Aion V: o SUV familiar que esconde uma cama lá dentro

Luís Leitão,

A herança é japonesa, o preço competitivo e o espaço impressiona. O Aion V nasceu em Guangzhou e agora quer crescer sozinho na Europa, carregando argumentos suficientes para irritar a concorrência.

Há marcas que chegam ao mercado europeu a pedir desculpa por serem o que são. A Aion não é uma delas. Apresenta-se com um SUV elétrico de tamanho familiar, preço a partir de 41 mil euros, oito anos de garantia e uma história industrial que poucos esperariam de uma marca chinesa relativamente desconhecida no Velho Continente.

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A Aion é filha do GuangzhouAutomobileGroup (GAC), um dos maiores construtores automóveis da China e que há décadas fabrica Toyota e Honda na China. O resultado dessa história é o Aion V, que partilha a plataforma base com o Toyota bZ3X vendido no mercado interno chinês. Quando se anuncia assim, ou se tem produto suficiente para sustentar a conversa ou fica a nu muito depressa. Após alguns dias ao volante do Aion V, fica a ideia que este SUV elétrico fica ali no meio, nem nu nem vestido de gala, mas com roupa suficiente para aparecer numa reunião sem criar má impressão.

O ADN partilhado com a Toyota explica muito do que se sente ao conduzir o Aion V. A plataforma comum com o bZ3X não é um pormenor de catálogo, mas a espinha dorsal de um carro que foi concebido com engenharia japonesa no centro e ambições europeias na superfície. Para tentar conquistar a Europa, a GAC recalibrou a suspensão, reprogramou o sistema de ecrã e ajustou alguns detalhes de acabamento. Se esse trabalho de adaptação foi suficiente para convencer o consumidor europeu, essa é outra questão.

O Aion V chega à Europa com 4,6 metros de comprimento, oito anos de garantia e um preço a partir de 41 mil euros. É espaçoso, bem equipado e parte com uma plataforma partilhada com a Toyota. A pergunta que fica é sobre a marca, não sobre o carro.GAC

Entre a paragem à porta da escola de manhã cedo e o tradicional fim de semana de atividades dos miúdos no inevitável caos que uma família em movimento produz, o Aion V foi ganhando pontos onde mais importa: no espaço. São 4,6 metros de cumprimento e quase 1,7 metros de altura, com portas traseiras que abrem quase a 90 graus para facilitar o encaixe de cadeirinhas, e um habitáculo traseiro que deixa os passageiros de trás com mais folga do que seria de esperar a este preço.

O banco traseiro inclina bastante para trás, há mesas individuais para os passageiros traseiros e um suporte discreto no lugar do pendura para pousar malas de mão sem as deixar no chão, e os dois bancos da frente, quando totalmente recostados, transformam o habitáculo numa cama de casal comprida o suficiente para duas pessoas dormirem a sério. Para viagens longas, é um argumento genuíno. Para a rotina diária, é simplesmente espaço, e espaço nunca sobra.

O sistema de som Adigo é audível e suficiente para satisfazer as exigências musicais de um Spotify familiar. Os bancos dianteiros têm função de massagem, um pormenor que faz boa figura numa viagem longa e que, ao fim de uma hora a caminho do Algarve, passa de curiosidade a necessidade.

O painel central é dominado por um ecrã táctil de 14,6 polegadas que comanda quase tudo, desde o clima aos espelhos retrovisores, passando pela regulação da regeneração. É rápido e tem boa resolução, mas exige que o condutor abandone temporariamente o Apple Carplay sempre que quer ajustar os espelhos, uma irritação menor que se vai tornando maior com o uso diário.

Do ponto de vista do design, o Aion V é um SUV correto que não inventa. A silhueta é caixote, funcional, com frisos sobre os guarda-lamas dianteiros e traseiros, que diz muito sobre a escola estética de Guangzhou: aposta no equipamento e no espaço antes da forma.

Há poucos botões físicos, o que diz muito sobre a escola de design que a GAC seguiu, e diz menos sobre a praticidade da condução com crianças a pedir para mudar a música enquanto se está a sair de uma rotunda.

Os plásticos existem em quantidade — no volante, nas portas, na zona central de carregamento do telemóvel — e não passam despercebidos. Não são uma tragédia, mas são uma lembrança constante de que os 41 mil euros foram gastos noutros sítios: no espaço, na bateria, na autonomia e nas funcionalidades.

A bateria LFP de 75,3 kWh garante uma autonomia WLTP de 510 km, permite carregamentos rápidos de 180 kW que promete ir dos 10% aos 80% em cerca de 24 minutos. Na prática, o consumo de 15 a 16 kWh por cada 100 km permite uma autonomia real de 460 a 490 km em condução mista, que é um número honesto.

Na estrada, o Aion V conduz-se com facilidade e sem agressividade. O motor elétrico de 150 kW (204 cv) faz os 0-100 km/h em 7,9 segundos, o que significa que não assusta ninguém na autoestrada, mas também não arranca com a urgência da Tesla Model Y.

A suspensão foi calibrada para estradas europeias e consegue absorver os buracos urbanos sem drama. Em estrada nacional, porém, há um fundo de suspensão que não convence de todo: o amortecimento revela-se um pouco vago e a carroçaria tende a oscilar em curvas mais apertadas, especialmente quando se carrega a família a bordo. A direção é precisa e bem pesada, o que é um genuíno ponto a favor. O sistema de assistência à condução é outro assunto: ativo, insistente e que renasce completamente a cada vez que se liga o carro, obrigando a desativá-lo de novo da forma mais burocrática possível através de menus no ecrã.

Do ponto de vista do design, o Aion V é um SUV correto que não inventa. A silhueta é caixote, funcional, com frisos sobre os guarda-lamas dianteiros e traseiros que lhe dão alguma definição, mas que também dizem muito sobre a escola estética de Guangzhou: aposta no equipamento e no espaço antes da forma. Não é o carro mais bonito do segmento, mas também não é o mais feio. É, acima de tudo, discreto, o que pode ser uma virtude ou um problema, conforme as prioridades de quem compra.

A questão central que qualquer família deveria colocar antes de assinar o contrato é esta: 41 mil euros em 2026 compram muita coisa. O Skoda Elroq, por valor semelhante, conduz-se com mais prazer e com menos ruído de fundo; o BYD Seal U é mais prático e tem uma rede de serviço mais estabelecida; o Tesla Model Y custa mais, mas tem software que o Aion ainda não alcançou. Mesmo a nível da garantia, os oito anos soam bem, mas a Kia e a Hyundai oferecem sete há vários anos, não sendo assim uma revolução no setor. A dúvida que fica no ar não é sobre o carro em si, mas sobre a marca.

A história dos fabricantes chineses na Europa está cheia de entradas prometedoras e saídas silenciosas, e o consumidor que comprar um Aion V hoje precisa de acreditar que a marca ainda existe daqui a oito anos para usar a garantia.

O Aion V é um carro honesto, com mais espaço do que a concorrência ao mesmo preço, uma bateria competente e equipamento generoso. Pede paciência com o ecrã, compreensão com os plásticos e uma fé razoável no futuro europeu da GAC. Para quem fizer essa conta e sair satisfeito — e haverá quem saia –, é uma escolha difícil de contrariar nos números. Para quem precisar de mais do que números, há mais opções no mercado do que alguma vez houve.

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