Resultados do PSI mostram “robustez financeira” no arranque do ano com energia e banca na liderança

Lucros das empresas da bolsa mantiveram a trajetória de crescimento no arranque do ano, apesar do impacto das tempestades e instabilidade global. Galp e BCP destacaram-se, papeleiras voltaram a sofrer

ECO Fast
  • As empresas cotadas na bolsa portuguesa apresentaram resultados positivos no primeiro trimestre de 2026, com destaque para a energia e a banca, apesar da instabilidade global.
  • O PSI registou lucros de 1.865,6 milhões de euros, um aumento de 6% em relação ao ano anterior, com a EDP e o BCP a superarem as expectativas do mercado.
  • O otimismo moderado persiste, mas a evolução futura dependerá de fatores externos, como tensões geopolíticas e fragilidade económica na Europa.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

As cotadas da bolsa portuguesa arrancaram o ano com o pé direito. Apesar do clima de instabilidade global e do comboio de tempestades que afetou o país, causando danos para várias empresas, a rentabilidade global das companhias listadas no índice PSI aumentou no primeiro trimestre do ano, em relação ao ano passado, com a energia e a banca em destaque. Analistas aplaudem robustez financeira e avançam com perspetivas positivas para o acumulado do ano.

A Ibersol anunciou, na última sexta-feira, que reduziu os prejuízos de 3,5 para 2,5 milhões de euros, fechando assim a época de apresentação de resultados do primeiro trimestre no índice de referência nacional. Contas feitas, as 15 empresas do PSI — Teixeira Duarte não revela contas trimestrais — lucraram 1383,3 milhões de euros, mais 6% que os 1.300 milhões registados nos primeiros três meses de 2025. Para o cálculo dos lucros das cotadas da bolsa foi contabilizado o resultado líquido de 31 milhões de euros da Semapa, que exclui a mais-valia registada pela empresa com a venda da Secil à espanhola Cementos Molins. Incluindo este ganho extraodinário, o resultado líquido da Semapa fixou-se em 513,3 milhões, elevando o valor global dos resultados do PSI para 1.865,6 milhões.

As receitas superaram os 16,8 mil milhões de euros, 3% acima do valor apresentado no período homólogo, enquanto o EBITDA subiu cerca de 6% para 4,49 mil milhões de euros.

“De um modo geral, as empresas demonstraram uma boa solidez financeira, com as respetivas equipas de gestão a mostrarem mais uma vez serem bastante competentes, mesmo naqueles casos em que o mercado foi bastante desafiante“, comenta Pedro Barata, gestor do GNB Portugal Ações. Em respostas ao ECO, o gestor destaca os resultados do BCP e da EDP, que ficaram “um pouco acima do que era esperado”, enquanto “a Navigator e os CTT tiveram trimestres um pouco mais fracos”, ainda que, “em ambos os casos, a mensagem foi relativamente positiva para o futuro próximo”.

De um modo geral, as empresas demonstraram uma boa solidez financeira, com as respetivas equipas de gestão a mostrarem mais uma vez serem bastante competentes, mesmo naqueles casos em que o mercado foi bastante desafiante.

Pedro Barata

Gestor da GNB

Pedro Barata destaca que, “face a estes resultados e apesar de estarmos ainda no início do ano, as perspetivas são boas” e “se a situação no Médio Oriente não se agravar nem se prolongar por muito mais tempo, poderemos vir a ter mais um bom ano na bolsa portuguesa“.

João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, também classifica esta época de resultados como “globalmente construtiva para as cotadas do PSI, embora com diferenças significativas entre setores”.

“O aspeto mais relevante não foi tanto o crescimento absoluto, mas sim a capacidade de superar as expectativas do mercado”, realça o responsável, notando que, “apesar de as vendas terem ficado, em média, cerca de 3,6% abaixo do esperado, os resultados líquidos ultrapassaram as estimativas dos analistas em mais de 10%, evidenciando uma boa disciplina operacional e capacidade de preservação de margens num contexto ainda desafiante”.

“Este desempenho sugere que muitas empresas portuguesas continuam a beneficiar de estruturas de custos mais eficientes, de uma gestão financeira prudente e de uma exposição relativamente limitada aos segmentos mais vulneráveis da economia global”, justifica João Queiroz.

Banca e Galp brilham, retalho é “porto seguro”

A melhoria da rentabilidade das empresas do PSI foi determinada pelos ganhos das empresas do setor da energia e da banca. Apesar da quebra de 12% dos lucros, a EDP continua a ser a empresa mais rentável da bolsa, com um resultado líquido de 378 milhões de euros, entre janeiro e março. Na lista das empresas com maiores lucros segue-se o BCP. O banco, que ganhou mais mil milhões em 2025, fechou o primeiro trimestre com um resultado líquido acima de 300 milhões de euros, uma subida homóloga de cerca de 26%.

A Galp Energia, com um lucro de 272 milhões de euros, destacou-se com uma escalada dos resultados de mais de 41%, à boleia da subida do preço do petróleo. “No plano corporativo individual, a Galp Energia assumiu-se como um dos grandes destaques do índice”, realça Vítor Madeira. Para o analista da XTB, os números foram animados “pela subida do preço do crude e pelo forte otimismo em torno dos novos projetos na Namíbia, embora a sua performance em bolsa tenha ficado abaixo de petrolíferas norte-americanas ou mesmo europeias”.

O analista destaca ainda o BCP, que “também superou largamente as projeções de consenso com um crescimento homólogo de 25,6% no resultado líquido, fixando-se nos 305,8 milhões de euros, desempenho que foi suportado pela contínua expansão da margem financeira e pela redução do risco, sendo um dos bancos líderes em bolsa em toda a Europa”.

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Vítor Madeira aponta ainda a evolução positiva da REN, cujos lucros saltaram 150% e do retalho alimentar. “Tanto a Jerónimo Martins como a Sonae reafirmaram o seu estatuto de portos seguros da bolsa nacional. Ambas as empresas demonstraram resiliência na faturação, o que mitigou a compressão de margens operacionais provocada pela agressividade promocional nos mercados ibérico e polaco, contudo a performance da Jerónimo Martins ficou aquém dos seus pares a nível europeu”, acrescenta.

Tanto a Jerónimo Martins como a Sonae reafirmaram o seu estatuto de portos seguros da bolsa nacional. Ambas as empresas demonstraram resiliência na faturação, o que mitigou a compressão de margens operacionais provocada pela agressividade promocional nos mercados ibérico e polaco.

Vítor Madeira

Analista da XTB

“O setor energético destacou-se positivamente, beneficiando da estabilidade dos ativos regulados, da crescente relevância das energias renováveis e de uma gestão eficiente dos investimentos realizados nos últimos anos”, reforça João Queiroz, acrescentando que “também os setores financeiro, das telecomunicações e do consumo apresentaram um desempenho globalmente favorável, sustentado por uma procura relativamente sólida e pela capacidade de adaptação a um ambiente económico em transformação”.

Em sentido contrário, os setores dos materiais e da indústria evidenciaram maior vulnerabilidade à desaceleração industrial europeia e ao abrandamento da procura externa“, sustenta ainda o mesmo responsável.

Pasta e papel sofrem de novo

O setor da pasta e do papel, que tem sido fortemente pressionado pelo contexto internacional, voltou a sofrer, desta vez com os danos das tempestades que atingiram o país. A Navigator viu os seus lucros afundarem para 17,2 milhões no arranque do ano, arrastados pelas tempestades e pelos custos da energia, enquanto a Altri passou de lucros a 7,3 milhões de prejuízos, também afetada pelo temporal.

As empresas mais expostas ao consumo, aos serviços essenciais e a atividades reguladas conseguiram preservar o crescimento e, em vários casos, melhorar a rentabilidade, enquanto os setores mais dependentes do ciclo industrial global enfrentaram condições menos favoráveis

João Queiroz

Head of trading do Banco Carregosa

“Os resultados apresentados pelas cotadas do PSI revelam que as empresas mais expostas ao consumo, aos serviços essenciais e a atividades reguladas conseguiram preservar o crescimento e, em vários casos, melhorar a rentabilidade, enquanto os setores mais dependentes do ciclo industrial global enfrentaram condições menos favoráveis”, destaca o head of trading do Banco Carregosa.

Otimismo, mas moderado

Para João Queiroz, importa ressalvar que “mais do que uma alteração estrutural na competitividade das empresas, esta earnings season parece ilustrar uma fase de transição em que a visibilidade sobre o crescimento futuro continua condicionada por fatores externos que escapam ao controlo das próprias sociedades cotadas”.

“Os resultados do primeiro trimestre permitem encarar 2026 com moderado otimismo, embora sem ignorar os riscos que continuam presentes”, avisa.

Apesar da economia portuguesa manter fundamentais relativamente robustos, João Queiroz nota que “a evolução dos próximos trimestres dependerá cada vez mais de fatores externos“. “A intensificação das tensões geopolíticas, a persistência de conflitos armados em regiões estratégicas e a crescente fragmentação do comércio internacional introduzem um grau de incerteza que não pode ser desvalorizado”.

“Acresce que o crescimento económico europeu continua a revelar sinais de acrescida fragilidade, particularmente em setores industriais que desempenham um relevante papel nas cadeias de logística das empresas exportadoras portuguesas”, remata.

Dito isto, diz, “o cenário mais provável não é o de uma deterioração generalizada dos resultados empresariais, mas antes o de um crescimento mais moderado e menos homogéneo do que aquele que se verificou em anos recentes”. “A principal questão para os próximos trimestres não será tanto a capacidade das empresas gerarem crescimento, mas antes a sua aptidão para manterem a rentabilidade num contexto internacional mais incerto, volátil e menos previsível do que aquele que caracterizou os últimos anos”, reforça.

Vítor Madeira lembra que “o ano de 2026 arrancou com relativo otimismo, mas a instabilidade geopolítica global e os choques no Médio Oriente criaram novos entraves a um crescimento homogéneo“, uma conjuntura que veio reacender as pressões inflacionistas na Zona Euro, “alimentando agora a forte expectativa de várias subidas das taxas de juro por parte do BCE até ao final do ano para conter a escalada de preços”.

“As decisões do BCE, o sentimento do mercado europeu e o cenário internacional funcionarão como o principal catalisador ao potencial de valorização do mercado, mas substancialmente mais prudente”, conclui.

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