IATA aponta limitações do aeroporto de Lisboa como maior risco para Portugal no verão

  • Lusa
  • 2 Junho 2026

“O Aeroporto Humberto Delgado está extremamente limitado em termos de capacidade. Isso é visível”, afirma vice-presidente regional da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) para a Europa.

A IATA considera que o maior risco para Portugal este verão são as limitações de infraestrutura, sobretudo no aeroporto de Lisboa, num contexto de forte procura e maior pressão no controlo de fronteiras. A organização não prevê escassez de combustível para aviação na Europa durante o verão, apesar dos alertas anteriores sobre possíveis cancelamentos.

Questionado sobre os principais desafios para os aeroportos e companhias aéreas portuguesas nos próximos meses, o vice-presidente regional da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) para a Europa, Rafael Schvartzman, apontou as limitações de infraestrutura. “Penso que o maior risco que Portugal tem este verão são as limitações de infraestrutura, refiro-me especialmente ao aeroporto de Lisboa”, disse em entrevista à Lusa.

O responsável explicou que a infraestrutura aeroportuária enfrenta constrangimentos de capacidade, numa altura em que se antecipa uma época de verão particularmente exigente para o transporte aéreo europeu. “O Aeroporto Humberto Delgado está extremamente limitado em termos de capacidade. Isso é visível”, afirmou.

Rafael Schvartzman apontou também o impacto do Sistema de Entrada/Saída da União Europeia, conhecido pela sigla inglesa EES, que substituiu os tradicionais carimbos nos passaportes por registos digitais. “O EES, no caso específico de Portugal, é uma situação séria”, disse, sublinhando, porém, que “em toda a Europa, há diferentes níveis de criticidade”. “Não é algo que nos dê confiança suficiente de que haverá, no geral, uma boa experiência para os passageiros”, acrescentou.

O novo sistema europeu de controlo de fronteiras entrou em funcionamento em outubro de 2025, de forma faseada, em Portugal e nos restantes países do espaço Schengen, tendo desde então agravado os tempos de espera nas fronteiras aéreas. Para reduzir as filas de passageiros provenientes de fora do espaço Schengen, entrou em funcionamento na sexta-feira no aeroporto de Lisboa um reforço de meios humanos e técnicos no controlo de fronteiras.

Rafael Schvartzman defendeu que é necessário garantir “ainda mais flexibilidade” e responder a falhas que podem estar relacionadas com tecnologia, infraestrutura ou recursos humanos. “Essas lacunas podem ser tecnológicas, de infraestrutura ou estar relacionadas com recursos, por exemplo, com o controlo fronteiriço ou a polícia de fronteiras não terem os efetivos necessários no terreno”, afirmou.

Para o responsável da IATA, a questão central é a capacidade do sistema aeroportuário português para absorver a procura prevista. “Seguramente, a maior questão é a capacidade de absorver esta procura. Atualmente, em Portugal, há um problema”, apontou, considerando ainda que a qualidade do serviço prestado no aeroporto de Lisboa está aquém do necessário. “Vê-se que a qualidade de serviço que está a ser prestada no aeroporto não é a que deveria ser”, afirmou.

O responsável referiu dados de pontualidade da Eurocontrol para sustentar as críticas ao desempenho do Aeroporto Humberto Delgado, apontado no relatório relativo a 2025 como o pior, nas partidas, entre os 30 principais aeroportos analisados, com uma pontualidade pouco abaixo de 51%. Para Rafael Schvartzman, estes números refletem a dificuldade do aeroporto em lidar com o volume atual de tráfego e têm impacto direto sobre passageiros e companhias aéreas.

Segundo dados da IATA, apresentados por Rafael Schvartzman nos AED Days 2026, na semana passada, em Oeiras, o transporte aéreo contribui com 20,2 mil milhões de dólares (cerca de 17,3 mil milhões de euros) para o PIB português, equivalente a 7,1% do produto interno bruto, e suporta 335 mil empregos.

O documento refere ainda que 84% das partidas de passageiros com origem ou destino em Portugal são internacionais e que 85% das partidas internacionais a partir de Portugal têm como destino a Europa. Na entrevista à Lusa, Rafael Schvartzman reforçou a importância do turismo para a economia portuguesa, lembrando que representa cerca de 12% do PIB.

Vê-se que a qualidade de serviço que está a ser prestada no aeroporto [de Lisboa] não é a que deveria ser.

Rafael Schvartzman

Vice-presidente regional da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) para a Europa

IATA afasta risco de falta de combustível para aviação na Europa no verão

A IATA não prevê escassez de combustível para aviação na Europa durante o verão, apesar dos alertas anteriores sobre possíveis cancelamentos, mas admite desafios se a crise energética se prolongar e antecipa pressão sobre os preços dos bilhetes.

“Para já, parece que o verão decorrerá sem problemas em termos de acesso ao abastecimento de combustível”, afirmou também Rafael Schvartzman.

Na entrevista, o responsável sublinhou que a avaliação atual aponta para “capacidade suficiente na Europa para o verão”, ainda que as previsões tenham um horizonte limitado. “A previsão ou avaliação é fiável num horizonte de quatro a seis semanas. Por isso, estamos constantemente a avaliar a situação com a nossa equipa, mas também com os fornecedores de combustível”, explicou.

Em abril, a IATA tinha admitido a possibilidade de cancelamentos na Europa até ao final de maio, caso se agravassem os constrangimentos no abastecimento de combustível de aviação, num contexto de pressão sobre as cadeias internacionais de fornecimento e de incerteza associada ao conflito no Médio Oriente.

Questionado sobre se esse risco se materializou, respondeu que, “nesta fase”, a situação melhorou face ao período inicial de maior incerteza.

“No início dos conflitos no Médio Oriente havia obviamente níveis elevados de incerteza. Há alguns aspetos que, digamos, melhoraram”, afirmou.

Entre esses aspetos, o responsável apontou a possibilidade de recorrer a combustível de aviação proveniente dos Estados Unidos, onde é usado sobretudo o Jet A, semelhante ao Jet A-1, padrão na maioria das operações internacionais, embora com diferenças técnicas, nomeadamente no ponto de congelação. “A EASA [Agência Europeia para a Segurança da Aviação] já emitiu uma nota com informação de segurança, no qual dá orientações sobre a utilização de Jet A-1 proveniente dos EUA”, disse.

Rafael Schvartzman acrescentou que os Estados Unidos, enquanto exportador, têm capacidade para fornecer combustível a partir da Costa Leste, mas indicou que, tanto quanto sabe, essa solução ainda não foi necessária.

“Hoje, tanto quanto sei, ainda não houve necessidade de importar Jet A. Mas essa é provavelmente uma variável que está a ser considerada para o futuro”, afirmou.

Segundo o responsável, esta alternativa poderá vir a ser equacionada se as avaliações sucessivas apontarem para maiores dificuldades no abastecimento, sobretudo mais perto do final do ano.

“Potencialmente no último trimestre do ano, poderá haver alguma escassez”, admitiu, ressalvando que “é ainda muito cedo para dizer” se tal cenário se confirmará. “Efetivamente, poderá ser necessário importar algum Jet A para compensar ou para garantir que há combustível suficiente”, acrescentou.

Sobre a diferença entre os alertas de abril e a avaliação atual, apontou a existência de reservas obrigatórias na União Europeia e a adaptação de alguns países com capacidade de refinação. “Existe na UE uma obrigação de reservas, e isso ajuda, sem dúvida”, afirmou, referindo que alguns países conseguiram também aumentar os volumes de produção de Jet A-1.

“Espanha está relativamente bem posicionada em termos de capacidade de refinação”, exemplificou, acrescentando que essa capacidade pode ajudar a abastecer outros países europeus.

Apesar de afastar, para já, o risco de falta de combustível no verão, a IATA alerta para o impacto do aumento dos custos nos preços das viagens aéreas. Rafael Schvartzman disse que o combustível, que anteriormente representava cerca de 25% a 30% dos custos operacionais das companhias aéreas, pesa agora mais de 40%.

“Hoje, estimamos que esse peso esteja acima dos 40%, podendo chegar a 45% ou 46% dos custos operacionais. Portanto, isso terá definitivamente um impacto direto nos preços”, afirmou.

O responsável reconheceu que parte do aumento pode ser absorvido pelas companhias, nomeadamente através de mecanismos de cobertura de risco (hedging), mas avisou que o efeito nos bilhetes é inevitável. “Isso irá definitivamente afetar os preços dos bilhetes”, disse, acrescentando que a expectativa é que o impacto seja “mais prolongado do que de curto prazo”.

Questionado sobre se os preços já estão a subir, o responsável respondeu: “Penso que já estão a aumentar. Provavelmente, sim”.

Além do combustível, a forte procura para o verão está também a pressionar os preços, sobretudo em destinos europeus, segundo Rafael Schvartzman. “Em vez de irem para o Extremo Oriente ou fazerem voos de longo curso para a Ásia, muitos estão a decidir ficar dentro da Europa”, afirmou.

Para os passageiros que já reservaram férias na Europa, Rafael Schvartzman deixou uma mensagem de tranquilidade, embora com apelo à preparação. “Eu não estaria preocupado”, disse. “Claro que é preciso manter-se bem informado”, recomendou.

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