Draycott sem pressão para investir: “Não temos emergência de ser deal-takers”

Francisco Guimarães Neto, sócio da private equity nacional, diz que Portugal difere de outros mercados europeus no ‘dry powder’ e antecipa mudanças nos investimentos alternativos dentro de cinco anos.

A Draycott, sociedade gestora de ativos e fundos de private equity e capital de risco, considera que Portugal não sofre de excesso de dry powder – capital disponível que ainda não foi investido – ao contrário de outros países da Europa. É por esse motivo que a empresa de investimentos alternativos e imobiliários garante estar sem pressão para aceitar todas as condições só para fechar negócios o mais rapidamente possível.

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Olho para Portugal e vejo boas empresas e boas oportunidades de investimento e de consolidação (por fragmentação setorial, sucessão, planos de internacionalização), mas ainda há menos capital local disponível em comparação com outros mercados europeus”, afirmou, em entrevista ao ECO, o sócio responsável pelas Relações com os Investidores na Draycott, Francisco Guimarães Neto. “A Draycott não está numa posição de ter capital pressionado a ser investido. Não temos emergência de ser deal-takers“, acrescenta.

Francisco Guimarães Neto reconhece que Portugal pode sofrer mais de escassez de investidores institucionais, por ser um mercado de menor dimensão ou de falta de “profundidade do capital privado”, mas a perspetiva para o mercado transacional este ano “é tendencialmente positiva”, mesmo que não acabe 2026 com um crescimento de operações de fusões e aquisições (M&A).

“Hoje o tema já não é tanto a disponibilidade de capital, mas o desafio de encontrar bons investimentos, boas empresas, de ter aqui boa alavancagem operacional, e executar saídas, ou seja, fazer os exits num contexto que por si só é mais exigente”, defende o ex-líder da BlackRock em Portugal, após anunciar o lançamento de um fundo de fundos.

Francisco Neto, partner da Draycott, em entrevista ao ECOHugo Amaral/ECO

A empresa fundada e liderada por João Coelho Borges, que tem 745 milhões de euros sob gestão e 35 profissionais, tem uma estratégia de investimento de private equity com base em três eixos: buy and build (aquisições maioritárias para poder moldar as equipas de gestão e gerar eficiências operacionais na sociedade), mid-market (PME com faturação abaixo dos 10 milhões de euros, a maioria do tecido empresarial português) e o chamado deal by deal (fazer negócios isolados no panorama pan-europeu).

O plano é tirar proveito das empresas que precisam de “dar o salto” e, em qualquer um dos eixos, não abdicam de um “alinhamento exaustivo” com as equipas de gestão.

Há muitos setores que têm um nível de fragmentação muito evidente, em que não há um campeão nacional ou um líder. O que queremos fazer, no ângulo de buy and build, é construir plataformas de raiz, através de sucessivas aquisições, para formar os tais campeões nacionais. Funciona bastante bem no mercado português, porque podemos aproveitar a fragmentação”, afirma Francisco Guimarães Neto.

A nível global, o private equity continua com níveis bastante relevantes de dry power, ainda que abaixo dos níveis máximos. O que é que mudou? A exigência crescente. Há mais escrutínio na forma como este capital é alocado. Porquê? Passámos do ambiente em que vivemos nas últimas décadas, a denominada Era da Grande Moderação, onde as taxas eram baixas, e havia outra flexibilidade para alocar capital.

E na fragmentação do setor da gestão de ativos, onde se inserem? Um relatório da Oliver Wyman e Morgan Stanley concluiu que há cada vez mais casamentos entre gestoras de ativos e fortunas. O “novo normal”, com mais de 200 negócios considerados relevantes por ano desde 2022, não se ficará por aqui, segundo a análise da consultora e do banco.

Está a acontecer bastante, mas diria que mais no mundo dos ativos líquidos, para já, nesta primeira fase. Isso vem como consequência direta de algo que é: o mundo dos investimentos líquidos (ações, obrigações líquidas…) tornou-se um negócio de escala, porque há muita pressão na margem do preço. O volume de negócio é o que mais importa ao dia de hoje, porque a margem é cada vez menor, dado que os produtos estão cada vez mais democratizados”, retorquiu o partner da Draycott.

Ainda assim, nos próximos cincos anos, esta “mudança estrutural” chegará aos investimentos alternativos, antecipa o head of Investor Relations da Draycott. Só vencerá quem for uma “one-stop-shop” e, dentro da sua atividade, tiver capacidades em diversas verticais.

“Hoje em dia, uma pessoa pode comprar um ETF a cinco pontos base [de taxa de gestão anual]. Se analisarmos a evolução da comissão de gestão de um fundo de investimento líquido, tem sido decrescente ao longo dos anos. O facto de os produtos de investimento líquido serem cada vez mais uma commodity faz com que a gestão de ativos no mundo líquido seja cada vez mais um mercado de escala”, concluiu Francisco Guimarães Neto, na primeira entrevista após a saída da BlackRock.

Notícia atualizada a 18-06-2026 com retificação de “crescente” para “decrescente”

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