BRANDS' ECO Telemóvel é o ponto fraco da economia da confiança digital
A convergência entre pagamentos, identidade digital e segurança móvel está a transformar o setor financeiro europeu. Falta de diversidade tecnológica pode comprometer a resiliência futura.
Novos hábitos de consumo, pressões de soberania tecnológica e regulação cada vez mais apertada são fatores que estão a desafiar a transformação digital dos pagamentos e da identidade na Europa. Na talk que abriu a tarde do segundo dia da LisbonID Conference, que decorreu nos dias 27 e 28 de maio, no Museu do Oriente, Andrea Toucinho, da Partelya Consulting, destacou que a convergência entre bancos, fintechs e identidade digital nasce sobretudo do enquadramento regulatório europeu.
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Andrea Toucinho, da Partelya Consulting, esteve na talk com o tema “Bank + Identity: Fintech & Digital ID convergence” -
“Mobile Security: Device Integrity / Attestation in Practice” foi o tema do primeiro debate da tarde, que contou com Nuno Ponte (Multicert) e David Rabuat (Famoco) -
“Why Digital Identity Needs Passwordless” foi o tema apresentado por John Woo, da Passwordless Alliance -
Alessandro Piovano, da My Vet, levou o tema “Digital ID for Pets and other passive users”
“Temos muita regulamentação na Europa, desde o RGPD (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados), à AML (sigla em inglês para Anti-Money Laundering) e, mais recentemente, o NIS2 (para a cibersegurança), que é o primeiro ponto de convergência entre o banco, os pagamentos e a identidade digital”, afirmou.
Uma tendência de convergência que tem vindo a ser reforçada pela evolução dos pagamentos móveis. “Estamos a assistir a um grande progresso neste modo de pagamento”, afirmou a especialista da Partelya, dando o exemplo do Bizum, em Espanha, e do MBWay, em Portugal.
Na sua opinião, estas soluções estão a alterar a forma como os consumidores interagem com os serviços financeiros e, inevitavelmente, com mecanismos de identificação digital. Andrea Toucinho considera que a soberania europeia em pagamentos, materializada em iniciativas como a EPI (European Payments Initiative)/Wero (carteira digital criada pela EPI), está diretamente ligada ao futuro da identidade digital, já que “graças ao eIDAS2 (Regime Europeu para a Identidade Digital) teremos uma solução de identidade digital europeia”, sublinhou.
Mas a relação entre bancos e fintechs também está a mudar, afirma a especialista da Partelya, que lembra que, “há alguns anos, eram concorrentes, mas hoje há uma política de colaboração”. Aliás, a fintech francesa Nickel, adquirida pelo BNP Paribas, é disso exemplo. Na sua perspetiva, esta colaboração é essencial para acelerar a adoção de tecnologias como open banking e para reforçar uma visão centrada no cliente. Portugal é, neste contexto, um exemplo de maturidade, com o MBWay a ser visto como referência europeia.
Smartphone é o elo mais fraco
No painel dedicado à segurança móvel e à integridade dos dispositivos, os participantes foram unânimes ao concordar que o smartphone é hoje ‘elo mais frágil’ da identidade digital. Nuno Conde alertou para os riscos de depender de um dispositivo que não é controlado pelas entidades certificadoras. “O telemóvel não é controlado pela autoridade de certificação, o que cria uma série de desafios”, explicou o project manager da Multicert.
Não temos fabricante de OS móveis baseados na Europa, o que significa que as decisões do ecossistema estão fora
A heterogeneidade de modelos, versões e fabricantes dificulta a padronização e aumenta a superfície de risco. Adicionalmente, a ausência de sistemas operativos (OS) móveis europeus agrava o problema. “Não temos fabricante de OS móveis baseados na Europa, o que significa que as decisões do ecossistema estão fora”, alertou.
David Rabuat, da Famoco, que participou na mesma conversa, reforçou precisamente a importância do controlo do hardware como primeira linha de defesa. “A segurança depende do alinhamento entre hardware, software e comportamento humano”, disse. O especialista sublinhou ainda que o utilizador continua a ser o maior vetor de risco, sobretudo em mercados onde a criatividade para contornar restrições é elevada.
A harmonização trazida pelo eIDAS2 poderá acelerar a adoção da identidade digital europeia, mas também levanta riscos de concentração. “Um ecossistema menos diverso é menos resiliente”, alertou Nuno Conde, defendendo que a Europa deve garantir diversidade tecnológica e evitar que funções críticas da identidade digital sejam detidas por grandes plataformas tecnológicas globais.
Na perspetiva de ambos, a próxima década será decisiva para o equilíbrio entre inovação, segurança e soberania digital. A Europa avança, mas o desafio será fazê‑lo sem perder controlo sobre os alicerces tecnológicos que sustentam a identidade digital do futuro.
Tecnologia democratiza defesa e ataque
Num mercado global onde a fraude documental evolui tão depressa como a tecnologia que a tenta travar, Christophe Halopé deixou o alerta de que a sofisticação criminal já não exige perícia. “O que antes requeria de uma expertise criminal, agora é acessível a todos”, afirmou, lembrando que impressoras de alta definição, lasers e hologramas podem hoje ser adquiridos online a baixo custo. A resposta, defende o diretor executivo da CST, passa por reforçar a segurança física dos documentos com elementos como o policarbonato ou as janelas óticas complexas, e combiná‑la com mecanismos digitais robustos. “Não é físico ou digital, é físico e digital”, sublinhou. Para isso, defende ser preciso um modelo híbrido capaz de resistir tanto à falsificação artesanal como a ataques digitais em larga escala.
Enquanto não sabemos com quem estamos ligados, a nossa presença digital pode ser usada por um atacante
É precisamente no domínio digital que John Woo identifica o maior risco estrutural, ou seja, a confiança cega no servidor. A identidade digital atual, explica o presidente da Passwordless Alliance, parte do pressuposto errado de que o utilizador sabe sempre com quem está a comunicar. “Enquanto não sabemos com quem estamos ligados, a nossa presença digital pode ser usada por um atacante”, alertou, descrevendo cenários de QR codes sobrepostos, phishing invisível e autenticações que podem ser desviadas sem que o utilizador se aperceba. A solução que propõe, baseada no padrão X.1280, desloca a responsabilidade da autenticação para o sistema, garantindo a verificação mútua entre utilizador e servidor. “O utilizador não precisa de memorizar e mudar a password”, uma vez que o modelo passwordless funciona em web, apps, cloud, ATMs e até em interações com agentes de IA. Para John Woo, a identidade digital só será economicamente sustentável quando incorporar mecanismos que impeçam que as credenciais sejam reutilizadas ou desviadas em massa.
A fechar os dois dias de conferência, Alessandro Piovano, dedicou a sua apresentação ao mercado animal, onde muitas destas soluções de identidade digital já estão a ser testadas. Nas palavras do cofundador do My Vet, um ecossistema que cria uma identidade digital única para animais de estimação, este é um setor que movimenta centenas de milhares de milhões de euros e que, por isso, exige infraestruturas de dados tão rigorosas quanto as humanas.
“Um mercado de tal magnitude não pode funcionar eficazmente sem uma infraestrutura de dados”, afirmou, lembrando que a União Europeia já impõe identidade digital obrigatória para animais de companhia. Sistemas como TRACES, ADIS e os passaportes digitais animais antecipam, na prática, o modelo federado que a Europa está agora a construir para os cidadãos. “O domínio animal está a funcionar neste momento como um laboratório regulador para a identidade digital dos seres humanos”, explicou. E porque os dados animais não são abrangidos pelo GDPR foi possível avançar mais depressa, testando interoperabilidade, carteiras digitais multiutilizador e modelos de certificação distribuída. No limite, concluiu, “ao construir uma infraestrutura forte para eles, aprendemos a construir melhor para nós”.
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