Seguro acentua “autonomia estratégica europeia” e NATO no discurso do Dia de Portugal
"O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança que tem na NATO o pilar fundamental", afirmou António José Seguro, a 20 km da Base das Lajes.
O primeiro discurso presidencial de António José Seguro no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades teve um foco especial no contexto internacional, salientando ideias como a de que a NATO é o “pilar fundamental” da segurança na Europa e América do Norte.
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Na cerimónia que decorre nesta quarta-feira em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, a mesma do arquipélago dos Açores que acolhe a base das Lajes, envolvida no conflito entre EUA e Irão, o Presidente da República deixou palavras que remetem para a discussão dos últimos três meses sobre a utilização daquela base pelos norte-americanos. “A autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica, é o seu complemento natural. O presente e o futuro da Europa e da América do Norte são dimensões de uma mesma comunidade de segurança que tem na NATO o seu pilar fundamental”.
Com um foco no Atlântico como “parte da autonomia estratégica europeia”, designadamente em termos de segurança e defesa, Seguro falou na necessidade de “liberdade de decisão e responsabilidade, aperfeiçoando, atualizando e reforçando cooperações bilaterais com os nossos aliados”.
"Os Açores assumem um lugar singular na nossa identidade, na nossa história, mas também no nosso futuro. Os Açores situam-nos num ponto estratégico de relação entre a Europa e o continente americano, entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas que estruturam a ordem global. Por todas estas razões, é um lugar que nos obriga a assumir especiais responsabilidades, no quadro da afirmação plena da nossa soberania, dos nossos interesses e do nosso futuro estratégico. Sempre no respeito mútuo do que está assumido, seja como país, seja com a comunidade internacional e com a carta das Nações Unidas.”

No seu primeiro 10 de junho enquanto Presidente da República, Seguro, eleito a 8 de fevereiro, lembrou que a sua chegada a Belém “foi marcada pelo desejo de unir os portugueses e unir Portugal. Mas unir o país não significa unanimidade artificial e indesejável, significa reconhecer que a pátria é um chão comum, e que nele há espaço e lugar para todos”.
No seu discurso em Angra do Heroísmo, António José Seguro dirigiu-se também aos emigrantes, dizendo-lhes: “onde quer que estejam, digo hoje, Portugal pensa em vós, Portugal precisa de vós, e Portugal estará sempre de braços abertos se e quando assim o decidirem”.
Sobre as condições de vida no país, e falando dos “jovens extraordinariamente qualificados, que aprenderam a ser competitivos no mercado global, que dominam línguas, que circulam entre culturas com uma naturalidade que as gerações anteriores não tinham”, considerou que o problema “nunca foi o talento”, mas que “esse talento parte para outros destinos, demasiadas vezes porque não encontra em Portugal as condições para crescer”
“O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração. A habitação é praticamente inacessível, e esgota qualquer orçamento familiar. Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação, e isso é inaceitável e temos de o alterar“.
Perante uma assistência que incluiu o primeiro-ministro e líderes dos partidos com assento na Assembleia da República, Seguro aludiu a “um tempo que nos pede coragem” de “fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo, de dizer a verdade mesmo quando é desconfortável, de se investir no futuro mesmo quando o presente aperta, de defender o interesse de longo prazo mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo”.
“A grande rutura está em curso”
Antes do discurso de António José Seguro, Miguel Monjardino, presidente da Comissão Organizadora das Comemorações e natural de Angra do Heroísmo, afirmou que “uma cortina de medo tem vindo a descer sobre Portugal” e atribuiu esse facto e “o pessimismo” à “consciência de que um longo ciclo histórico iniciado após o final da Segunda Guerra Mundial chegou ao fim nos últimos anos”.
“A desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos”, afirmou, afirmando que “temos aliados na Europa, Américas, Ásia, Oceânia, com quem partilhamos valores, interesses e memórias históricas”. Invocando Camões, referiu que “dependeremos primeiro de nós. Teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários. Uma nação livre não deve ter medo“.
"O futuro será, muito naturalmente, diferente. O mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado. A grande rutura está em curso, e estamos presentes, novamente, na criação de um novo ciclo histórico”
Perante a alteração no contexto global, há, considerou Monjardino, três tipos de respostas, designadamente a “invocação do poder da força para defender interesses e privilégios”.
No que poderá ser lido como síntese dos conflitos na Ucrânia, atacada pela Rússia em 2022, e no Irão, alvo dos ataques dos EUA e Israel a 28 de fevereiro último, Monjardino aludiu a que “os menos fortes podem não ter muitas cartas, mas os mais fortes também não têm todas as cartas e algumas vezes esquecem-se disto“. Por outro lado, afirmou Monjardino, “o multilateralismo só é possível e credível quando é capaz de se afirmar a outros poderes“. Num recado, afirmou que “só é possível impor ou manter o que é aceite por muitos”.
No seu terceiro ponto, o presidente da Comissão Organizadora das Comemorações apontou “a defesa de uma nova coligação de potências médias para proteger as partes mais importantes do sistema internacional“.
Monjardino considerou que “os Açores e a Madeira continuarão a fazer a ligação entre a Europa, as Américas e África. Precisamos de ter as pessoas e os recursos para garantir a soberania nacional no território português no Atlântico”, concluiu.
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