BRANDS' ECO Deepfakes são nova ameaça à cibersegurança

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  • 5 Junho 2026

Dez euros e cinco minutos chegam para criar um deepfake convincente. No LisbonID, em Lisboa, governos e empresas discutiram como defender a identidade digital numa era em que ver já não é acreditar.

Todos os anos, a fraude a nível global representa um custo de 45 mil milhões de dólares, um número que ilustra bem a importância da segurança num mundo cada vez mais digital. Foi assim que Emilie Bonnefoy, CEO da Open Sezam e investigadora de ciberdefesa do exército francês, abriu a sua apresentação na manhã do segundo dia do LisbonID 2026, lembrando que este é o preço que empresas e cidadãos pagam por sistemas de segurança concebidos para um mundo que já não existe.

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“Palavras-passe, códigos de utilização única, regras estáticas, todos estão a ceder sob a pressão dos ataques modernos”, afirmou Bonnefoy, que defendeu uma mudança de paradigma. Isso implica, explica, passar de sistemas reativos para plataformas preditivas, de silos de informação para arquiteturas integradas, de autenticações pontuais para análise de risco contínua.

Nos EUA, é um instrumento de poder e ativo estratégico. Na China, é usada para controlar pessoas. Na Europa, temos uma visão diferente e esse combate é inevitável

Emilie Bonnefoy

CEO da Open Sezam

A manhã, no entanto, começou mais cedo com um painel sobre soberania digital e hardware seguro, onde o tema geopolítico entrou pela porta da frente. “A tecnologia é hoje uma arma”, disse Emilie Bonnefoy, que também participou no debate. “Nos EUA, é um instrumento de poder e ativo estratégico. Na China, é usada para controlar pessoas. Na Europa, temos uma visão diferente e esse combate é inevitável”.

José Rodrigues, da Caixa Mágica Software, partilhou a preocupação sobre dependência tecnológica, mas foi mais pragmático quanto aos recursos disponíveis e lembra que há muitos modelos disponíveis em open source. Frederico Costa, da Biometrid, admitiu estar a ponderar migrar a plataforma da empresa para um hiperscaler europeu, precisamente para transmitir maior confiança aos clientes, um sinal de como a pressão do mercado está já a moldar decisões de negócio. Evaristo Tone, da Sidon, sublinhou que a soberania começa na camada mais baixa e que “o hardware é a fundação”.

Quando chegou a vez de Miguel Traquina, diretor de sistemas de informação da iProov, empresa britânica especializada em biometria para governos, os cenários de ameaça crescente foram tema central. O especialista lembrou os cada vez mais frequentes ataques de injeção digital com deepfakes sofisticados, gerados em minutos com ferramentas que custam menos de dez euros. “Uma percentagem muito pequena dos seres humanos consegue distinguir o que é real do que não é com a tecnologia atual”, alertou.

Os exemplos que partilhou incluem uma fraude de 25 milhões de dólares em Hong Kong, onde toda uma equipa de contabilistas foi enganada numa videoconferência com um CFO falso construído a partir de imagens do LinkedIn, e até um cidadão norte-coreano contratado remotamente por uma empresa na Califórnia com uma identidade sintética. “Isto está a acontecer, e vai ser cada vez mais frequente”, reiterou.

A resposta da iProov passa por múltiplas camadas de deteção, porque nenhuma tecnologia isolada é infalível, e por uma equipa dedicada que monitoriza transações 24 horas por dia, incluindo elementos infiltrados em fóruns da dark web. “Partilhamos informação sobre padrões de ataque com agências de investigação criminal em várias regiões”, explicou Miguel Traquina.

Não importa quantas pessoas têm o documento. Importa se o conseguem usar

André Vasconcelos

ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado

Um Estado mais digital

A apresentação de André Vasconcelos, da ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado, recordou o percurso que Portugal tem feito na digitalização desde 2007, com o cartão de cidadão; desde 2015, com a Chave Móvel Digital; e hoje, com a app GovPT, que reúne cerca de 40 documentos digitais e já conta com quase cinco milhões de chaves móveis ativas. “Não importa quantas pessoas têm o documento. Importa se o conseguem usar”, sublinhou. A introdução do registo biométrico remoto foi, segundo o responsável, um ponto de viragem. “É o canal de registo mais importante hoje em dia, mais do que os presenciais”.

A novidade mais recente é a carteira empresarial, lançada em janeiro, que permite a gestores e administradores de empresas aceder a documentos oficiais da sua organização diretamente pela app. “Temos cerca de 40.000 documentos já adicionados”, disse André Vasconcelos, admitindo que a adoção ainda está longe da maturidade da carteira cidadão. O foco agora é a preparação para o prazo europeu, que prevê que até ao final do ano Portugal tem de disponibilizar uma carteira digital certificada ao abrigo do regulamento eIDAS, interoperável com os restantes Estados-membros.

No painel de encerramento da manhã, dedicado ao compliance e auditoria, o debate convergiu num dilema que percorreu toda a sessão e que se focou em como manter os sistemas seguros sem os tornar inutilizáveis. “Já temos exemplos de soluções tão seguras que ninguém as usa”, reconheceu André Vasconcelos. António Maio, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, considera que a abordagem atual, “um auditor que vem uma vez por ano verificar se cumprimos os requisitos, não vai funcionar”. É preciso, diz, ter “vigilância automatizada e resposta em tempo real”.

Por outro lado, alertou, a proliferação de agentes de inteligência artificial levanta questões relacionadas com a segurança e a privacidade dos dados. “Temos de começar a estender os modelos de confiança que temos para os humanos ao campo dos agentes”, acredita.

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