Miguel Albuquerque: “Há políticos que querem ser amados e eu tenho pena deles”

  • ECO
  • 8 Junho 2026

Cresceu a ver o seu avô liderar a oposição e a primeira revolta da Madeira. Hoje, é Miguel Albuquerque quem lidera o Governo Regional da Madeira e partilha como foi traçando o seu caminho.

Miguel Albuquerque, Presidente do Governo Regional da Madeira, é o 81º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Desde pequeno que se inteirou por assuntos políticos, até porque vivia com um militar da oposição, o seu avô, que lhe passou grandes ensinamentos. Ainda assim, começou a sua vida profissional na advocacia e só mais tarde é que enveredou pela política, onde se manteve até hoje.

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“Eu sempre tive a política em casa porque o meu avô, com quem fui criado, era um homem da oposição e foi um dos líderes da primeira revolta da Madeira, em 1931. Quando se deu 25 de abril, eu já tinha uma perceção da realidade política porque falávamos dela. E, obviamente, eu inspirei-me em muitas das conversas que surgiam lá em casa“, começou por dizer.

Contudo, a sua vida profissional não começou na área política porque queria ter “uma profissão independente”. Decidiu, por isso, seguir advocacia e montou o seu primeiro escritório aos 23 anos: “Foi um escritório de grande sucesso e só o abandonei quando fui para o exercício de vice-presidente da Câmara, em 1994. Na altura, tinha 400 e tal processos a decorrer ao mesmo tempo e, para além disso, era administrador de um conjunto de empresas familiares. Era incompatível”.

De vice-presidente passou relativamente rápido a presidente, depois de “um conflito entre Virgílio Pereira [ex-presidente da Câmara Municipal do Funchal] e Alberto João Jardim, na altura presidente do governo”. A situação fez com que Virgílio Pereira “abandonasse a Câmara no Verão de 1994”, o que obrigou Miguel Albuquerque a assumir a presidência, lugar onde ficou durante 19 anos. “Nós fizemos muita coisa no Funchal. Os nossos mandatos marcaram uma modernização efetiva e ainda hoje as pessoas falam. Já na altura tomávamos decisões contra quem fosse“, afirmou.

Essa modernização prendeu-se, sobretudo, com o crescimento económico da região, que conseguiu ultrapassar o PIB da média nacional: “Nós éramos a região mais pobre, mas tínhamos de dar o salto porque só com crescimento económico é que se consegue pagar melhores salários, erradicar a pobreza e diminuir as desigualdades. E o que nós conseguimos foi, em dez anos, duplicar o PIB da Madeira – passamos de mais de quatro mil milhões de euros para mais de 8 mil milhões. Temos os impostos baixos, o PIB está 107 pontos acima da média nacional, e a dívida está a 60% do PIB porque nós a amortizamos. Só com contas públicas diretas é que se pode ter uma economia consistente”.

O balanço é positivo, mas Miguel Albuquerque garante que só é possível chegar a estes resultados com coragem e clareza, ensinamentos que recebeu do avô e que segue até hoje. “O meu avô dizia-me sempre que a parte mais importante de um político não é a inteligência, mas duas coisas: coragem e clareza. Não há política sem clareza. A clareza é fundamental para se perceber o caminho que se quer seguir e, depois, é preciso ter a coragem de seguir em frente e aguentar o barco“, disse.

E foi exatamente isso que fez quando decidiu, em 2014, concorrer sozinho, “contra todos”, à presidência do Governo Regional na Madeira. Ganhou e constitui governo, mas lembrou que se quisesse ser “amado por todos”, nunca conseguiria “fazer nada”: “Há políticos que querem ser amados e eu tenho pena deles. Querem ser amados por todos, à esquerda e à direita, querem ser politicamente corretos. Mas eles nunca hão de fazer nada e nunca hão de ficar na história. É preciso decidir“.

“Nós aqui estamos na linha da frente. Neste momento temos mais de 400 empresas, que faturam aqui cerca de 700 milhões de euros. Fomos reduzindo o IRC – está em 13.3% – e, neste momento, o IRS está com 30% diferencial até ao nono escalão. Por conseguinte, estamos com um conjunto de empresas de ponta, onde fixamos os jovens entre os 22 e os 27 anos. Isto porque também temos aqui a robótica e até vamos construir uma fábrica para que as peças sejam montadas e fabricadas cá. Estas empresas são as que trazem maior valor acrescentado, que podem fixar os nossos jovens, e que levam à diversificação da nossa economia”, continuou.

A este respeito, mencionou ainda a aposta que têm vindo a fazer para adaptar a tecnologia às indústrias e deu o exemplo das carpintarias para elucidar melhor: “Aqui as carpintarias são de ponta. Já não têm carpinteiros, mas têm os jovens a fazer impressão 4D e 5D. Desde 2015, adotamos o modelo de educação de Singapura, que faz com que todas as escolas públicas que têm matemáticas aplicadas desenvolvam programação robótica, impressão 4D e, agora, Inteligência Artificial. A verdade é que não vamos ter gente para trabalhar em áreas não qualificadas, portanto temos que desenvolver algumas áreas e atrair empresas para cá”.

Este olhar para o futuro tem resultado numa “previsibilidade” e numa segurança baseada, também, no excedente que têm, há sete anos, da balança comercial: “A nossa última balança comercial foi 138 milhões euros positiva. O caminho é este“. E esse caminho vai continuar a ser traçado seguindo duas ambições – tornar a Madeira num “destino de qualidade do golfe” com a construção de dois campos e, ainda, fazer um “processo de upgrade no turismo”.

“Isto significa que estamos a melhorar tudo o que é produto e serviço – a oferta de restauração, de hotelaria, de circuito, de visita. Sobe a qualidade e sobre o preço. Nós não somos um turismo massificado, somos um turismo de nicho, mas interessa que o produto ou o serviço que é prestado tenha alta qualidade para ser remunerado convenientemente“, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.

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