Salário mínimo já vale 91% do salário mediano, com riscos para a economia
Salário mínimo já vale 91% do salário mediano. Aumentos mais expressivos dos salários mais baixos têm contribuído para uma redução da desigualdade remuneratória, mas BdP alerta para compressão.
Muito à boleia dos reforços consecutivos da retribuição mínima garantida, os salários mais baixos têm crescido mais do que os ordenados superiores em Portugal. Tal traduziu-se, por um lado, numa redução da desigualdade remuneratória, mas, por outro, numa “compressão gradual” dos vencimentos, o que levanta “questões importantes” relativamente aos “incentivos dos trabalhadores e à dinâmica da produtividade da economia“, alerta o Banco de Portugal (BdP), numa análise divulgada esta segunda-feira.
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De acordo com o banco central português, em 2025, o salário médio por trabalhador cresceu 5,6% em termos nominais, depois de ter aumentado 6,2% em 2024 e 6,4% em 2023.
Uma parte desses reforços foi, porém, absorvida pela inflação. Assim, em termos reais, o ordenado médio subiu 3,1% no último ano, 3,4% em 2024 e 1,5% em 2023.
Tanto no que diz respeito ao salário base como ao salário total, observou-se uma “concentração de aumentos em torno da variação da retribuição mínima mensal garantida“, o que reflete, segundo o BdP, o papel desta política como referência na formação salarial em Portugal.
Aliás, o Índice de Kaitz, que mede o rácio entre o salário mínimo e o salário mediano, subiu, “refletindo a aproximação do salário mínimo aos níveis centrais de distribuição salarial”, assinala o banco central luso.
Em concreto, em 2025, este índice situou-se em 91%, mais quatro pontos percentuais do que em 2019. “De acordo com o ‘Structure of Earnings Survey‘ do Eurostat, que inquire apenas empresas com dez ou mais trabalhadores, Portugal registava em 2024 o valor mais elevado deste indicador entre os países da área do euro“, realça, a propósito, o Banco de Portugal.
O BdP frisa, além disso, que “os aumentos salariais foram consistentemente mais expressivos para os trabalhadores com salários nos decis mais baixos“. Por exemplo, em 2025, os trabalhadores no primeiro decil da distribuição salarial registaram um crescimento médio do salário base superior a 8%, enquanto no último decil esse crescimento foi próximo de 5%.
Ora, este padrão, caracterizado por reforços mais elevados nos níveis salariais mais baixos “traduz-se numa compressão da distribuição salarial“, e tem implicações na desigualdade salarial, argumenta o BdP. Nos últimos 15 anos, observou-se uma “redução significativa da desigualdade salarial em Portugal”, é, assim, destacado na análise agora conhecida.
“A redução da desigualdade salarial foi particularmente marcada até aos anos da pandemia. Nos anos mais recentes, a desigualdade salarial reduziu-se de forma mais gradual, sendo a redução mais expressiva na metade superior da distribuição, uma vez que o rácio entre a mediana e o percentil 10 se manteve estável em torno de 1,1 neste período”, sublinha o Banco de Portugal.
No entanto, a compressão da distribuição salarial em torno do salário mínimo nacional levanta também questões importantes “relativamente aos incentivos dos trabalhadores e à dinâmica da produtividade da economia“, avisa o BdP, nesta sua nova análise.
A compressão salarial é um problema já identificado no mercado de trabalho nacional. Tanto que, por exemplo, no incentivo fiscal à valorização salarial, o Governo fez questão de retirar a regra que impedia as empresas de aumentar o leque salarial (a diferença entre os salários mais baixos e mais altos), de modo a contrariar a tendência de compressão que se tem registado em Portugal.
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