“Sinais de maior prudência”. Empresas vão abrandar contratações face a incerteza internacional

Há menos empresas em Portugal interessadas em aumentar as suas equipas e mais têm intenção de reduzir os seus quadros no próximo trimestre. Incerteza internacional ajuda a explicar tendências.

Ainda que o mercado de trabalho português continue a dar provas de resiliência, começam a aparecer sinais de “maior prudência” entre os empregadores nacionais. Assim, de acordo com uma nova análise da consultora de recursos humanos ManpowerGroup, a que o ECO teve acesso, o número de empresas que pretendem recrutar diminuiu, enquanto o número de empresas que antecipam uma redução das suas equipas no próximo trimestre aumentou.

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“Portugal continua a beneficiar de fatores de contexto favoráveis, nomeadamente a execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e o dinamismo de setores como a construção, a indústria e o turismo. Ainda assim, a desaceleração das principais economias europeias, a volatilidade dos custos energéticos e a incerteza geopolítica estão a levar as empresas a gerir os seus planos de crescimento com maior disciplina e seletividade“, começa por salientar Rui Teixeira, country manager do ManpowerGroup Portugal.

Os números comprovam essa maior prudência dos empregadores nacionais. Segundo a nova edição do “Employment outlook survey”, quase metade das empresas portuguesas pretende manter as suas equipas atuais nos próximos três meses, enquanto 35% planeiam aumentar os seus quadros e 17% anteveem reduzir a sua força de trabalho.

Em comparação, no trimestre anterior, 38% tinham mostrado vontade de aumentar as suas equipas e só 9% contavam reduzir os seus quadros. Ou seja, há agora menos empresas dispostas a fazer novas contratações e mais interessadas em reduzir as equipas.

Com base nestes dados, a ManpowerGroup estima que a projeção para a criação líquida de emprego situa-se em 18% para o terceiro trimestre de 2026. No trimestre anterior, a projeção para a criação líquida de emprego tinha ficado pouco abaixo do 30%, o que significa que também este indicador deixa prever um abrandamento do mercado de trabalho nacional.

“A projeção do trimestre anterior não traduzia ainda o impacto do conflito no Médio Oriente, com o agravar da incerteza global e o aumento dos custos da energia. A realização dos inquéritos às empresas tinha sido feita nas semanas imediatamente anteriores”, ressalva Rui Teixeira.

“Desde então, o contexto económico tornou-se mais desafiante e esta evolução dá-nos um espelho claro do impacto no emprego do atual contexto geopolítico. Perante este cenário, muitas organizações estão a adotar uma abordagem mais cautelosa na gestão dos seus planos de crescimento e investimento“, assinala o country manager, em declarações ao ECO.

Por outro lado, há a realçar que, enquanto em Portugal a projeção para a criação líquida de emprego ronda os tais 18%, a média global em 42 países é de 26%. Sobre essa diferença, Rui Teixeira frisa que alguns países parecem estar a resistir melhor ao conflito, sendo estes de maior dimensão, como é o caso dos Estados Unidos (onde a projeção para a criação líquida de emprego é de 45%), a Índia (48%) e a China (33%).

"Ainda assim, importa destacar que Portugal continua a apresentar um desempenho sólido em termos relativos.”

Rui Teixeira

Country manager do ManpowerGroup Portugal

Portugal opera num contexto distinto. Inserido numa economia europeia que atravessa um período de crescimento mais moderado, é naturalmente influenciado pelos desafios que afetam a região, desde a desaceleração económica à persistência de fatores de incerteza geopolítica e energética”, observa o country manager.

Ainda assim, faz questão de defender que Portugal “continua a apresentar um desempenho sólido em termos relativos“, estando mesmo acima da média europeia (14%) e “demonstrando uma resiliência assinalável num dos contextos mais exigentes dos últimos anos”.

“Mais do que comparar Portugal com os mercados que atualmente lideram o crescimento global, importa avaliar a sua capacidade de manter intenções de contratação positivas e consistentes num enquadramento europeu particularmente desafiante. Sob essa perspetiva, os resultados continuam a evidenciar um mercado de trabalho resiliente e uma procura por talento que permanece ativa”, assegura Rui Teixeira.

O que leva as empresas a querer contratar?

Mesmo num contexto desafiante e de maior prudência empresarial, há, sim, empresas em Portugal interessadas em aumentar as suas equipas, no próximo trimestre, como vimos. Entre essas, o crescimento do negócio é o principal fator por detrás do reforço de pessoal, com 34% dos empregadores a apontar essa razão (menos dez pontos percentuais do que no trimestre anterior).

“A necessidade de recursos dedicados a projetos específicos surge de seguida, referida por 24% dos empregadores. O impacto da escassez de talento em Portugal continua igualmente visível, com 22% dos empregadores a referirem o preenchimento de vagas abertas no trimestre anterior e 18% o preenchimento de vagas abertas em trimestres passados, refletindo a dificuldade dos empregadores de encontrar o talento de que necessitam”, nota ainda a ManpowerGroup.

Na lista de motivos para contratar, está também o foco em competências especializadas, com 17% dos empregadores a indicarem a procura de novas competências para manter a competitividade, “evidenciando a crescente importância da transformação tecnológica e da adaptação dos perfis profissionais às novas exigências do mercado“.

Já entre os empregadores que antecipam reduzir o número de colaboradores, “os desafios económicos surgem como o principal fator motivador, apontado por 27% dos inquiridos”. Seguem-se a necessidade de reestruturação ou downsizing, e os ajustes da força de trabalho à evolução da procura, ambos mencionados por 23% dos empregadores. Entre os motivos de redução de pessoal, está ainda o crescimento da automação (20% dos empregadores).

"Estes resultados revelam um mercado de trabalho mais prudente, com todos os setores a registarem um abrandamento das intenções de contratação face ao trimestre anterior.

ManpowerGroup

Quanto à diferença entre os vários setores, a ManpowerGroup aponta que os resultados revelam um mercado de trabalho mais prudente, com todos as áreas de atividade “a registarem um abrandamento das intenções de contratação face ao trimestre anterior”.

“O setor de construção & imobiliário destaca-se com a projeção para a criação líquida de emprego mais elevada (+36%), revelando, no entanto, uma redução de dez pontos percentuais, face ao segundo trimestre”, observa a consultora de recursos humanos. Também a tecnologia e serviços de IT (32%), a indústria (24%) e o comércio e logística (22%) apresentam perspetivas de contratação sólidas.

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