CGTP vê greve de dimensão idêntica à de dezembro. Governo fala em “adesão residual”
CGTP fala em greve de dimensão idêntica à de dezembro. CIP vê níveis de adesão abaixo da última paralisação. Governo também refere adesão residual e insiste na reforma laboral.

São 55 as páginas do documento que a CGTP enviou, ao fim da tarde, aos jornalistas a dar conta de empresas paradas ou com altos níveis adesão à greve geral desta quarta-feira. Já ao almoço, o secretário-geral, Tiago Oliveira, falava numa paralisação de dimensão idêntica à levada a cabo em dezembro. Em contraste, mais uma vez, o Governo garantiu que o país não parou e a ministra do Trabalho fez questão de assinalar que, no setor privado (aquele que será abrangido pela reforma laboral) a adesão foi mesmo residual.
“É uma grande greve geral“, declarou o secretário-geral da CGTP, cerca de uma hora depois de a ministra da tutela, Maria do Rosário Palma Ramalho, ter anunciado que a adesão no setor privado estava a ser muito baixa, com base nos números das confederações empresariais e das grandes empresas.
Aos jornalistas, Tiago Oliveira indicou que a paralisação desta quarta-feira terá tido uma “dimensão muito idêntica à de 11 de dezembro” (a primeira contra esta reforma da lei do trabalho), com dezenas de empresas paradas. Entre elas, mostra o documento desta central sindical (que pode consultar na íntegra abaixo), estão a Bosch Braga, a Bimbo, a Knorr, bem como dezenas de escolas e muitas câmaras municipais.
Sem serviços mínimos, o Metro de Lisboa também este parado ao longo deste dia e as viagens da CP foram reduzidas ao essencial. Na saúde privada, tanto a CUF Sintra, como o Hospital da Luz em Lisboa registaram “impactos significativos”, de acordo com a central sindical liderada por Tiago Oliveira.
Este cenário descrito pela CGTP contrasta, porém, com aquele que foi sendo relatado pelo Governo. Para as 11h30, a ministra do Trabalho convocou uma conferência de imprensa, na qual fez um primeiro balanço e garantiu, assim, que “a esmagadora maioria dos trabalhadores está a trabalhar nos seus locais de trabalho“.
“No setor privado, a adesão privado é absolutamente residual e em algumas áreas nula“, assegurou Maria do Rosário Palma Ramalho. Uma visão que o Governo viria a reiterar num balanço feito já depois das 19h.
Em detalhe: na indústria, a ministra garantiu que nenhuma fábrica parou; No turismo, não existiu adesão na hotelaria, nem nas agências de viagens”; Na agricultura, a greve não teve expressão, com as grandes empresas a não registar interrupções; Na banca, todas as agências da Caixa Geral de Depósitos e dos principais bancos privados estão abertas e os serviços centrais estão a funcionar; Na construção, a adesão foi residual; E, no setor energético, a EDP indicou que houve uma adesão de 3%
Ainda assim, a ministra da tutela reconheceu que, no setor público, a adesão à greve geral estava a ser mais forte, em linha com o que sucedeu também na greve geral de 11 de dezembro. Palma Ramalho adiantou que 23% dos funcionários públicos estiveram ausentes, mas ressalvou que esse número incluiu trabalhadores que estiveram a exercer as suas funções remotamente, e não em greve.
“Os setores com maior adesão foram a educação, a saúde e os transportes, na esfera pública”, disse a ministra. Por exemplo, o ministro da Educação Fernando Alexandre indicou que só 48% dos alunos realizou prova ModA de português devido ao encerramento dos estabelecimentos escolares. Palma Ramalho apontou também que “entre 38 e 45% das escolas estiveram encerradas”.
Na saúde, só se realizaram 25% das cirurgias programadas e 72% das cirurgias programadas. No INEM, houve uma adesão de 1,6%. Nos portos, só o de Setúbal viu a sua atividade reduzida em 88%.
A ministra da tutela frisou ainda que o dia de atividade económica foi normal. “Os consumos de energia e gás não tiveram alteração. Os movimentos de cartões, segundo indicação da SIBS, não tiveram alteração. E às 15h00 havia um acréscimo de movimento das duas pontes em 0,2%“, detalhou Palma Ramalho.

Também ao fim do dia, a própria Confederação Empresarial de Portugal enviou, em comunicado, um balanço da adesão a esta greve geral, referindo que os números sinalizam que terá sido menor do que a verificada na paralisação de 11 de dezembro, “a qual já tinha sido muito baixa, conforme o processamento de salários em janeiro de 2026 veio a confirmar”.
“Setores como a indústria química, metalomecânica, têxtil, calçado, madeira e mobiliário, indústrias gráficas e transformadoras do papel, setor automóvel, cimentos, a grande distribuição, farmácias, a indústria farmacêutica, a hospitalização privada ou os seguros praticamente não registaram adesões à greve geral em qualquer ponto do país. No setor elétrico e eletrónico e agroindustrial, nas unidades em que houve um maior número de trabalhadores em greve, a adesão terá ficado entre os 2 e os 3%“, detalhou a confederação liderada por Armindo Monteiro.
“Segundo os dados disponíveis e confirmados, esta greve geral passou ao lado da grande maioria das empresas portuguesas”, afirmou, assim, a CIP. “O que os nossos associados nos transmitiram foram níveis de greve nulos ou inexpressivos, em regra limitados a trabalhadores com ativismo sindical”, deu ainda conta a confederação.
Reforma laboral continua a fazer caminho

Apesar da paralisação desta quarta-feira (a segunda em seis meses), o Governo garantiu que vai insistir na reforma da lei do trabalho, que tem agora a Assembleia da República como palco.
Aliás, neste dia de protesto, o Parlamento escolheu o dia para dar início à discussão na generalidade deste pacote de mais de 100 mudanças ao Código do Trabalho: 18 de junho.
Ainda assim, não é certo que desfecho terá nessa sede. Sem maioria absoluta na Assembleia da República, o Governo da AD precisa de encontrar apoio na oposição. O Chega tem sido apontado como o parceiro mais previsível, mas o próprio parceiro de André Ventura já deixou críticas e disse que, como está, esta reforma merece ser chumbada.
Esta quarta-feira, perante a greve geral, André Ventura atirou mesmo: “Esta lei laboral será derrotada onde tem de ser derrotada: no Parlamento”.
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