BRANDS' ECO Próxima década será decisiva para a aviação europeia
Pressão regulatória crescente, desafios de capacidade e a necessidade de acelerar a inovação tecnológica são desafios identificados para o setor. Portugal tem potencial para ser mais competitivo.
É preciso transformar ambição em execução, alinhando investimento, regulação e capacidade industrial. Esta foi uma das mensagens chave deixadas pelos participantes na manhã do último dia dos AED Days 2026, dedicado ao setor da aviação.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Num contexto que está a transformar a aeronáutica a nível europeu, Portugal poderá ter, na perspetiva dos oradores, um papel importante a desempenhar. O país pode tornar-se mais competitivo reforçando o foco em sustentabilidade, tecnologia e na preparação do novo ciclo aeroportuário. Contudo, para fazê-lo terá antes de ultrapassar os desafios atuais que passam, nomeadamente, pela pressão operacional, pelas exigências regulatórias europeias e pela oportunidade estratégica do novo aeroporto de Lisboa.
Aeroporto de Lisboa é uma oportunidade única para maximizar o impacto económico, e colocar Portugal mais perto do mundo
José Rui Marcelino, vice-presidente do AED Cluster Portugal, sublinhou que o novo aeroporto deve ser encarado como um ativo económico e tecnológico, e não apenas infraestrutural. “É uma oportunidade única para maximizar o impacto económico, e colocar Portugal mais perto do mundo”. O responsável do cluster defendeu que o país tem condições para competir em nichos de tecnologia aeroportuária: “Temos de elevar a fasquia na nossa capacidade de desenvolver e entregar tecnologia aeroportuária”.
Sobre o ecossistema aeronáutico português, defendeu que este entrou numa fase de maturidade, com projetos europeus, consórcios e grupos de trabalho já no terreno. “Uma coisa é escrever um documento, outra é agir. E é isso que estamos a fazer em conjunto”, afirmou. O vice‑presidente destacou ainda que o novo aeroporto exige preparação antecipada. “Estamos a considerar novos sistemas de armazenamento de energia, diferentes soluções de ATM, e temos de começar a trabalhar agora”.
Ainda durante a sessão de abertura do terceiro dia de debates, a presidente da ANAC – Autoridade Nacional de Aviação Civil, Ana Mata, recordou a pressão crescente sobre o sistema aeroportuário, que duplicou o número de passageiros em dez anos. “A aviação está em num ponto de viragem, pelo que estamos ativamente a reivindicar o futuro do nosso setor”, afirmou. Para garantir competitividade, defendeu uma regulação mais ágil e alinhada com a inovação, garantindo que “os reguladores também devem ser promotores de transformação”. Ainda assim, deixou claro que a evolução tecnológica não pode comprometer o essencial, pois “a segurança permanece a base na qual todos os avanços devem ser construídos”.
Pedro Patacho, vereador da Câmara Municipal de Oeiras, reforçou na sessão de abertura o papel crescente do município como polo económico e tecnológico capaz de atrair investimento para os setores da aeronáutica, espaço e defesa Sublinhou que Oeiras “é hoje um dos ecossistemas de inovação mais dinâmicos do país”, destacando a densidade empresarial e o contributo para a economia nacional. Apontou ainda projetos estruturantes como o Oeiras Space Hub e o futuro laboratório de inovação, que irão “reforçar a capacidade de captar startups, centros de investigação e parcerias internacionais”. Para Pedro Patacho, a cooperação territorial é fundamental, justificando o novo protocolo com Cascais para criar “uma plataforma regional mais forte” capaz de posicionar a região como hub atlântico de tecnologia e aviação.
Portugal enfrenta riscos estruturais
O país tem crescido acima da média europeia, mas enfrenta riscos estruturais que podem comprometer competitividade e conectividade nos próximos anos, concluíram os keynote speakers Rafael Schvartzman, vice‑presidente regional da IATA, e Tânia Cardoso Simões, diretora de Transformação para a Aviação no Eurocontrol.
A aviação contribui com “4,1 triliões de dólares (cerca de 1,2 biliões de euros) para a economia global” e suporta “86,5 milhões de empregos”, lembrou Rafael Schvartzman que abriu a sua intervenção com um retrato macroeconómico do setor. Em Portugal, o impacto é proporcionalmente superior, disse, com “20 biliões de dólares (cerca de 17,1 mil milhões de euros) e um peso de 7,1% da economia nacional”, a que se juntam 335 mil postos de trabalho dependentes direta ou indiretamente do transporte aéreo.
O país destaca‑se ainda pela forte exposição internacional, uma vez que “quase 85% do tráfego aéreo vem de fora do país”. Entre 2015 e 2025, as ligações portuguesas cresceram 45%, atingindo 573 rotas. Contudo, alertou para o desaparecimento de ligações mais frágeis, e apontando o risco de perda de conectividade regional com impacto direto na competitividade económica.
As receitas da ANA deveriam traduzir‑se em melhorias visíveis de infraestrutura e serviço
A saturação do aeroporto de Lisboa é hoje o principal fator de risco operacional. O Humberto Delgado opera “na capacidade máxima” e apresenta “o pior desempenho da Europa para partidas pontuais, com apenas 54%”. A experiência do passageiro degrada‑se, o Regime de Qualidade de Serviço Aeroportuário (RQSA) está suspenso e a pressão sobre o novo aeroporto exige decisões rápidas, previsões realistas e governação transparente. “As receitas da ANA deveriam traduzir‑se em melhorias visíveis de infraestrutura e serviço”, afirmou.
Mas se a IATA trouxe o alerta económico, Tânia Cardoso Simões destacou o mapa da transformação tecnológica que a Europa terá de concretizar até 2035. A aviação foi escolhida como um dos cinco “projetos inovadores” do próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia, “um sinal político raro”. “O próximo ano valerá por dez”, afirmou a responsável do Eurocontrol, sublinhando que as decisões tomadas em 2027 terão um enorme impacto na competitividade europeia durante a próxima década.
A fragmentação do espaço aéreo europeu continua a ser o maior entrave estrutural. “Os Estados querem manter os seus próprios sistemas e, com isso, estamos a perder muita eficiência”, explicou. A solução passa por sistemas interoperáveis, plataformas digitais comuns e uma cloud soberana europeia, defendeu.
Mas o maior obstáculo é o chamado “vale da morte” da inovação, ou seja, o fosso entre investigação e implementação. “O principal problema é a dificuldade de transformar a inovação em implementação”, afirmou, lembrando que muitos projetos chegam ao fim sem maturidade tecnológica suficiente ou sem standards definidos.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Próxima década será decisiva para a aviação europeia
{{ noCommentsLabel }}