Conflito no Médio Oriente direciona interesse para casas de luxo em Portugal

Lina Santos,

A instabilidade no Médio Oriente tem dado visibilidade a zonas mais seguras, como Portugal. Quem são os interessados e o que procuram? Três consultores portugueses traçam o perfil destes clientes.

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Seguro e estável, Portugal volta a ser uma escolha a observar com atenção em momentos de conflito, agora no Médio Oriente. Famílias e investidores internacionais reavaliam destinos, adiam mudanças e procuram alternativas. Por cá, mediadoras do segmento de luxo já sentem mais contactos, sobretudo para arrendamentos de média duração e imóveis prontos a habitar, mas ainda é cedo para concluir que o que se passa entre os EUA e o Irão está a provocar um aumento generalizado das compras de casas de luxo no país.

É justamente no segmento de alta gama que o interesse é mais visível, embora nem sempre se traduza em aquisição. Pode até ser arrefecimento no interesse por uma mudança para o Dubai ou Abu Dhabi, como explica ao ECO Avenida, Liam Bailey, que analisa e produz relatórios sobre imobiliário, para a consultora Knight Frank, o ramo internacional da Quintela e Penalva, em Portugal. Se uns encaram Portugal como uma base segura, para outros a incerteza está também a produzir o efeito contrário, adiando decisões de investimento e de mudança de país. Bailey nota-o sobretudo em Londres.

Miguel Poisson, CEO da Portugal Sotheby’s Realty, em Portugal, afirma que a mediadora tem observado uma “tendência crescente de investidores internacionais a reorientarem os seus investimentos para geografias consideradas mais estáveis e seguras”, entre as quais Portugal continua a destacar-se.

A Sotheby’s tem também verificado “um maior interesse por parte de clientes do Dubai”, sobretudo investidores e promotores que procuram terrenos ou propriedades com potencial para novos empreendimentos.

A empresa identificou esta tendência num evento recente com a sua equipa do Dubai, uma capital do luxo no Médio Oriente que está a ser castigada no atual contexto geopolítico (e sem fim à vista). A Sotheby’s tem também verificado “um maior interesse por parte de clientes do Dubai”, sobretudo investidores e promotores que procuram terrenos ou propriedades com potencial para novos empreendimentos.

A procura, contudo, não se move apenas numa direção. Miguel Poisson reconhece que alguns clientes que já planeavam comprar antes do agravamento do conflito suspenderam, adiaram decisões ou começaram a olhar em outra direção. “Portugal volta a ser uma solução não por questões fiscais, mas por questões de segurança, qualidade de vida, estabilidade política, clima e facilidade de integração”, afirma.

Nos últimos meses, a transação média da Sotheby’s em Portugal rondou 1,2 milhões de euros. Segundo o CEO da Sotheby’s, “temos também observado clientes que continuam ativamente à procura de oportunidades internacionais e que veem Portugal como uma escolha estratégica de médio e longo prazo. Muitos americanos, que não se identificam com a atual presidência, continuam a mudar de país e muitos rumam à Europa e Portugal tem sido o destino de alguns deles. No segmento de luxo, em particular no Algarve, os britânicos continuam a ter um peso muito forte”.

Procura cresce no arrendamento premium

Na Corcoran Atlantic, filial portuguesa da norte-americana Corcoran, Hugo Santos Ferreira diz que o aumento do interesse internacional está a ser sentido sobretudo no arrendamento de média duração, em imóveis prontos a habitar e situados em zonas prime. Mais do que uma procura orientada para aquisição imediata, o que verificamos é um crescimento muito significativo do interesse por soluções de arrendamento de média duração”, afirma Hugo Santos Ferreira, CEO da mediadora.

Os contactos partem sobretudo de famílias internacionais, empresários, executivos e investidores que procuram relocalizar-se rapidamente ou garantir uma alternativa habitacional enquanto avaliam decisões de médio prazo. Não se trata necessariamente de uma mudança definitiva, mas da procura de flexibilidade num momento de maior incerteza, adianta.

As localizações mais procuradas são as mais valorizadas há muito: Lisboa, Cascais, Estoril e Algarve. Os interessados procuram sobretudo moradias e apartamentos de maiores dimensões, T4 e T5, totalmente equipados e próximos de escolas internacionais, serviços de saúde e boas acessibilidades.

A segurança, privacidade e serviços integrados são fatores determinantes. Entre os imóveis procurados encontram-se penthouses e moradias em Cascais e no Estoril, assim como apartamentos de gama alta no Chiado, Avenida da Liberdade e Avenidas Novas, incluindo edifícios com ginásios, piscinas interiores e spas. Dentro do segmento de luxo e ultra-luxo, é o que justifica a existência do conceito de branded residences, como o Karl Lagerfeld Residences, que foi apresentado esta semana em Lisboa e é o primeiro do género na capital.

“O fator ‘safe haven’ tornou-se hoje central na decisão imobiliária”, considera Hugo Santos Ferreira. O responsável sublinha que o fenómeno não se resume à transferência de capital anteriormente destinado ao Médio Oriente. Há também clientes que procuram viver temporariamente em Portugal, proteger património, garantir mobilidade internacional ou criar uma base segura na Europa.

No segmento de compra, a Sotheby’s observa maior interesse por moradias, penthouses no centro de Lisboa e do Porto, com vista rio, e propriedades com vistas diferenciadas no Algarve e na Madeira. Existem igualmente investidores interessados em apartamentos para rendimento (“Há mais procura de apartamentos no centro das cidades que, sendo arrendados abaixo de 2.300€, permitem aos investidores pagar somente 10% de tributação ao invés dos habituais 25%, diz Poisson) e em oportunidades de desenvolvimento imobiliário (“tirando partido dos benefícios de IVA a 6% se forem respeitados alguns requisitos como a construção de imóveis de preços inferiores a €661 mil e destinados à habitação própria permanente”).

Sinais no mercado, mas ainda sem dados conclusivos

Apesar dos sinais identificados pelas mediadoras com maior exposição ao segmento internacional, Patrícia Barão, da Dils, considera que ainda não existem dados suficientes para ligar diretamente o conflito a um aumento da aquisição de casas em Portugal. “O conflito é ainda muito recente e é cedo para afirmar que existe um impacto direto e mensurável na procura imobiliária em Portugal”, afirma. “Para já, não existem dados que permitam estabelecer uma relação direta entre o atual contexto geopolítico e um aumento efetivo da aquisição de casas no país”

A responsável recorda que o mercado residencial português continua a ser dominado pela procura interna. Segundo os dados citados pela Dils, cerca de 95% das transações são realizadas por compradores nacionais, representando os compradores internacionais aproximadamente 5%.

A procura estrangeira tem, contudo, vindo a diversificar-se. Aos compradores dos EUA e do Brasil, os investidores provenientes do Médio Oriente têm ganho relevância, sobretudo no segmento premium. Mais uma vez, mas agora de acordo com a Dils, as zonas mais desejadas (e valorizadas) são Lisboa, Cascais, Algarve, Comporta e, mais recentemente, Porto. É aqui que se concentra a procura por ativos prime. “O perfil dos investidores internacionais é hoje bastante diversificado. Além de compradores que procuram residência principal ou segunda habitação, existe também procura por ativos patrimoniais de longo prazo e por projetos com gestão profissionalizada e serviços integrados”, diz, acrescentando que “nos últimos anos, têm ganho destaque formatos como branded residences e empreendimentos com amenities e serviços associados.

Patrícia Barão admite que Portugal poderá beneficiar da sua imagem de estabilidade, segurança e qualidade de vida, à semelhança de outros mercados do sul da Europa. Em períodos de instabilidade global, investidores internacionais tendem a reavaliar geografias e a procurar formas de diversificar o risco.

Decisões em suspenso

A experiência observada por Liam Bailey, da Knight Frank, aponta também para um efeito indireto do conflito. Em entrevista ao ECO considera que o principal movimento não está a ser provocado por pessoas que já vivem no Médio Oriente e pretendem sair da região, mas por compradores e famílias que estavam a preparar uma mudança e decidiram suspendê-la.

Em Londres, a consultora observou proprietários que retiraram casas do mercado de arrendamento porque já não avançaram com a mudança planeada para o Médio Oriente. A região tornou-se, nas palavras de Liam Bailey, um destino menos atrativo para quem ainda estava a ponderar instalar-se.

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