Silicon Valley rendeu-se ao euro e empurrou emissão de dívida para máximos históricos
A Alphabet e a Amazon escolheram o euro para financiar a corrida à inteligência artificial, contribuindo para o maior volume de emissão de dívida em euros desde a criação da moeda única.
- O boom da inteligência artificial levou as maiores tecnológicas americanas a recorrer ao mercado de capitais europeu, elevando o euro a máximos históricos de emissão de dívida.
- A Alphabet levantou 13,25 mil milhões de euros em dois negócios para financiar centros de dados na Europa, enquanto a Amazon emitiu um recorde de 14,5 mil milhões em 2026.
- O euro tornou-se em 2025 a principal moeda do mercado global de obrigações verdes, ultrapassando o dólar pela primeira vez desde a criação da moeda única.
Quando a Alphabet, a empresa-mãe da Google, decidiu em abril do ano passado emitir obrigações pela primeira vez em euros, o mercado financeiro europeu recebeu um sinal difícil de ignorar.
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As maiores tecnológicas americanas escolheram a moeda única para financiar a corrida à inteligência artificial, num ano que ficará marcado como um ponto de viragem na história do euro nos mercados financeiros internacionais.
A sustentar o recorde de emissão de dívida está a aposta das grandes empresas tecnológicas americanas no mercado de capitais europeu. As empresas aproveitaram “spreads corporativos historicamente reduzidos, diferenciais de custo de emissão favoráveis face a outras moedas e um boom de investimento impulsionado pela inteligência artificial”, refere o relatório anual do BCE, publicado recentemente, sobre o papel internacional do euro.
A emissão de dívida internacional denominada em euros atingiu o nível mais alto desde a criação da moeda.
As obrigações emitidas por empresas americanas em euros, por vezes convertidas de volta em dólares (conhecidas no mercado como Reverse Yankees), registaram um crescimento particularmente expressivo, com os EUA a aumentarem a sua quota para quase 25% da emissão total de obrigações em euros.
“A emissão de dívida internacional denominada em euros atingiu o nível mais alto desde a criação da moeda”, destaca Christine Lagarde, presidente do BCE, no prefácio do relatório, notando que a emissão de obrigações e empréstimos internacionais em euros cresceu cerca de 30% face a 2024, ultrapassando 1,1 biliões de dólares (cerca de 1 bilião de euros).
A Alphabet levantou cerca de 13,25 mil milhões de euros em dois negócios distintos, tornando-se o maior emissor internacional de obrigações em euros em 2025, segundo dados da Dealogic citados pelo BCE.
Os dois negócios representaram 40% da emissão total de obrigações da Alphabet no ano, servindo para financiar um compromisso de investimento de 5,5 mil milhões de euros na Alemanha até 2029 e de 5 mil milhões de euros na Bélgica até 2027, além de investimentos contínuos em França e nos países nórdicos. “A maioria dos recentes investimentos europeus da Alphabet centra-se em infraestrutura de IA, capacidade de computação em nuvem e expansão de centros de dados, refletindo o aumento da procura de IA generativa e serviços de cloud“, refere o relatório do BCE.
Esta tendência acelerou já em 2026, com a Amazon a estabelecer um novo recorde ao emitir 14,5 mil milhões de euros no primeiro trimestre, para financiar os seus vastos investimentos em inteligência artificial.
Além do boom tecnológico em 2025, o euro tornou-se a principal moeda de emissão no mercado internacional de obrigações verdes e sustentáveis, ultrapassando o dólar pela primeira vez desde a criação da moeda única.
O apetite dos investidores internacionais pelo euro estendeu-se igualmente ao mercado acionista e obrigacionista da Zona Euro, com os influxos líquidos de portefólio estrangeiro para a área do euro a ultrapassarem 850 mil milhões de euros no ano passado, ficando próximo dos níveis de pico desde a criação do euro, com os influxos de capital em ações a subirem para cerca de 470 mil milhões de euros, face a 440 mil milhões em 2024.
O relatório do BCE nota ainda que a quota do euro nas responsabilidades transfronteiriças da Zona Euro subiu de 54% para 66% ao longo da última década, “evidenciando o crescente apelo do euro junto dos investidores internacionais”.
A Zona Euro afirma-se assim como um hub financeiro global de primeiro plano, facilitando a intermediação de fluxos financeiros mundiais, em grande parte através de fundos de investimento domiciliados na Irlanda e no Luxemburgo.
Euro lidera pela primeira vez o mercado global de dívida verde
Além do boom tecnológico, 2025 ficou também marcado por uma conquista histórica no mercado de finanças sustentáveis. O euro tornou-se a principal moeda de emissão no mercado internacional de obrigações verdes e sustentáveis, ultrapassando o dólar pela primeira vez desde a criação da moeda única.
A emissão de obrigações verdes e sustentáveis denominadas em euros subiu para quase 100 mil milhões de dólares, aumentando a quota do euro de cerca de 35% para mais de 41%. Em sentido inverso, a emissão em dólares neste segmento caiu 30 mil milhões de dólares, reduzindo a quota do dólar em 10 pontos percentuais para cerca de 32%.
“Um quadro europeu consistente em matéria de finanças verdes e sustentáveis conduziu à liderança de mercado”, refere Piero Cipollone, membro do Conselho Executivo do BCE, numa análise sobre como a “Europa precisa de agir para reforçar o papel da sua moeda”.
O documento do BCE nota ainda que esta liderança foi apoiada por iniciativas como as Obrigações Verdes Europeias (EuGB) e o programa Next Generation EU, e que propostas em discussão sugerem que a Europa poderia começar a faturar produtos ecológicos, como equipamento de energia descarbonizada, veículos elétricos e matérias-primas para a eletrificação, em euros.

O crescimento da emissão internacional de dívida em euros foi geograficamente amplo, com aumentos notáveis nos EUA e nos mercados emergentes, destacam os números do relatório do BCE.
- O Reino Unido manteve-se como a maior jurisdição, representando 27% da emissão de obrigações em euros, enquanto os EUA aumentaram significativamente a sua quota para quase 25%, impulsionados pelo boom de investimento em IA.
- Os países de mercados emergentes também alargaram a sua emissão em euros, com a sua quota a subir 3 pontos percentuais para 8%, liderada por emissões de dívida soberana do México, da Colômbia e da China. Os influxos de portefólio estrangeiro para a Zona Euro aproximaram-se de máximos históricos, com compras líquidas a ultrapassarem 850 mil milhões de euros, próximo dos níveis de pico desde a criação do euro.
Christine Lagarde enquadra estes resultados num contexto mais amplo de afirmação do euro. “Existem condições para o euro reforçar o seu apelo global, desde que os decisores políticos europeus criem as condições necessárias e passem das palavras aos atos”, escreve a presidente do BCE.
Para que o euro evolua para uma moeda internacional global ainda com maior capilaridade, o relatório sublinha que a Zona Euro deve construir mercados de capitais mais profundos e líquidos, completar a União de Poupança e Investimento e avançar para o financiamento conjunto de bens públicos, de forma a estabelecer uma reserva segura e líquida de dívida pública da União europeia.
Piero Cipollone acrescenta que “áreas em que a Europa agiu com intenção, os resultados seguiram-se”, apontando a liderança nas obrigações verdes e o arranque exponencial dos pagamentos instantâneos como exemplos concretos dessa capacidade de ação.
O relatório do BCE assinala, contudo, que esses feitos não eliminam os desafios estruturais que o euro enfrenta. A quota do euro nas transações cambiais globais diminuiu cerca de 2 pontos percentuais face à sondagem anterior do BIS, em 2022, e pela primeira vez desde a criação do euro o renminbi ultrapassou a moeda única no financiamento do comércio mundial, atingindo uma quota de 8% face aos 6% do euro.
E embora a distância média geográfica dos emissores de dívida em euros tenha permanecido em torno dos 4 mil quilómetros, cerca de metade da registada para os emissores em dólares, que ronda os 8 mil quilómetros, essa diferença evidencia que o dólar mantém um alcance global mais amplo.
“Não há margem para complacência”, conclui Lagarde, numa referência às forças de fragmentação que se estão a tornar mais pronunciadas no sistema monetário internacional.
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