Lucro das petrolíferas dispara no primeiro trimestre. Margens de refinação e trading são os gatilhos
As margens de refinação e os ganhos com o trading de combustíveis fósseis são dois dos grandes impulsionadores dos lucros das petrolíferas no primeiro trimestre.
O primeiro trimestre deste ano, marcado pelo conflito no Irão e pelo escalada nos preços do petróleo e dos combustíveis, trouxe às petrolíferas europeias subidas a pique nos lucros, acima dos dois dígitos — e, em alguns casos, chegam aos três.
As margens de refinação e os ganhos com o trading de combustíveis fósseis são dois dos grandes impulsionadores desta subida, de acordo com analistas e os relatórios e contas das próprias petrolíferas. E, já que a guerra arrancou no final de fevereiro, os efeitos deverão ser mais visíveis no próximo trimestre. Contudo, apesar da relação estreita da guerra com os ganhos financeiros melhorados, identificar a fatia das subidas que se deve ao conflito não é tarefa fácil.
“Todas as petrolíferas viram os seus resultados impulsionados pelo contexto energético internacional que lhes é favorável”, reconhece Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa. Do lado da XTB, o analista Vítor Madeira corrobora: “as petrolíferas europeias estão a beneficiar de forma substancial”.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
O conflito armado no Médio Oriente, decorrente do ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão, criou disrupções numa das principais artérias do comércio de petróleo a nível mundial, o estreito de Ormuz. Pressionada a oferta, os preços do ‘ouro negro’ dispararam mais de 63% em março, tendo subido a máximos de junho de 2022, o ano da última crise energética que assolou a Europa. Em paralelo, o contrato de gás natural que é referência para a Europa, o holandês Title Transfer Facility, disparou mais de 80%, em termos acumulados, no primeiro trimestre deste ano. Março contribuiu com uma subida de quase 60%.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Em abril e maio, as petrolíferas começaram a prestar contas aos investidores, e os saltos de gigante nos preços dos combustíveis fósseis fizeram-se notar. Entre as principais empresas do setor a nível europeu, a Repsol destaca-se com os lucros a dispararem 154%, num registo semelhante ao da britânica BP, cujo resultado líquido ‘acelerou’ 128%, em termos homólogos. A portuguesa Galp também apresentou uma subida relevante, acima de 40%.

“Esta prerrogativa das petrolíferas ocorre não só pela valorização do crude e aumento das margens de refinação, mas também pelos ganhos de trading energético em mercados muito voláteis”, resume Paulo Rosa. Vítor Madeira explica que os ganhos nas margens são colhidos vendendo o petróleo extraído a preços “fortemente inflacionados”, dado o prémio de risco geopolítico, sem que os seus custos fixos de extração tenham sofrido agravamentos proporcionais.
Em paralelo, o mesmo analista regista “ganhos excecionais” de trading e intermediação. “A grande volatilidade dos preços e o redirecionamento forçado das rotas logísticas permitiram às divisões de trading destas empresas gerar lucros fortes através da compra, armazenagem e revenda rápida de crude no mercado internacional”, relata. Olhando para TotalEnergies, Shell e BP, a XTB calcula que os ganhos adicionais com as operações de trading se situem entre os 3,3 mil milhões e os 4,75 mil milhões de dólares.
De facto, “excecional” é uma palavra ecoada pelas petrolíferas nos respetivos relatórios e contas, para classificar alguns dos ganhos no trimestre. A BP regista teve no segmento “Clientes e Produtos” a maior subida, já que o EBITDA ajustado desta rubrica se multiplicou por mais de seis vezes. No documento entregue aos investidores, a empresa britânica atribui as melhorias financeiras a maiores margens de refinação e a mais volumes processados, para depois rematar: “A contribuição da comercialização de petróleo foi excecional.”
A guerra no Irão, relata a francesa TotalEnergies, não trouxe apenas benefícios financeiros, já que obrigou ao encerramento de operações no Qatar, Iraque e Emirados Árabes Unidos. Mas orgulha-se de conseguir “captar o upside no preço” de combustíveis como petróleo e gás. A empresa, cuja subida de 51% nos lucros bateu as estimativas dos analistas consultados pela Reuters, tem no segmento de “Refinação e Químicos”, de longe, o maior crescimento – o EBITDA ajustado multiplicou-se por cinco, seguido da área de marketing e serviços, que valorizou apenas 9%. A petrolífera relata que as suas refinarias “captaram margens excecionais em março”, o mesmo mês em que “as atividades de comercialização de crude e de produtos petrolíferos alcançaram também um desempenho muito forte”.
Devemos notar que estes resultados têm como base os primeiros três meses do ano, o que não simboliza totalmente o efeito da guerra. Uma fatia significativa que só será visível na próxima apresentação de resultados.
A holandesa Shell repete a ladainha: o trimestre beneficiou de contributos superiores da comercialização e otimização, preços realizados mais elevados, maiores margens de refinação, menores despesas operacionais, compensando parcialmente os menores volumes. Por cá, a Galp atribui o crescimento dos ganhos na área de Upstream, que corresponde à exploração de petróleo e que cresceu 78% no primeiro trimestre, à “produção forte” no Brasil e a “ganhos mais elevados no petróleo, no seguimento do disparo dos preços do Brent em março”.

“Contudo, devemos notar que estes resultados têm como base os primeiros três meses do ano, o que não simboliza totalmente o efeito da guerra”, ressalva Vítor Madeira, já que as subidas nos preços dos combustíveis fósseis, em particular do petróleo, só aconteceu em março. Assim sendo, há “uma fatia significativa que só será visível na próxima apresentação de resultados”, realça. , por exemplo a Shell coloca no seu relatório que espera um crescimento dos lucros derivado do conflito no médio Oriente no próximo trimestre.
Lucros caídos do céu?
No Velho Continente, está em cima da mesa a aplicação de uma taxa sobre os chamados “lucros excessivos” ou “caídos do céu”. Portugal, em conjunto com Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, avançou com um pedido à Comissão Europeia para a criação de um imposto sobre os lucros extraordinários das energéticas, tendo em conta o contexto de pressão dos preços dos combustíveis no Médio Oriente. O pedido foi aceite, e está agora do lado de cada um destes países a definição dos critérios para a aplicação da mesma. Mas, na prática, pode não ser fácil criar as regras adequadas.
“É difícil identificar que uma determinada percentagem dos lucros resulta exclusivamente da guerra no Irão”, entende Paulo Rosa. Apesar de ser possível identificar preços mais altos do petróleo e do gás, margens de refinação mais fortes e ganhos de trading ”é muito difícil dizer que ‘X% do lucro’ veio diretamente da guerra no Irão”, concorda Vítor Madeira, analista da XTB.
A dificuldade, justificam, existe porque há vários fatores, além do preço do petróleo, a influenciar os lucros. A procura global, as políticas da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e aliados, níveis de stock, condições financeiras internacionais e expectativas dos mercados, são fatores importantes de contexto, destacados por Paulo Rosa.
Além destes, existem custos, câmbio, fiscalidade, contratos de longo prazo, hedging, sazonalidade e efeitos contabilísticos, acrescenta Vítor Madeira, para depois concluir: “A formulação mais correta seria dizer que uma parte relevante da melhoria dos resultados foi suportada pelo ambiente de preços e volatilidade criado pela crise, mas não que todo o lucro adicional é diretamente atribuível à guerra.”
Tendo isto em conta, o economista sénior do Banco Carregosa entende que a taxação dos chamados lucros excessivos (ou ‘caídos do céu’) “pode fazer sentido em contextos excecionais de graves tensões geopolíticas e crises energéticas, sobretudo quando parte relevante dos ganhos resulta não necessariamente de aumento de produtividade ou investimento, mas da subida abrupta dos preços internacionais da energia”.
Para ser feita de forma justa, esta tributação, na visão do economista, deve ser temporária, incidir apenas sobre lucros acima da média histórica e preservar previsibilidade fiscal. A preocupação que se impõe é “não penalizar investimento energético e industrial num setor fortemente intensivo em capital”. Em paralelo, sugere que Bruxelas deve estar presente nestas decisões, para minimizar diferenças concorrenciais entre países.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Lucro das petrolíferas dispara no primeiro trimestre. Margens de refinação e trading são os gatilhos
{{ noCommentsLabel }}