A construir a pegada local de uma cerveja global. Catarina Ferraz, da Heineken, na primeira pessoa

Rafael Correia,

Vinda da "alma portuguesa" da Sagres, Catarina Ferraz assume desde março o marketing da Heineken na Sociedade Central de Cervejas (SCC) com o objetivo de reforçar a relevância local.

Catarina Ferraz, responsável de marketing da Heineken PortugalHeineken Portugal

“Os fãs têm mais amigos” é a mais recente campanha mundial da Heineken, criada para celebrar a forma como pessoas com interesses comuns criam ligações. A estratégia assenta em três pilares principais de ativação de marca — o futebol, a música e a Fórmula 1. Catarina Ferraz, responsável de marketing da marca, sublinha que estes pilares também encontraram correspondência no território português.

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Acompanhamos muito quais são os os gostos e os principais interesses do consumidor português”, nota. O futebol é o desporto que atrai maior interesse nacional, com a preferência de 75% dos portugueses. A música lidera de forma absoluta, captando o interesse de 81% da população. A Fórmula 1 foi o desporto favorito das modalidades sem bola, reunindo 36% das preferências, segundo o relatório Brand Sponsor da Scopen de 2025.

Para materializar este conceito, a marca ativou a Heineken House no mercado nacional. Estreada globalmente no festival Coachella, o espaço marcou presença para celebrar a final da Liga dos Campeões, existirá para celebrar o Grande Prémio de Fórmula 1 e marcará presença no festival Nos Alive. O objetivo, segundo a gestora, é que “cada uma destas três plataformas não viva só de uma campanha global ativada através de um plano de média localmente, como também queremos garantir que tem relevância e um ponto de contacto direto com o consumidor local“.

Para Catarina Ferraz, esta é “uma oportunidade para trazer cada vez mais ativações que são relevantes para o consumidor português e não estarmos 100% dependentes daquilo que são campanhas mais globais“.

“Uma marca internacional tem sempre mais dificuldades a estabelecer uma conexão mais real e com maior propósito com os consumidores locais. Portanto, no fundo, é a forma de mostrar a nossa força, mas também de investirmos naquilo que é sempre o maior desafio de marcas internacionais — que é ter uma pegada local muito relevante e forte”. No entanto, lembra que a Heineken é a líder no segmento premium e a terceira maior marca do mercado cervejeiro português.

As preferências do consumidor português também moldaram uma das recentes apostas da marca num segmento que está a “crescer a duplo dígito”, com Portugal a ser um dos primeiros mercados europeus a lançar a Heineken 0.0 Nectarine Juniper, com sabor a nectarina e zimbro. A decisão foi fundamentada num estudo da GfK — envolvendo 600 consumidores entre os 18 e 54 anos — que revelou que 45% dos inquiridos desejam que as cervejas sem álcool tenham um sabor muito próximo da versão original, mas que 32% anseiam pela introdução de novos sabores.

Catarina Ferraz explica que a moderação no consumo de álcool é, cada vez mais, uma escolha “consciente” e não apenas fruto de “uma impossibilidade ou impedimento de beber álcool”. “Sendo essa uma escolha tão consciente e que acaba por acontecer cada vez mais vezes, com maior frequência, é normal que também queiram ter opções e, portanto, ter sabores e ser surpreendido com novos sabores é também algo que o consumidor português procura”, considera.

O estudo serviu para “confirmar com dados reais” que a marca está a “fazer o caminho certo na dinamização do segmento 0.0”. Ao mesmo tempo, trouxe revelações como que “um terço das pessoas ainda sente que tem de se justificar, ou que de alguma forma é olhada um pouco de lado ou com desconfiança pelos amigos e pela família quando faz essa escolha“.

Para a responsável, o estudo traduz-se em “insights muitíssimo relevantes sobre como é que devemos, daqui para a frente, comunicar a 0.0, em que touchpoints, com que mensagens, até em questões tão simples como a escolha dos embaixadores ou influenciadores”. “Abriu-nos muitas portas e deu-nos muita confiança para o futuro“, remata.

Perante a recente revisão do ecossistema global de agências de marketing da Heineken –que reconduziu a Dentsu nos meios e a Publicis nas adaptações globais –, Catarina Ferraz assegura que a atividade gerida pela Sociedade Central de Cervejas e Bebidas não sofrerá impacto imediato. “Os parceiros com quem trabalhávamos são precisamente os parceiros que se mantêm dentro da pool depois de todo o pitch e de toda a auscultação do mercado que foi feita a nível global“, esclarece.

A nível interno, a equipa ainda está a avaliar a implementação das novas diretrizes de trabalho, mas a mensagem é de estabilidade. “Pelo menos no curto prazo não vemos nenhuma grande mudança transformacional na forma como trabalhamos e, portanto, temos muita confiança nos parceiros que temos”. O leque de parceiros inclui nomes como a Leo (Publicis) — criatividade –, Adagietto — PR, Samy — influenciadores –, NIU— ativações de música/festivais — e H2N — eventos desportivos “Temos uma pool de agências, cada uma com a sua especialidade, que trabalha num ecossistema muito próximo e parceiro, o que, felizmente, tem feito ganhar vários prémios de criatividade”, lembrando os prémios conquistados no CCP com campanhas como o Cool Timers. “É um ecossistema muito robusto e que já está muito habituado a trabalhar em conjunto”, resume.

Para garantir esta robustez, também a estrutura interna está bem definida. Liderada por Catarina Ferraz, sob a direção de Maria Ruiz — marketing director da Sociedade Central de Cervejas –, a equipa core da Heineken conta ainda com três brand managers e três sponsorship specialists. Estes últimos são fundamentais para “criar a conexão com o consumidor português através das plataformas de patrocínios”, nomeadamente no futebol, Fórmula 1 e música. Tudo isto suportado por equipas transversais “híbridas”, como a CMI (Consumer & Market Insights) — que ajuda nos testes e insights –, inovação, vendas e trade.

Apesar de a marca operar à escala mundial, a responsável de marketing nota que a equipa portuguesa goza de independência. “Cada mercado faz o seu plano e, obviamente, vai acompanhando com a equipa global e vai sempre validando pequenas iniciativas, mas globalmente somos muito autónomos na forma como trabalhamos a marca“.

A relação com a estrutura global é balizada por guidelines, prioridades e playbooks, mas a gestão do dia-a-dia dita as suas próprias regras locais. O desenvolvimento do plano depende sempre de variáveis como “o estágio da marca, a forma como comunica com o consumidor, o posicionamento a nível de price point e as parcerias a nível local”. “Fazemos um reporte informal no sentido em que temos de validar o nosso caminho e as nossas iniciativas, mas, no dia-a-dia, não existe um reporte formal para global de ninguém”, conclui.

A continuidade é também a palavra de ordem quando Catarina Ferraz recorda a transição para a Heineken, em março, após cinco anos ligada à Sagres. Sobre a experiência anterior, nota ter sido “um desafio incrível, um privilégio e um processo de enorme aprendizagem”, frisando tratar-se de “uma marca com tanto legado e com a qual tantos portugueses têm uma ligação emocional muito forte“. Destaca ainda o facto de ter liderado o processo de construção do atual posicionamento da Sagres, dedicado à “alma portuguesa”

Trabalhar a Sagres é trabalhar um 360 muito forte“, sublinha. “[Gerir a Sagres] preparou-me muito bem a nível estratégico e de ativação para agora assumir o desafio numa marca global”, confessa. “A Sagres permitiu-me conhecer muito bem o segmento de cerveja e o consumidor português. E agora é muito bom trazer todos esses insights para que uma marca global também tenha uma relação cada vez mais próxima.”

O plano agora está traçado. “É continuar o bom trabalho de uma marca que já está totalmente sedimentada na cabeça e no coração dos consumidores portugueses. É continuar a fazer esse trabalho com mais relevância, com plataformas cada vez mais diferentes, mais sofisticadas também”, aponta. A equipa já se encontra a operacionalizar o verão de 2026 e a idealizar o ano de 2027, procurando tirar partido de parcerias internacionais de peso. “No próximo ano, com a Fórmula 1 e com o Grande Prémio de Portimão, vamos ter o privilégio de poder ativar a marca de uma forma diferente dos últimos anos“, antecipa. “Com a Heineken, o que queremos, sem dúvida, é não só liderar, mas definir muito aquilo que é o segmento premium de cervejas em Portugal. Esse é o desafio”.

Com formação em Gestão na Nova SBE e 15 anos de experiência em grande consumo em marcas portuguesas — passou pela L’Oréal, Delta Cafés e Cofaco — , Catarina Ferraz descobriu cedo a paixão pelo marketing. Acredita que as marcas são “quase organismos vivos” que só existem porque “as pessoas as criam e depois as consomem”. Adora “o privilégio e a oportunidade que é, de uma forma estratégica, pensar marcas e tentar antecipar comportamentos, ler as pessoas e perceber o que elas vão querer, como, quando, a que preço e com que packaging“.

Sem dúvida trabalhar marcas portuguesas ajuda muito e traz uma escola muito grande sobre como pensar uma coisa desde a primeira ideia mais embrionária de um conceito até de facto estarmos a avaliar um produto e a vê-lo a nascer numa prateleira ou em casa das pessoas“”, argumenta.

Curiosa por natureza, admite estar sempre à procura de benchmarks e de histórias. “A forma como a comunicação tem evoluído é algo que me apaixona. Adoro contar histórias e narrativas e procurar sempre os porquês das coisas. Tento sempre inspirar-me naquilo que vejo e pensar como é que faria sentido no meu produto e no meu desafio ao dia de hoje. Há sempre coisas que se podem tirar de boas campanhas e, às vezes, das más também, para aprender o que não fazer”, aponta.

Quando o dia de trabalho termina, o foco vira-se para a família e para os três filhos de 12, 10 e 7 anos, respetivamente. “O descomprimir é sempre com a família. Só o facto de termos que mudar o chip, entrar em ‘modo mãe’ e ter que ajudar a fazer trabalhos de casa, orientar banhos e jantares e garantir que tudo corre bem… ou então jantar fora e descomprimir com amigos durante a semana“, partilha. Aproveita também, “sempre que possível, para ir a um concerto ou a um festival”.

Acima de tudo, o objetivo é “tentar ter uma vida o mais normal possível, sem ter que estar constantemente com o radar ligado à procura da próxima ideia ou campanha”. Uma tarefa de desconexão que a própria confessa ter “alguma dificuldade em fazer” — um reflexo de quem vive a comunicação e as marcas de forma tão intensa.

Catarina Ferraz em discurso direto

Que campanhas gostava de ter feito/aprovado? Porquê?
Adorava ter feito a mais recente campanha da Adidas “Backyard Legends” – é uma verdadeira masterclass de criatividade, produção e execução. Elevou totalmente a fasquia do que é publicidade nos dias de hoje.
A nível nacional, gosto muito da mais recente campanha da NOS com o Dino e a Maro. Consegue surpreender e entregar na emoção mantendo-se fiel ao posicionamento da marca, enquanto usa celebridades de forma estratégica, mas muito orgânica.

Qual é a decisão mais difícil para um marketeer?
As decisões que não são tomadas com base em insights do mercado e do consumidor.

No (seu) top of mind está sempre?
Uma check list de perguntas que me permite ser pragmática e rápida na tomada de decisão: Podemos fazer melhor? Tem propósito e impacto? Faz mexer a agulha? Constrói para a nossa narrativa? Na dúvida, antes feito que perfeito.

O briefing ideal deve…
Ser muito claro no conteúdo e suficientemente inspirador na forma.

E a agência ideal é aquela que…
Funciona como uma extensão da nossa própria equipa. Conhece o negócio, os desafios da marca, marca ritmos, percebe quando tem de questionar e quando deve acompanhar… um verdadeiro parceiro que sente a marca como sua também.

Em publicidade é mais importante jogar pelo seguro ou arriscar?
Em publicidade, o mais importante é fazer o público sentir alguma coisa. Se o conseguimos de forma mais segura ou mais arriscada, isso deve estar de acordo com o posicionamento e o tom de cada marca.

O que faria se tivesse um orçamento ilimitado?
Não era um cenário que me agradasse muito. Não ter limites pode levar-nos a tomar más decisões e a perder o controlo sobre o que é mesmo fundamental.
No entanto, diria que o ditado popular se aplica às marcas também: ter dinheiro não vai trazer sucesso, mas pode ajudar. Se soubermos quem somos e para onde vamos, mais dinheiro pode traduzir-se em mais oportunidades de impactar os consumidores e assim aumentar a força e a relevância da nossa marca.

A publicidade em Portugal, numa frase?
Cada vez melhor, mas ainda muito dependente de TV.

Construção de marca é?
Garantir que, no final do dia, alguém te escolhe porque se lembra de como a fizeste sentir.

Que profissão teria, se não trabalhasse em marketing?
Teria de estar relacionado com comunicação, com a capacidade de construir “pontes” e narrativas… Talvez jornalista ou algo mais ligado à política ou ao setor social.

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