Açúcar e embalagens ‘azedam’ resultados do grupo RAR. Lucros afundam 75%
Conglomerado da família Macedo Silva mantém faturação acima dos mil milhões de euros e procura “novas oportunidades de diversificação”. Volatilidade nos mercados aconselha "cautela nos investimentos".
- O grupo RAR registou uma queda significativa de 75,3% nos lucros consolidados, totalizando 8,2 milhões de euros, devido à volatilidade do mercado.
- Apesar da faturação ter superado mil milhões de euros, com um aumento de 3,2%, o EBITDA caiu 16,4%, refletindo a pressão nos negócios de açúcar e embalagens.
- A empresa antecipa um ambiente desafiador em 2026, mas mantém a intenção de diversificar e encontrar novos equilíbrios para garantir crescimento sustentável.
Com negócios das embalagens e do enchimento de cosméticos às saladas e ervas aromáticas, passando pela refinação de açúcar, importação de cereais e imobiliário, o histórico grupo RAR viu os lucros consolidados afundarem 75,3% para 8,2 milhões de euros no ano passado, em termos homólogos. Com quase 3.500 trabalhadores, o presidente da holding, Nuno Macedo Silva, assinala que a maior volatilidade nos mercados “aconselha passos cautelosos nos investimentos” em 2026.
Num exercício em que manteve a faturação acima do patamar dos mil milhões de euros, com uma progressão de 3,2% para 1.043 milhões que “reflete a “resiliência dos negócios e a capacidade de adaptação num ambiente internacional ainda desafiante”, o grupo empresarial sediado no Porto baixou o EBITDA para 67,7 milhões (-16,4%). “Essencialmente devido ao impacto negativo do negócio da RAR Açúcar”, justifica o presidente, mas pressionado também pelos produtos de consumo e embalagens da Colep.
Antevemos um aumento da volatilidade nos mercados, muito condicionada pela política americana, o que aconselha passos cautelosos nos investimentos, mas, ao mesmo tempo, nos desafia a encontrar novos equilíbrios neste ‘novo normal’.
Sinalizando a descida da dívida financeira líquida para 208 milhões de euros (vs. 245 milhões em 2024), “apesar do forte investimento” realizado no ano passado, mas que “ainda não [contribuiu] em pleno para os níveis atuais de rentabilidade”, o empresário que herdou o negócio do pai João no ano 2000, quando tinha apenas 35 anos, destaca que as cadeias de abastecimento têm de se adaptar à “forte turbulência das tarifas no comércio internacional” e que também desafia o grupo nortenho a “encontrar novos equilíbrios neste ‘novo normal’”.
No mais recente relatório e contas anual, a que o ECO teve acesso, o conglomerado detido pela família Macedo Silva assegura que “apesar do ambiente externo continuar marcado por incerteza”, conta para este ano com “bases sólidas para prosseguir o crescimento sustentável”.
Por outro lado, garante que mantém o “propósito de identificar novas oportunidades de diversificação que reforcem a resiliência e amplitude estratégica” do grupo fundado em 1962.

Com operações concentradas na Península Ibérica e num setor fortemente regulamentado pelas regras da União Europeia e marcado pela elevada pressão concorrencial, em particular por parte dos produtores de açúcar de beterraba, a RAR Açúcar, com 254 trabalhadores, perdeu quase 30% das vendas no ano passado – caíram para 72,4 milhões de euros – e registou um EBITDA negativo em 11 milhões.
“A conjuntura global adversa vivida na campanha de 2024/2025, marcada por excesso de produção à escala mundial e europeia e pela volatilidade dos custos dos fatores de produção, em especial da matéria-prima, aliada à elevada pressão no sentido da baixa sobre os preços de venda, impactaram significativamente todo o setor açucareiro na UE, conduzindo a uma degradação das suas margens que culminou em resultados de exploração negativos”, resume a proprietária.
Para a campanha deste ano já perspetiva “resultados de exploração significativamente melhores”, em função da melhoria da margem de comercialização e dos ganhos de eficiência operacional por via das medidas que adotou para reduzir os custos de produção, como a implementação da laboração contínua, e dos “investimentos estratégicos” de 12 milhões no último ano, como a instalação de uma nova central de produção de vapor a partir de biomassa.
Fábricas no México dividem ‘irmãs’ da Colep
Apesar da atividade original ser na refinação de açúcar de cana, o ‘porta-aviões’ do grupo é a Colep, fundada há seis décadas pelo histórico empresário Ilídio Pinho e que passou pelas mãos de um fundo de George Soros e do BES antes de ser comprada pelo grupo no início do século – já na liderança de Nuno Macedo Silva, que a Forbes Portugal colocou na 24ª posição da lista de 2025 dos “50 Mais Ricos de Portugal”, com uma fortuna que ascende a 620 milhões de euros.
No verão de 2021, a Colep concretizou a cisão das unidades de negócio de produtos de consumo e de embalagens. Na sequência desta operação, a antiga Colep Portugal passou a designar-se Colep Consumer Products (CCP), sendo atualmente comandada pelo italiano Pierfranco Accardo, enquanto a área de embalagens assumiu a designação Colep Packaging e passou a ser liderada por Paulo Sousa, que se mantém no cargo.
Com 1.027 trabalhadores e uma faturação de 345 milhões em 2025, ligeiramente acima do ano anterior, a CCP é um dos principais contract manufacturers mundiais de cosméticos e produtos de cuidados pessoais, e viu o EBITDA diminuir de 36 para 38 milhões, “apesar do forte foco na gestão dos custos operacionais”.
Vendida a fábrica no Brasil e concluída a reestruturação industrial na Alemanha, a empresa que investiu num hub de inovação em Vale de Cambra e tem também uma unidade na Polónia beneficiou do “bom desempenho” no México, onde mais do que duplicou as vendas – destinadas também aos EUA.

Já a ‘irmã’ das embalagens, que emprega 800 pessoas, sofreu precisamente no México com o arranque da parceria com a argentina Envases, com quem montou uma fábrica local, e que “progrediu a um ritmo mais lento do que o antecipado devido a problemas operacionais”, relata o presidente da holding.
Por outro lado, diz que a Colep Packaging foi “pressionada na rendibilidade por um mercado muito competitivo em preços e com as matérias-primas condicionadas pelas tensões dos mercados globais”. O EBITDA fixou-se nos 26 milhões de euros, abaixo dos 27,5 milhões no exercício anterior.
“As condições de mercado [mantiveram-se] altamente competitivas, com uma pressão significativa sobre os preços de venda em diversos segmentos, influenciada pela incerteza associada ao custo das matérias-primas, bem como pelo impacto das tensões geopolíticas e das disputas comerciais nos mercados globais, cujos efeitos permanecem difíceis de quantificar. Por outro lado, o arranque das operações no México enfrentou desafios operacionais que resultaram, ao longo do exercício, em custos operacionais superiores aos inicialmente estimados”, resume.
Já como reflexo do crescimento orgânico e expansão da presença industrial – por via desta nova fábrica mexicana que sofreu “alguns desvios face ao planeamento inicial”; da nova linha de produção na unidade de Barcelona (aerossóis de alumínio) que comprou à família Massanet e juntou em Espanha à que já tinha em Navarra; e do alargamento na Polónia (Kleszczów) à área de tintas e vernizes –, o volume de negócios da Colep Packaging aumentou 11% em termos homólogos, ascendendo a 166 milhões de euros no último exercício.

No ramo alimentar, a Vitacress aumentou a faturação em 4%, para cerca de 224 milhões de euros, com o EBITDA a melhorar igualmente 13% para 14,5 milhões, “refletindo uma forte execução operacional, inovação direcionada, gestão disciplinada de custos e esforços para minorar os efeitos da inflação”.
Especializada em saladas prontas a consumir e ervas aromáticas frescas, a participada da RAR emprega 1.333 pessoas e está presente no Reino Unido, Portugal, Espanha, Países Baixos, Bélgica e Alemanha.
Já a Acembex, fundada em 1970 e que passou a ser detida na íntegra pela RAR logo no início dos anos 1980, é uma dos maiores operadoras nacionais de cereais, principalmente trigo, milho e cevada, e de outras matérias-primas para a indústria agroalimentar.
Em 2025 movimentou mais de 900 mil toneladas – reclama uma quota nacional de 23% na importação de cereais e coprodutos –, com a faturação a subir de 198 para 227 milhões de euros e o EBITDA a acompanhar a subida de 1,4 para 1,8 milhões.

Finalmente, mantendo a contribuição de 14,2 milhões de euros para as vendas consolidadas, mas vendo o EBITDA baixar de 3,3 para 1,5 milhões em 2025, a unidade de negócio criada para gerir o património imobiliário do grupo e que na década de 1990 expandiu a atuação para a promoção com foco no segmento alto do mercado habitacional, concluiu o projeto “Boavista 5205” no Porto e o “Novo Parque” em Matosinhos, prosseguindo em construção e comercialização as moradias “Montebelo Villas”, na Foz Velha, na cidade Invicta.
Mais polémico arrisca ser o projeto da RAR Imobiliária para os terrenos que comprou em Nevogilde, também no Porto. As unidades de loteamento da futura Avenida Nun’ Álvares, colocadas em consulta pública e muito contestadas localmente, permitiam a construção de três torres de até 25 andares, com fachadas até 100 metros de altura.
O grupo diz que aguarda a “tomada de decisões” por parte da autarquia liderada por Pedro Duarte relativamente à Unidade Operativa de Planeamento e Gestão, “com vista à redefinição do enquadramento urbanístico aplicável”.
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