Intermediários de crédito captam clientes com menor literacia financeira e menos rendimentos

Menos estudos e rendimentos mais baixos levam os portugueses aos intermediários de crédito, onde o crédito pessoal sai 1,2 pontos percentuais mais caro do que no banco, diz o Banco de Portugal.

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  • Mais de metade do crédito aos consumidores em Portugal foi intermediado no final de 2025, refletindo uma crescente dependência dos intermediários de crédito.
  • O Banco de Portugal identificou 4.835 intermediários autorizados no ano passado, sendo que 76,5% atuam como atividade acessória, principalmente no comércio automóvel, onde a intermediação é mais prevalente.
  • Os dados do Banco de Portugal apontam para que os mutuários que recorrem a intermediários tendem a ter menor literacia financeira, aumentando o risco de endividamento e reclamações.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

No final do ano passado, mais de metade do crédito aos consumidores contratado em Portugal passou pelas mãos de um intermediário de crédito. Um número que diz muito sobre como os portugueses acedem ao financiamento e levanta questões sobre transparência, custos e o perfil de quem recorre a estes agentes, que o Banco de Portugal explora num estudo apresentado esta segunda-feira aos jornalistas.

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Segundo o estudo do Banco de Portugal, que faz parte do Boletim Económico de junho apresentado esta segunda-feira, existiam 4.835 intermediários de crédito autorizados a intervir na comercialização de contratos de crédito aos consumidores no final de 2025.

“Desde a entrada em vigor do RJIC [Regime Jurídico dos Intermediários de Crédito] e findo o período transitório a 31 de julho de 2019, o número de intermediários de crédito que atuam no mercado de crédito aos consumidores tem vindo a aumentar gradualmente“, assinala o banco central, salientando que cerca de 88% dos intermediários de crédito eram pessoas coletivas.

A grande maioria (76,5%) operava a título acessório, em que a intermediação é uma atividade secundária que serve para financiar os bens ou serviços que o próprio intermediário vende, como é o caso típico de uma concessionária automóvel.

Para o crédito pessoal, os resultados sugerem que empréstimos semelhantes concedidos a mutuários semelhantes através de intermediários apresentam, em média, uma TAEG cerca de 1,2 pontos percentuais acima da observada na contratação direta.

Banco de Portugal

Os restantes 23,4% dos intermediários de crédito são agentes vinculados, atuando em nome e sob responsabilidade de uma ou mais instituições financeiras que, segundo o Banco de Portugal, estão ligados, em média, a oito instituições cada. Apenas 0,1% dos intermediários de crédito são não vinculados, os únicos que podem ser remunerados diretamente pelo consumidor.

Os dados do Banco de Portugal, que deixam de fora a intermediação na contratualização de crédito à habitação, salientam ainda que o setor é dominado, de forma esmagadora, pelo comércio automóvel, com 61% dos intermediários de crédito a título acessório a estarem registados como pessoa coletiva que têm como atividade principal o comércio a retalho de veículos automóveis, motociclos e acessórios, e outros 8,6% desenvolvem outras atividades ligadas a veículos.

O reflexo direto desta realidade é que mais de 80% do volume de crédito automóvel em 2025 foi concedido com a intervenção de um intermediário entre 2021 e 2025, uma proporção muito superior aos cerca de 20% registados no crédito pessoal.

A análise do Banco de Portugal refere também que quem recorre a um intermediário para comprar carro endivida-se a um valor superior, com o montante médio dos novos empréstimos de crédito automóvel contratados por via de intermediários de crédito a situar-se nos 16.600 euros, 26,7% acima dos 13.100 euros nos contratos fechados diretamente com uma instituição financeira.

As maturidades dos contratos de crédito automóvel são também superiores nos contratos intermediados, ainda que o preço cobrado seja praticamente idêntico em ambos os canais.

Entre 2021 e 2025, 63% dos mutuários que obtiveram crédito pessoal via intermediários de crédito não tinham crédito prévio, face a apenas 27% no canal direto junto das instituições financeiras.

No crédito pessoal o cenário inverte-se. Os montantes médios dos empréstimos contratados através de intermediários de crédito são inferiores — 4.600 euros face a 7.900 euros nos contratos diretos –, com prazos mais curtos e com destino frequente a finalidades específicas como saúde, educação ou obras em casa. Ainda assim, e este é um dado central da análise do Banco de Portugal, o preço do crédito é mais elevado.

“Para o crédito pessoal, os resultados sugerem que empréstimos semelhantes concedidos a mutuários semelhantes através de intermediários apresentam, em média, uma TAEG cerca de 1,2 pontos percentuais acima da observada na contratação direta.” O banco central reconhece que esta diferença de preço pode refletir “o que o consumidor está disposto a pagar para não ter de procurar crédito diretamente nas instituições financeiras e ter a ajuda do intermediário para comparar e explicar propostas, que será tanto mais relevante quanto menor a literacia financeira.”

Intermediação de crédito procurada por clientes com menos literacia financeira

O perfil dos mutuários que recorrem a intermediários de crédito merece também destaque na análise do supervisor, com o Banco de Portugal a notar que “os mutuários que recorrem a intermediários de crédito tendem a ser mais velhos, com menor escolaridade e menor rendimento do que aqueles que recorrem diretamente às instituições financeiras.”

No crédito pessoal, a proporção de reformados é mais do dobro nos contratos intermediados face aos diretos (17% contra 7%), e entre esses reformados, 24% dos novos montantes destinam-se a despesas de saúde e 44% à finalidade “lar”.

Note-se ainda que 63% dos mutuários que obtiveram crédito pessoal via intermediários não tinham crédito prévio, face a apenas 27% no canal direto, o que sugere que os intermediários funcionam como porta de entrada ao sistema financeiro para um conjunto de pessoas que de outra forma dificilmente acederia a financiamento.

A análise estatística do banco central vai mais longe e estima que “o recurso a intermediários e crédito é mais provável para uma franja da população habitualmente associada a menor literacia financeira, nomeadamente indivíduos com mais idade e menor escolaridade”.

Segundo os dados apresentados, uma pessoa sem escolaridade tem 31% de probabilidade de recorrer a um intermediário de crédito para obter um crédito pessoal, face a 69% de recorrer diretamente à instituição, ao passo que alguém com ensino superior tem apenas 23% de probabilidade de o fazer.

Do lado da supervisão, o Banco de Portugal alerta no Relatório de Supervisão Comportamental de 2025 que as reclamações contra a atuação de intermediários de crédito aumentaram 52,5% face a 2024, chegando a 93 queixas, a maioria relacionada com o dever de assistência ao cliente (51,6%), o dever de conduta e diligência (33,3%) e a prestação de informação pré-contratual (9,7%).

O regulador refere que realizou ações inspetivas que abrangeram “mais de 250 intermediários de crédito” e, em 2025, foram emitidas 182 propostas de processo de contraordenação, menos do que as 419 de 2024, mas o Banco de Portugal avisa que esta redução “deve ser interpretada com prudência, não permitindo ainda concluir que os riscos tenham diminuído de forma estrutural.”

Em simultâneo, 81,7% dos suportes de publicidade analisados de intermediários tinham irregularidades, acima dos 69,6% registados em 2024, com as falhas mais comuns a centrarem-se na “ausência no suporte dos elementos informativos obrigatórios, tais como a categoria de intermediário de crédito, os serviços autorizados ou as instituições mutuantes com quem tem contrato de vinculação.”

No Relatório de Supervisão Comportamental de 2025, o Banco de Portugal descreve a intermediação de crédito como “um setor muito atomizado, maioritariamente composto por pequenas entidades, frequentemente sem estruturas dedicadas a funções de conformidade, o que aumenta o risco de incumprimento”, salientando que analisou 8.300 processos de autorização e registo em 2025, muitos dos quais evidenciaram “dificuldades procedimentais e desconhecimento dos requisitos formais aplicáveis”, além de terem sido identificadas “fragilidades nos conhecimentos e competências dos supervisionados, carga burocrática excessiva associada ao registo, falta de clareza e transparência dos modelos de remuneração e a possibilidade de os intermediários selecionarem propostas segundo critérios e interesses próprios, nem sempre plenamente alinhados com os do consumidor.”

Estes dados ganham particular relevância quando, segundo dados reportados pelas instituições de crédito ao Banco de Portugal referentes a 2025, “cerca de 51% do montante de crédito aos consumidores e de 56% do montante de crédito à habitação foi comercializado com a intervenção de intermediário, ou seja, envolveu a participação de um intermediário de crédito em alguma fase do processo de contratação.”

A fotografia que o banco central traça agora da intermediação de crédito pelo lado da procura é a de um setor com peso crescente com algumas falhas estruturais que afetam desproporcionalmente os consumidores mais vulneráveis, com os resultados a apontarem “para a importância da transparência no mercado e da formação em literacia financeira para garantir o acesso equitativo dos mutuários ao crédito.”

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