relatados desde a antiguidade, eu percebi que quando as pessoas não percebiam algo, chamavam-lhe de mistério ou milagre. Eu era miúdo, mas não aceitava essas coisas. Acreditava que o universo tinha leis naturais e imutáveis que regem tudo e que haveria explicação para tudo”.
E foi a vontade de encontrar essa “explicação para tudo” que o levou a seguir medicina, isto porque lhe interessava encontrar o “caminho do meio”. “Eu não tinha muita pachorra para aceitar tudo pela via da fé, mas também me impressionava negativamente o o extremo pela via ciência, quando as pessoas diziam que nada disto existia. Como não existe? Achei que interessava encontrar o caminho do meio, que passava por admitirmos as coisas, tentarmos percebê-las, e estudá-las sob o rigor do método científico para esclarecer a humanidade sobre isso“, partilhou.
Entrou, por isso, em medicina, e confessa que teve “a sorte” de depois conseguir seguir psicologia médica, algo difícil na época. Mais tarde, foi destacado para ser docente de psicofisiologia na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto e ainda fez um estágio de seis meses no hospital psiquiátrico Conde Ferreira, no Porto. Ao todo, exerceu medicina durante três anos e docência durante seis.
Este percurso acabou por ser interrompido quando seu o pai faleceu, acontecimento que acabou por mudar totalmente o trajeto que Luís Portela havia pensado para a sua vida: “O meu pai faleceu com 50 anos. E, embora eu tivesse desenhado para mim um caminho na medicina e na investigação, que era onde eu me sentia bem, foi uma decisão livre minha abdicar da minha carreira pela empresa da família. Não o teria feito por nenhuma outra empresa porque não me sentia vocacionado para o mundo empresarial”.
Começou, assim, a trabalhar na Bial, empresa que nasceu com o seu avô e foi herdada pelo seu pai. Passou a ser trabalhador-estudante, mas admite que sempre teve a convicção de que quem acabaria por ficar na liderança seria o seu irmão mais velho. No entanto, aos 27 anos, quando surge a hipótese de ir fazer um doutoramento a Cambridge, sentiu que tinha de tomar uma decisão. “Analisamos, discutimos, e, com alguma surpresa minha, eu senti que, se fosse para Inglaterra, talvez a empresa fosse soçobrar. Ela estava a passar por um período difícil naquela altura, mas eu admirava a obra deles, tinha muito orgulho, e foi por isso que eu deixei a minha carreira médica e assumi a empresa, comprando a maioria“, contou.
-
Luís Portela, Presidente da Fundação Bial, no 80º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"O meu pai faleceu com 50 anos. E, embora eu tivesse desenhado para mim um caminho na medicina e na investigação, que era onde eu me sentia bem, foi uma decisão livre minha abdicar da minha carreira pela empresa da família" Hugo Amaral/ECO -
"Quando eu assumi a liderança da empresa, eu pensava que a melhor maneira de lhe dar continuidade era ir um bocadinho mais além. E isso passava por oferecer novas soluções terapêuticas ao mundo, à humanidade" Hugo Amaral/ECO -
"Agora, mais de 25% dos projetos que apoio já não são só de neurociências nem só de parapsicologia, mas sim conjuntos. E, para mim, é um enorme prazer estarmos a dar algum contributo neste sentido. Acho que é assim que o conhecimento se desenvolve" Hugo Amaral/ECO
É aqui que começa a sua grande aventura enquanto gestor, área para a qual não tinha “bases” e o fez reconhecer que precisava de encontrar as pessoas certas para atingir os objetivos que queria: “Eu sentia a minha fragilidade, mas tinha a ideia de que também não precisava de saber tudo, mas sim de me rodear de uma equipa forte e de ter a habilidade de coordenar bem essa equipa. E foi essa a minha grande aposta“.
“O primeiro Conselho de Administração que eu presidi, com 27 anos, tinha mais três membros. Dois deles podiam ser meus pais e o terceiro podia ser meu avô. E eu procurei, com essas pessoas, criar uma dinâmica que os fizesse perceber que a empresa tinha de se refrescar. Portanto, a primeira coisa que fiz foi refrescar os quadros da empresa, indo buscar a Lisboa profissionais que trabalhavam em multinacionais farmacêuticas. Nas áreas comerciais, fui buscar profissionais às empresas norte-americanas, que me pareciam ser as mais agressivas. E nas áreas administrativas e de planeamento, ia às empresas suíças e a uma ou outra portuguesa“, explicou.
A prioridade era “robustecer a empresa de gente boa – gente que fosse competente em termos profissionais, mas que também fosse gente boa em termos de caráter”. E, para assegurar isso, Luís Portela fazia questão de que todos os profissionais contratados pela Bial passassem por ele na última entrevista: “Até às 400 pessoas na empresa, eu conhecia-os todos pelo nome. Achava isso importante. Eles também me conheciam pelo nome e eu gostava que eles percebessem que eu era da mesma carne e do mesmo osso que eles são, e que tinha gosto de estar com eles olhos nos olhos”.
Além de escolher as melhores pessoas e profissionais para trabalharem consigo, também se preocupava em criar inovação porque sabia que só assim conseguiria internacionalizar-se. “Quando eu assumi a liderança da empresa, eu pensava que a melhor maneira de lhe dar continuidade era ir um bocadinho mais além. E isso passava por oferecer novas soluções terapêuticas ao mundo, à humanidade. Claro que as pessoas me diziam que isso não era possível em Portugal, mas eu tinha o sonho de levar novos medicamentos ao mundo a partir da Bial, a partir de Portugal“, afirmou.
Apesar das dificuldades, o sonho foi concretizado. Mas não sozinho. Ao mesmo tempo que dava continuidade ao legado familiar e o levava além fronteiras, Luís Portela também criou a Fundação Bial para apoiar investigadores das áreas da neurociência e da parapsicologia, cumprindo igualmente o sonho que tinha desde novo: “Quis apoiar a investigação com a Fundação Bial porque eu pensei que se conseguisse ajudar meia dúzia de investigadores, eles poderiam ir muito mais longe do que eu sozinho. Era uma forma de eu retribuir à vida, mas nunca imaginei que, ao fim destes anos, iria apoiar 1900 investigadores“.
Este apoio, a par do Simpósio “Aquém e Além do Cérebro”, tinha o objetivo de criar o tal “caminho do meio” com que sempre sonhou. “Havia uma separação imensa. Com o tempo, fomos percebendo que, a nível mundial, as coisas estavam a evoluir. Agora, mais de 25% dos projetos que apoio já não são só de neurociências nem só de parapsicologia, mas sim conjuntos. Já há projetos onde aparecem físicos, matemáticos, psicólogos, enfermeiros… E, para mim, é um enorme prazer estarmos a dar algum contributo neste sentido. Acho que é assim que o conhecimento se desenvolve“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Luís Portela: “Eu tinha o sonho de levar novos medicamentos ao mundo a partir da Bial”
{{ noCommentsLabel }}