Coface revê crescimento de Portugal para 1,6% e petróleo a 80 dólares no pós-guerra
O economista chefe da Seguradora de crédito presente em 190 países reduz previsões do crescimento de Portugal para 1,6% em 2026. O barril de petróleo deve estabilizar nos 80 USD.
A economia mundial enfrenta um período de crescimento mais lento, maior fragmentação e riscos acrescidos associados às tensões geopolíticas, energéticas e comerciais. O alerta foi deixado por Bruno de Moura Fernandes, Head of Macroeconomic Research da Coface, durante a Conferência de Risco País da seguradora de crédito, onde apresentou um cenário de abrandamento económico global e agravamento das dificuldades para as empresas.
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Segundo as previsões da Coface, o crescimento do PIB mundial deverá estabilizar entre 2,2% e 2,5% entre 2026 e 2027, refletindo um contexto internacional marcado por elevada incerteza. “A economia mundial enfrenta um cenário de crescimento mais fraco, mais desigual e muito mais exposto a riscos geopolíticos, energéticos e comerciais”, afirmou o economista. Em Portugal, esta estimativa de crescimento do PIB situa-se agora nos 1,6%, bastante abaixo dos 2,4% que a Coface previa no início de fevereiro deste ano, antes do início da guerra Estados Unidos- Irão.
Um dos principais fatores de risco identificados prende-se com a escalada das tensões no Médio Oriente e o impacto que uma eventual interrupção prolongada do tráfego marítimo no estreito de Ormuz poderia ter na economia global. A região concentra cerca de 20% do comércio mundial de petróleo, mas os efeitos de uma perturbação prolongada iriam muito além do setor energético.
De acordo com Bruno de Moura Fernandes, cadeias industriais e setores estratégicos como fertilizantes, transportes, automóvel e tecnologia seriam diretamente afetados. Ao mesmo tempo, “a Europa e a Ásia enfrentam a época de reposição das reservas de gás natural num contexto de inventários baixos e crescente concorrência internacional pelo abastecimento, o que aumenta a pressão sobre os preços e a incerteza empresarial”. No caso do petróleo estas condicionantes levam Bruno Fernandes a estimar um valor de 80 dólares por barril quando a estabilização pós-guerra acontecer, acima dos 60 dólares que a Coface previa antes de eclodir o conflito com o Irão.
O responsável da Coface alertou ainda para o risco crescente de estagflação e para a deterioração das margens empresariais. “Os preços estão a aumentar a um ritmo consideravelmente superior ao dos preços de venda, o que está a exercer uma pressão crescente sobre a rentabilidade das empresas”, sublinhou.
Além dos riscos energéticos, a Coface destacou a persistência das tensões comerciais internacionais. Apesar de algum alívio nas medidas tarifárias aplicadas pelos Estados Unidos, o nível de proteção comercial mantém-se elevado, com impacto nos custos das empresas, na inflação e nos fluxos de comércio internacional.
A crescente desconexão económica entre os Estados Unidos e a China constitui outro dos fatores de preocupação. Segundo Bruno de Moura Fernandes, este processo poderá acelerar a entrada de produtos chineses na Europa, aumentando a pressão competitiva sobre vários setores industriais europeus.
O economista destacou ainda a divergência crescente entre os preços de exportação da China e os praticados pelos Estados Unidos e pela zona euro. Enquanto a China tem conseguido conter ou reduzir os seus preços de exportação, os principais concorrentes ocidentais continuam a operar com níveis de preços significativamente superiores, aumentando os desafios para a indústria europeia.

Portugal não escapa a este contexto. A produção industrial portuguesa continua abaixo dos níveis pré-pandemia e a recuperação tem sido desigual, evidenciando uma maior vulnerabilidade perante uma eventual intensificação da concorrência chinesa no mercado europeu.
O agravamento das condições económicas já está a refletir-se na saúde financeira das empresas. “O número de insolvências empresariais continua a aumentar em todas as regiões e já se encontra acima dos níveis pré-pandemia, com os valores mais elevados da última década”, alertou Bruno de Moura Fernandes. A Coface estima que o número de insolvências empresariais aumente 6% a nível mundial durante este ano.
Durante a conferência, o diplomata e académico Bernardo Ivo Cruz destacou a crescente instabilidade do contexto internacional, defendendo que Portugal pode beneficiar da sua capacidade de estabelecer pontes entre diferentes regiões do mundo e participar em múltiplas redes de cooperação internacional.
Também Carlos Andrade, chief economist do Novobanco, defendeu que a economia global atravessa uma transformação estrutural profunda, em que a segurança, a resiliência e a autonomia estratégica ganham relevância. Neste novo contexto, considerou que Portugal reúne condições para reforçar o seu posicionamento como plataforma competitiva para investimento, beneficiando da sua localização geográfica, estabilidade política, capital humano e capacidade instalada em energias renováveis.
Ao longo da Conferência de Risco País, os participantes convergiram na ideia de que a geopolítica, a energia, a tecnologia e o comércio internacional estão hoje cada vez mais interligados, tornando a gestão do risco um fator central para empresas e investidores.
“Vivemos num mundo cada vez mais incerto, em que abrir-se ao exterior já não é uma opção, mas uma necessidade — e fazê-lo com segurança é hoje o grande desafio das empresas” afirmou Cláudia Vasconcelos, Country Manager da Coface em Portugal, que aproveitou a presença de inúmeros corretores e empresários para reforçar “o compromisso de apoiar as empresas com conhecimento, análise económica e soluções que lhes permitam tomar decisões mais claras e seguras num contexto global cada vez mais complexo”.
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