Renminbi ultrapassa euro no comércio mundial pela primeira vez
Em 10 anos, o renminbi passou de quase zero a 8% do financiamento do comércio mundial, superando agora a moeda única à boleia do yuan digital, o CIPS e a guerra no Médio Oriente.
- O yuan chinês ultrapassou o euro no financiamento do comércio internacional, marcando um ponto de viragem significativo na dinâmica monetária global.
- Um relatório do BCE revela que a quota do yuan no comércio internacional atingiu 8%, enquanto o euro permanece estagnado em 6%, refletindo mudanças nas exportações chinesas.
- As iniciativas do BCE visam fortalecer o euro, mas a crescente influência do yuan e a fragmentação dos sistemas de pagamento ocidentais geram incertezas sobre o futuro da moeda europeia.
Há uma década, o yuan chinês era uma moeda quase invisível no comércio internacional. Hoje, a quota do yuan chinês no financiamento do comércio internacional ultrapassou a do euro pela primeira vez desde a criação da moeda única, segundo o relatório anual do Banco Central Europeu (BCE) sobre o papel internacional do euro, publicado na terça-feira.
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O documento, que analisa 25 anos do papel internacional da moeda única, assinala que a moeda chinesa atingiu uma quota de cerca de 8% em março, face a 5,5% em 2024, deixando para trás o euro, que se manteve estagnado em torno dos 6%.
Na negociação cambial global, o yuan também progrediu de forma assinalável, com a quota chinesa nas transações diárias do mercado cambial a atingir quase 9% em abril de 2025, um aumento de 1,6 pontos percentuais face à sondagem anterior de 2022 do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS).
A atividade de liquidação no Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China aumentou mais de um terço nos dias que antecederam e se seguiram ao início da guerra no Médio Oriente.
O relatório do BCE atribui este avanço ao crescimento das exportações chinesas e ao aumento do excedente externo da China, que aumentou a pressão para que as transações com Pequim sejam liquidadas em renminbi. Isso é bem visível já este ano, com o sistema interbancário chinês para pagamentos transfronteiriços, o CIPS, a registar um aumento significativo em março, num mês marcado pela escalada do conflito no Médio Oriente.
“A atividade de liquidação no Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China aumentou mais de um terço nos dias que antecederam e se seguiram ao início da guerra no Médio Oriente”, refere o relatório do BCE. No total, o valor dos pagamentos transfronteiriços de clientes de bancos chineses em renminbi atingiu um máximo histórico de 1,4 biliões de dólares em março de 2026, um aumento de cerca de 30% face ao mês anterior.
Especialistas do setor citados pelo BCE apontam que o conflito no Médio Oriente tem atuado como um potencial catalisador para a expansão do renminbi nos mercados globais de petróleo, notando que, em março e abril, alguns navios chegaram a pagar em yuan via CIPS ou em criptoativos, para transitar no Estreito de Ormuz.
A consolidação do yuan assenta também em infraestrutura digital. O yuan digital (e-CNY) representa cerca de 95% do volume total liquidado no projeto mBridge, uma plataforma multilateral de moedas digitais de bancos centrais que envolve a China, Hong Kong, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. O volume de transações nessa plataforma atingiu 55,49 mil milhões de dólares, um aumento de 2.500 vezes face aos pilotos de 2022, segundo dados do BCE.
Em fevereiro deste ano, Pequim alargou as regras do CIPS para permitir liquidações noutras moedas além do renminbi, transformando o sistema numa plataforma de várias moedas de âmbito potencialmente global, e o presidente Xi Jinping apelou publicamente a que o renminbi se torne uma moeda de reserva global, numa das declarações mais explícitas de sempre sobre a ambição de Pequim de reforçar o papel internacional da sua moeda.
Crescimento do renminbi na Europa
A presença da moeda chinesa nos padrões de comércio bilateral de países europeus também está a crescer, nota o relatório do BCE. Em França, o renminbi já representa 30% das exportações para a China e 12% das importações, percentagens que, em 2018, eram de 10% e 6%, respetivamente.
“Quase um terço do comércio externo da China é liquidado em renminbi, o que representa um aumento em relação a praticamente nada há uma década”, destaca Piero Cipollone, membro do Conselho Executivo do BCE, salientando ainda que a quota da moeda no financiamento do comércio mundial atingiu os 8%, ultrapassando o euro.
BCE alerta que as forças de fragmentação “estão a tornar-se mais evidentes” e que “vários países estão a avançar com alternativas tecnológicas aos sistemas tradicionais de pagamentos transfronteiriços”.
Piero Cipollone assinala também que “estes desenvolvimentos refletem uma política deliberada da China no sentido de alargar o papel da sua moeda nas áreas em que tem peso económico para exercer influência”. Mas o avanço chinês insere-se num movimento mais amplo de alternativas aos sistemas de pagamento ocidentais:
- A Índia propôs ligar as moedas digitais dos países BRICS para liquidar transações transfronteiriças.
- Em janeiro de 2025 foi lançado o token A7A5, uma stablecoin indexada ao rublo russo para facilitar fluxos financeiros contornando sanções internacionais.
- Os EUA aprovaram legislação sobre stablecoins indexadas ao dólar, com o objetivo de reforçar a presença da moeda americana no domínio digital. Atualmente, as stablecoins em dólar representam mais de 99% da capitalização de mercado total das stablecoins, num mercado que no final de 2025 ultrapassou os 300 mil milhões de dólares, 50% acima do valor de 2024.
O BCE alerta no relatório para que as forças de fragmentação “estão a tornar-se mais evidentes” e que “vários países estão a avançar com alternativas tecnológicas aos sistemas tradicionais de pagamentos transfronteiriços”.
Em resposta a estes desenvolvimentos, o BCE anunciou um conjunto de iniciativas: a emissão de moeda digital de banco central em setembro deste ano para liquidação de transações grossistas, a preparação do euro digital para pagamentos quotidianos, e a interligação do seu sistema de pagamentos instantâneos TIPS com os da Índia, Suíça e Brasil.
Também em fevereiro, o BCE expandiu o EUREP (a sua facilidade de cedência de liquidez a bancos centrais externos à Zona Euro), conferindo-lhe caráter permanente e alcance global, para que qualquer banco central que cumpra os critérios básicos possa aceder à liquidez em euros de forma contínua.
Um papel internacional mais forte para o euro não surgirá por si só (…) teremos de optar por ele e passar das palavras aos atos.
A iniciativa Pontes, do Eurosistema, prevê ainda ligar os serviços TARGET a plataformas de tecnologia de registo distribuído (DLT) para liquidação de transações financeiras grossistas em moeda de banco central até ao terceiro trimestre de 2026. “Um papel internacional mais forte para o euro não surgirá por si só”, refere Piero Cipollone, acrescentando que “teremos de optar por ele e passar das palavras aos atos”.
O relatório do BCE espelha a ideia de que o sistema monetário internacional está a atravessar uma reconfiguração sem precedentes desde a criação do euro, com a quota da moeda única composta nos vários indicadores globais a situar-se em torno dos 20%, e que a emissão internacional de dívida em euros atingiu o nível mais alto desde a introdução da moeda única, a ultrapassar um bilião de dólares.
Ainda assim, o BCE sublinha que “não há margem para complacência”, num ano em que o yuan ultrapassou o euro no financiamento do comércio global, os bancos centrais continuaram a acumular ouro a um ritmo acima das normas históricas por razões geopolíticas, e vários países avançaram com infraestruturas digitais alternativas ao sistema ocidental de pagamentos.
A próxima edição do relatório, prevista para junho de 2027, dirá se as respostas anunciadas pelo BCE e pelos legisladores europeus foram suficientes para inverter a tendência ou se o yuan continuou a ganhar terreno.
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