Saldo comercial negativo. Empresas de bens com IDE têm impacto “heterogéneo” nas contas externas de Portugal
Empresas de bens com IDE em Portugal apresentam saldo comercial negativo, enquanto as de serviço têm saldos positivos, exportando mais serviços do que importam.
As empresas de bens com investimento estrangeiro em Portugal tendem a contribuir significativamente para as exportações, mas apresentam, em termos líquidos, um saldo comercial negativo, ao contrário do que acontece com as empresas de serviços, revela uma análise do Banco de Portugal divulgada esta terça-feira.
No final de 2025, o stock de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) em Portugal ascendia a 213,7 mil milhões de euros, o equivalente a 70% do Produto Interno Bruto (PIB). Os dados do regulador bancário mostram o crescente peso na economia portuguesa, sobretudo quando se verifica que em 2008 correspondia a 46% do PIB. Contudo, a análise do regulador bancário revela igualmente uma outra realidade que tende a passar mais despercebida, o seu impacto nas contas externas.
E é este ponto que permite introduzir novos argumentos ao debate sobre o papel do IDE na economia portuguesa, ao concluir que existe um impacto relevante, embora “heterogéneo” nas contas externas. Isto porque, por um lado, as empresas de bens contribuem significativamente para as exportações, mas, por outro, apresentam, em termos líquidos, um saldo comercial negativo, e as dos serviços têm o comportamento contrário.
De acordo com o Banco de Portugal, entre 2015 e 2025, as empresas com IDE foram responsáveis, em média, por 44% das exportações de bens e serviços, o equivalente a 19% do PIB. No entanto, representaram também 55% das importações de bens e serviços, o correspondente a 24% do PIB.
Deste modo, registaram sempre um saldo negativo na balança comercial, que em média, ascendeu a -4,6% do PIB, contra -0,4% do PIB nas empresas sem investimento direto.

“O impacto das empresas de investimento direto no saldo da balança comercial é, assim, mais significativo, apesar de representarem, em média, apenas cerca de 20% das empresas consideradas ao longo do período analisado”, detalha o Banco de Portugal.
Os dados revelam ainda que o setor em que as empresas com capital estrangeiro operam influencia também o seu peso nas exportações e nas importações de bens e serviços, uma vez que o setor da indústria exporta mais do que importa, registando-se o contrário para o setor do comércio.
Contudo, na balança de serviços, verificou-se o contrário. Tanto as empresas com IDE como as restantes empresas apresentaram saldos positivos, ou seja, exportaram mais serviços do que importaram. “No caso das empresas com investimento direto estrangeiro, o saldo positivo tornou-se particularmente relevante nos anos mais recentes”, dá nota o regulador.
Segundo a análise da instituição liderada por Álvaro Santos Pereira, nas atividades de consultoria, informação e comunicação, as empresas com IDE apresentaram saldos positivos mais elevados do que as restantes empresas, enquanto no setor dos transportes e armazenagem, aconteceu o contrário.
“Apesar de ambos os grupos registarem igualmente saldos positivos, o saldo foi mais elevado nas empresas sem investimento direto estrangeiro. Neste setor, foram as empresas sem investimento direto estrangeiro que mais contribuíram para a capacidade de financiamento de Portugal perante o exterior“, explica a nota do Banco de Portugal.
O regulador recorda ainda que as empresas de IDE tendem também a reduzir a capacidade de financiamento da economia através dos rendimentos pagos ao exterior e que nos últimos dez anos corresponderam em média a 4% do Produto Interno Bruto (PIB).
Numa publicação no X, o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, salienta assim que “quando se fala do impacto do investimento direto estrangeiro, é importante também falar do setor em questão”. “Nalguns setores, o investimento estrangeiro tende a melhorar o saldo comercial, noutros a tende a deteriorar”, escreveu.
(Notícia atualiza às 19h22 com a nota da publicação do governador do Banco de Portugal na rede social X)
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