Preços da energia sob pressão com a inteligência artificial, avisa a AIE
A Agência Internacional de Energia aponta que a sede por IA está a crescer e o apetite por centros por energia também. O PIB global pode sair beneficiado, mas os preços de energia estão pressionados.
O investimento por parte de empresas tecnológicas em inteligência artificial já atinge centenas de milhares de milhões de dólares, e espera-se que cresça 75% este ano. No que toca à energia que a inteligência artificial consome, a evolução tem sido a pique: há mais procura por IA, o triplo, mais consumo – disparou 50% no ano passado – e surgem usos cada vez mais intensivos em energia, embora esta evolução seja contrabalançada por mais eficiência, que avança a “um ritmo sem precedentes”.
As mais recentes estimativas da Agência Internacional de Energia sublinham que esta tecnologia pode beneficiar o crescimento das economias globais, mas representam também um risco para os preços da energia.
“As maiores empresas tecnológicas estão a contribuir para um aumento expressivo do investimento em centros de dados”, nota a Agência Internacional de Energia, no relatório “questões chave sobre Energia e Inteligência Artificial (IA)”, lançado esta segunda-feira. As despesas de capital destas empresas ultrapassaram os 400 mil milhões de dólares em 2025 e prevê-se que deem um salto de mais 75% em 2026.
Tendo em conta os volumes em causa, os capitais das empresas tornam-se insuficientes para financiar a construção de centros de dados, pelo que o desenvolvimento destes fica dependente dos mercados de capitais, e consequentemente de forças de mercado como as condições macroeconómicas e expectativas de retorno.
As “fábricas” de IA – centros de dados de ponta concebidos especificamente para a IA – mais do que triplicaram a sua capacidade nos últimos 18 meses, e o respetivo consumo de eletricidade disparou 50% em 2025. A procura por IA gira agora à volta de três pilares, “incertos e em rápida evolução”: melhorias na eficiência, adoção crescente e mudança nas capacidades dos modelos
Medindo por tarefa individual, a eficiência energética da IA está a melhorar “a um ritmo sem precedentes na história da energia”, relata a AIE, justificando esta evolução com avanços ao nível de hardware e software. As consultas de texto simples consomem agora, tipicamente, menos eletricidade do que ter uma televisão ligada durante o mesmo período de tempo, exemplifica o relatório.
A questão em relação aos consumos está, agora, a surgir noutra frente: estão a ser lançadas e utilizadas cada vez mais aplicações de IA intensivas em energia, tais como a geração de vídeo, raciocínio e tarefas baseadas em agentes autónomos. Estas tarefas podem “consumir centenas ou milhares de vezes mais energia por consulta do que a simples geração de texto”.
As capacidades da IA estão a melhorar rapidamente, aumentando a probabilidade de esta reconfigurar o crescimento económico, a inovação e a competitividade, bem como de desestabilizar indústrias e empregos estabelecidos.
Por fim, os principais fornecedores de modelos relataram um aumento para o triplo no número de utilizadores ativos e uma subida de cinco vezes nas receitas ao longo do último ano, destacando o rápido crescimento da procura.
A previsão da AIE é que o consumo de eletricidade dos centros de dados praticamente duplique, passando de 485 terawatts-hora (TWh) em 2025 para 950 TWh em 2030, representando cerca de 3% da procura global de eletricidade nessa data. Já o consumo de eletricidade por parte de centros de dados focados em IA deve triplicar neste período.
“As capacidades da IA estão a melhorar rapidamente, aumentando a probabilidade de esta reconfigurar o crescimento económico, a inovação e a competitividade, bem como de destabilizar indústrias e empregos estabelecidos”, escreve a agência.
Contudo, nem tudo são rosas. “A velocidade da revolução da IA contrasta cada vez mais com a velocidade dos sistemas físicos, sociais e económicos que a sustentam“. A AIE regista estrangulamentos nas cadeias de abastecimento de energia e no fabrico de chips avançados. Por outro lado, a mesma entidade alerta que os sistemas de planeamento e regulação “estão a ser levados ao limite” pela onda de candidaturas e a resistência das comunidades também é crescente.
Efeito no PIB deverá ser positivo
“Os primeiros sinais indicam que a IA está a impulsionar a produtividade em alguns setores, o que poderá impulsionar o crescimento económico global“, lê-se no relatório, que cita diferentes estimativas. Estudos académicos apontam para um crescimento entre os 0,92% e 1,6% ao ano, nos próximos 10 anos.
O Goldman Sachs é mais otimista: atira para os 7% de crescimento no Produto Interno Bruto (PIB). O Mckinsey Global Institute põe o tecto do crescimento nos 3,4% por ano até 2040 e, no mínimo, em 0,5%. A AIE frisa que a otimização dos processos de produção através da IA poderia reduzir os custos de energia entre 3 a 10 pontos percentuais em indústrias intensivas em energia.
IA pressiona preços da energia
“Os centros de dados são um ponto de tensão altamente visível no que toca às preocupações com os preços da energia e com o ambiente”, reconhece a agência internacional. De acordo com a mesma, as emissões associadas aos centros de dados atingem cerca de 350 milhões de toneladas em 2035, o dobro, mas representarão ainda assim apenas cerca de 2% das emissões globais do setor elétrico nessa data.
Já no que toca os preços, a AIE admite que “o crescimento da carga pode desencadear a necessidade de novos investimentos, aumentando potencialmente os preços”.
Os centros de dados “pedem” novos investimentos em geração e rede. No entanto, o desfasamento entre os centros de dados “de rápida evolução” e os “lentos investimentos” no setor da energia, bem como a incerteza sobre a sua carga, cria riscos de desalinhamento entre o investimento no sistema elétrico e a procura dos centros de dados. É este desencontro que, “se não for mitigado, poderá fazer subir os preços da eletricidade em alguns locais“.
Em oposição, uma procura de eletricidade previsível pode aumentar a eficiência na utilização de centrais elétricas, “reduzindo potencialmente os preços da eletricidade”, da mesma forma que números elevados e fiáveis de passageiros permitem às companhias aéreas baixar os preços médios dos bilhetes em rotas estabelecidas.
Para contrariar a possível subida de preços, a AIE sugere uma gestão proativa das carteiras de projetos de centros de dados e do investimento no setor elétrico, através da simplificação do licenciamento e reformas na “gestão das filas”. Além disso, atira, “a forma como os custos são alocados no sistema elétrico cabe, em última instância, aos decisores políticos”.
Mais flexibilidade na rede também é bem-vinda, assim como a remoção de barreiras à adoção de Inteligência Artificial no setor da energia, de forma a melhorar a segurança e a sustentabilidade energética.
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