BCE considera que o novo choque energético assusta menos que 2022
A inflação na Zona Euro subiu acima dos 3%, mas quatro economistas do BCE garantem que o novo choque energético tem muito menos força para se transformar numa espiral de preços como a de 2022.
- A Zona Euro enfrenta um novo choque energético, mas com menor risco de inflação descontrolada em comparação com 2022, segundo economistas do BCE.
- A inflação na área do euro atingiu 3,2% em maio, refletindo um contexto macroeconómico menos explosivo, com a Europa a beneficiar do aumento das energias renováveis.
- As finanças públicas apresentam um défice estrutural elevado, limitando a capacidade de resposta a novos choques, o que exige vigilância atenta sobre a dinâmica inflacionista.
A Zona Euro enfrenta um novo choque energético, mas desta vez com muito menos risco de uma espiral inflacionista como a que marcou 2022 depois da invasão russa da Ucrânia, refere uma análise de quatro economistas do Banco Central Europeu publicada esta quarta-feira
A inflação na área do euro chegou a 3,2% em maio, acima do objetivo do BCE, mas o contexto macrofinanceiro atual é, em vários aspetos decisivos, menos explosivo. A diferença começa na natureza do choque.
Se em 2022 foi o gás natural o principal combustível da crise, arrastando consigo os preços da eletricidade para máximos históricos, desta vez é o petróleo que está no centro da perturbação, com o Brent e o gasóleo a subirem mais rapidamente do que em 2022, mas com o gás e a eletricidade a reagirem de forma muito mais contida porque, em grande medida, a Europa apostou fortemente nas renováveis desde então.
“A sensibilidade direta dos preços ao consumidor a um dado choque nos preços grossistas de energia diminuiu”, sendo o exemplo mais claro “o crescente papel amortecedor da eletricidade gerada a partir de fontes renováveis”, referem Óscar Arce, Niccolò Battistini, Othman Bouabdallah e Eliza Lis, autores do estudo “Uma história de duas crises energéticas – as condições iniciais fazem a diferença”. O estado da economia quando o choque chegou reforça esta leitura.
- Em 2022, a inflação já rondava os 5% a 6% e estava em aceleração, num contexto de procura aquecida e gargalos nas cadeias de abastecimento.
- Em 2026, o choque encontrou uma inflação ligeiramente abaixo de 2%, próxima do objetivo do BCE, e um mercado de trabalho menos sobrecarregado marcado por uma taxa de emprego por preencher de 2,2% no primeiro trimestre, depois dos máximos históricos do final de 2021.
Segundo os autores, “a combinação de uma procura de trabalho em declínio e de uma oferta de trabalho em crescimento constante levou, por sua vez, a uma diminuição acentuada da escassez de mão-de-obra reportadas pelas empresas“, facilitando “uma moderação sustentada nas taxas de crescimento salarial”.
As finanças públicas, porém, contam uma história menos reconfortante. À superfície, o défice orçamental da Zona Euro é semelhante — 3,2% do PIB em 2022 e 3,3% em 2026 –, mas o espaço orçamental real é muito mais estreito, com o défice estrutural a ser hoje mais elevado, os custos de refinanciamento da dívida soberana a aumentarem materialmente face aos mínimos históricos de 2022 e vários países, incluindo a Alemanha e os Países Baixos, já estão a aliviar as suas políticas orçamentais com pacotes de despesa em defesa e infraestruturas.
Segundos os autores do estudo, esta realidade “deixa consideravelmente menos margem para implementar medidas adicionais de apoio às famílias e às empresas“, como tetos de preços que poderiam atenuar o impacto inflacionista no curto prazo.
O choque de 2026 é mais global do que o de 2022, o que significa que as pressões de custos se propagam mais amplamente pelas cadeias de valor mundiais.
No balanço final, o BCE não ignora os riscos. O choque de 2026 é mais global do que o de 2022, o que significa que as pressões de custos se propagam mais amplamente pelas cadeias de valor mundiais, com potencial para efeitos não-lineares caso a perturbação se revele maior ou mais prolongada do que o esperado.
A memória recente de uma inflação elevada também pode tornar famílias e empresas mais reativas a novos choques e é nesse sentido que os autores apontam para uma “monitorização atenta” dos efeitos sobre a dinâmica da inflação, “com especial atenção às características macrofinanceiras específicas da Zona Euro hoje”.
Esse apelo à vigilância chega no momento certo. A uma semana da reunião do Conselho de Governadores do BCE, marcada para os dias 10 e 11 de junho em Frankfurt, a inflação acima dos 3% voltou a reacender o debate sobre uma possível subida das taxas de juro, uma decisão que os mercados aguardam com uma mistura de expectativa e apreensão, e que poderá definir o tom da política monetária europeia para os meses que se seguem.
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