Sogrape perde mais de metade dos lucros em 2025. “Colocou-nos à prova”
Quebra na produção, tarifas dos EUA, crise britânica e câmbio desfavorável afetam resultados da dona do Mateus Rosé e Barca Velha. Vendas recuam para 336 milhões, mas CEO afasta “perda estrutural".
A lidar com um “contexto externo particularmente adverso” para o setor do vinho, com “pressão sobre o consumo, preços e custos”, a par de uma “menor dinâmica” em alguns mercados relevantes, a Sogrape viu os lucros baixaram 56,3% em termos homólogos para sete milhões de euros no ano passado, com o EBITDA a cair 28,3% e o volume de negócios a descer 5,6% face ao ano anterior.
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Em declarações ao ECO, Fernando da Cunha Guedes justifica estes resultados com o “enquadramento cambial desfavorável e um ano vitícola extremamente adverso, com menor produção”. Em paralelo, o desempenho comercial foi “impactado por fatores externos como a instabilidade geopolítica, as tarifas nos EUA e a situação económica no Reino Unido”, o principal mercado para a maior empresa portuguesa de vinhos.
Ainda assim, o líder do grupo que detém marcas como Mateus Rosé, Barca Velha, Esteva, Sandeman ou Porto Ferreira sublinha que houve mercados a manter “dinâmicas positivas” e que o portefólio premium ganhou relevância, “reforçando uma leitura de ajustamento e consolidação, e não de perda estrutural”. “Os resultados refletem sobretudo a conjugação de fatores conjunturais e estratégicos, num ano de consolidação e reforço de bases para o futuro”, frisa.

No Yearbook publicado pela Sogrape, o representante da terceira geração da família na multinacional sediada em Vila Nova de Gaia — detém 1.600 hectares de vinha em 13 regiões vitivinícolas de Portugal, Espanha, Chile, Argentina e Nova Zelândia — reconhece “resultados abaixo das ambições e das metas” que tinha traçado para um exercício em que foi colocada “à prova de forma clara”. Fala ainda em “decisões difíceis que foi necessário tomar” e na responsabilidade com que diz ter enfrentado a realidade.
Questionado sobre o que foi feito, Fernando da Cunha Guedes recusa concretizar, insistindo apenas que, “em anos difíceis, é necessário ter a coragem de tomar decisões exigentes”. “Apesar das adversidades, mantivemos o investimento num plano de transformação e em ativos estruturantes, preparando a Sogrape para um futuro que acreditamos continuar a ser de crescimento. Privilegiou-se o impacto a longo prazo em detrimento dos resultados imediatos”, acrescentou.
Neste momento, a prioridade está na execução da transformação interna e na maximização do potencial dos ativos existentes, sem excluir oportunidades de crescimento externo. A Sogrape já demonstrou no passado que é normalmente em ciclos adversos que podem surgir boas oportunidades.
Fechados os primeiros cinco meses de 2026, que “agravaram um enquadramento que já era exigente, sendo o conflito no Médio Oriente um dos exemplos mais evidentes”, o empresário nortenho adianta, sem fornecer números concretos, que a Sogrape iniciou o ano com um crescimento de vendas face ao ano anterior, que terminou com uma faturação consolidada de 336 milhões de euros. Mantém “uma perspetiva prudente, mas confiante, assente na solidez do negócio, na clareza da estratégia e no foco na execução”.
A última grande aquisição foi feita há dois anos, quando reforçou em Espanha com a entrada na região de Ribera del Duero através da aquisição da Viña Mayor. Estes resultados e conjuntura arrefeceram a procura por novos ativos? Cunha Guedes diz que “a prioridade está na execução da transformação interna e na maximização do potencial dos ativos existentes, sem excluir oportunidades de crescimento externo”. E faz questão de lembrar que o grupo “já demonstrou no passado que é normalmente em ciclos adversos que podem surgir boas oportunidades”.
Quebra de 35% na produção das vinhas em Portugal
Organizada em nove unidades de negócio, incluindo operações de produção e distribuição em oito países, com perto de 1.200 trabalhadores, a Sogrape produziu 4,3 mil toneladas de uvas na última vindima, um decréscimo de 29% face à anterior. Espalhadas pelas regiões dos Vinhos Verdes, Douro, Dão, Bairrada, Bucelas e Alentejo, as vinhas em Portugal são responsáveis por mais de três quartos da da produção do grupo e registaram uma quebra na ordem dos 35%.
Com 130 garrafas vendidas por minuto para um total de 110 países, os chamados bet markets (Reino Unido, Portugal, EUA e Espanha) valem 76% das vendas. Entre as mais de 30 marcas próprias, a liderança é da icónica Mateus, que esteve na génese da empresa em 1942, na altura com uma pequena adega no Douro. Segue como a ‘joia da coroa’, secundada pela Casa Ferreirinha, pela Sandeman e pela espanhola LAN, com a Sogrape a assinalar a “trajetória ascendente” no segmento de prestige wines com insígnias como Quinta dos Carvalhais, Herdade do Peso e Quinta de Azevedo.
Peso das marcas e dos mercados nas vendas da Sogrape

No âmbito do plano de investimento 2023–2025, do valor global de 110 milhões de euros, cerca de 50% foi alocado ao projeto de expansão e modernização do polo de Avintes, em Vila Nova de Gaia. Descrito como “estruturante”, visa centralizar ali os polos produtivos, modernizar as operações e aumentar a capacidade de produção e armazenagem. Em “fases muito avançadas de execução”, aponta o CEO, o projeto tem um “impacto já visível na modernização das operações e na eficiência”.
Em paralelo, parte do investimento avaliado em 42 milhões de euros e que foi concretizado em 2025 foi absorvido pela expansão e modernização da adega em Vila Real que apresenta como um “marco relevante para a operação no Douro” por trazer “maior capacidade, eficiência e precisão enológica”; pela execução de vários projetos de plantação, em particular na região duriense; pela reconversão da vinha na Quinta da Romeyra, em Bucelas; e pelas novas barricas, plantação de vinha e equipamentos para as instalações em Espanha.
Mais enoturismo e capital de risco em aprovação
Através da unidade de negócios Grape Ideas, o grupo recebeu 240 mil visitantes de 140 nacionalidades nos vários centros de enoturismo durante o ano passado, com destaque para as caves Sandeman e Ferreira. Naquele que diz ter sido “o melhor ano de sempre” para o enoturismo, tanto em receitas como em resultados financeiros, ganhou um novo espaço na Quinta de Azevedo, em Barcelos, e abriu mais quatro suites no The House of Sandeman, na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia.
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Quinta de Azevedo, propriedade da Sogrape em Barcelos Pedro Granadeiro/ECO -
Quinta de Azevedo Pedro Granadeiro/ECO -
Quinta de Azevedo Pedro Granadeiro/ECO -
Quinta de Azevedo Pedro Granadeiro/ECO -
Quinta de Azevedo Pedro Granadeiro/ECO -
Quinta de Azevedo Pedro Granadeiro/ECO -
Quinta de Azevedo Pedro Granadeiro/ECO -
Caves Sandeman, em Vila Nova de Gaia Pedro Granadeiro/ECO -
Caves Sandeman Pedro Granadeiro/ECO -
Caves Sandeman Pedro Granadeiro/ECO -
Caves Sandeman Pedro Granadeiro/ECO
No campo da inovação, financiou uma dezena de projetos-piloto com startups. A AssetFloow permitiu aplicar IA à previsão de procura no canal on trade; a Tilect introduziu uma plataforma low code para testar estratégias de preço no off trade; a Entrii.AI reforçou a monitorização do mercado norte-americano; a Fibersight iniciou a utilização de fibra ótica na monitorização contínua do solo; a Corkified lançou o teste de rolhas RFID para autenticidade e interação digital com consumidores; e a Candam Tech, através do produto RecySmart, promoveu a reciclagem por via de tecnologia inteligente.
Esta última startup de origem espanhola continua a ser o único investimento já concretizado através do seu fundo de capital de risco Sogrape Ventures. Porém, Fernando da Cunha Guedes insiste na “ambição de estar na linha da frente da inovação no setor do vinho” e adianta ao ECO que, embora não tenha concretizado nenhuma entrada em 2025, estão “atualmente em fase de concretização, e já aprovadas pelo comité de investimento do Fundo, duas novas oportunidades”.
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