Volta só ‘capta’ 7% das embalagens aptas para reciclar
A gestora da SPV afirma ter "uma enorme expectativa" em relação à prestação da SDR Portugal, que espera que seja um "game changer" na relação do consumidor com a reciclagem.
A SDR Portugal, que gere o Sistema de Depósito e Reembolso conhecido por Volta e implementado este ano em Portugal, vai recolher até 7% das embalagens que, neste momento, passam pelas ‘mãos’ do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE), responsável pela recolha e tratamento de embalagens. O número é apontado pela Sociedade Ponto Verde, que afirma ter uma “grande expectativa” quanto aos resultados desta nova entidade.
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“As embalagens de bebidas que vão migrar para o sistema de depósito e reembolso, o sistema Volta, representam entre 5% a 7% das embalagens que o SIGRE todo gere“, indica a CEO da Sociedade Ponto Verde, em declarações ao ECO/Capital Verde. “Sendo relevante, é uma parte que eu posso considerar pequena do conjunto de todas as embalagens que nós gerimos de todos os materiais”, complementa. O Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens (SIGRE) continua “a ter muita tonelada de embalagem para gerir”.
A par da Sociedade Ponto Verde existem atualmente mais cinco entidades gestoras licenciadas em Portugal para a gestão de embalagens e resíduos de embalagens, que são a Novo Verde, Electrão, Valormed, Sigeru e SDR Portugal, de acordo com o site da Associação Portuguesa do Ambiente (APA).
A gestora da SPV afirma ter “uma enorme expectativa” em relação à prestação da SDR Portugal, que espera que seja um “game changer” na relação do consumidor com a reciclagem, ao implementar um sistema com base num incentivo económico — a Volta recolhe garrafas e latas com até três litros de capacidade, devolvendo os 10 cêntimos cobrados no ato de compra de cada vez que uma destas embalagens é devolvida.
“A minha expectativa é que seja um grande sucesso, como foi noutros países“, remata Ana Trigo Morais, ao mesmo tempo que afere que o sistema de recolha tem de mudar, a bem do cumprimento de metas de reciclagem, e o mais bem sucedido na Europa tem sido o SDR. Destaca ainda a “enorme virtude” de os materiais recolhidos desta forma terem uma “muito melhor valorização”.
À margem desta conversa com o ECO/Capital Verde, a SDR emitiu um comunicado nesta quarta-feira, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, em que destaca ter recolhido mais de 10 milhões de embalagens nos pontos Volta, que já superam os 2.500, desde a entrada em funcionamento do sistema. “10 de junho, 10 milhões de habitantes, 10 milhões de embalagens devolvidas: uma coincidência simbólica que assinala a adesão dos consumidores à ‘Volta’”, realça a associação sem fins lucrativos responsável pela implementação e gestão do sistema.
A SDR Portugal tem como meta recolher, até ao final de 2026, 40% das embalagens colocadas no mercado, depois de aliviar o objetivo de 70% que estava definido para o primeiro ano de operação. Em 2027 e 2028 espera-se que sejam recolhidas 80% e 90% das embalagens abrangidas pelo sistema. A recolha pelo fluxo normal da reciclagem tem ficado aquém das metas europeias: a taxa global de reciclagem deveria situar-se nos 65%, mas fixou-se em cerca de 60,2% em 2025.
Sobre se faria sentido que uma fatia maior das embalagens geridas pela SPV passassem para o âmbito da Volta, Ana Trigo Morais recusa. “Andamos a investir muito dinheiro há muitos anos, ainda temos um caminho para esgotar e para otimizar” os sistemas existentes, remata.
É preciso mais concorrência, incentivos e inovação
“O problema do setor dos resíduos é que há imensas deficiências operacionais na recolha, no serviço ao cidadão“, destaca Ana Trigo Morais. A responsável pela SPV indica que é necessário melhorar o serviço ao consumidor, com mais ecopontos, recolhas porta a porta e criar incentivos económicos ao consumidor para aumentar a reciclagem e fazer baixar a taxa de gestão de resíduos que é paga através da fatura da água.
Tendo em conta que as metas têm aumentado a respetiva exigência, a líder da Sociedade Ponto Verde tem vindo a criticar a falta de melhorias na fatia de embalagens recolhidas, depois de ter havido um aumento significativo do financiamento entregue para a recolha, através do chamado valor de contrapartida. Este valor é definido pelo Estado e pago pela Sociedade Ponto Verde (SPV) aos sistemas de gestão de resíduos urbanos (SGRU), para que estes sistemas multimunicipais ou intermunicipais façam a recolha das embalagens.
O SIGRE movimentou 212 milhões de euros em 2025, que foram entregues aos sistemas de recolha e tratamento, mais 90 milhões de euros do que no ano anterior. Em 2026, a previsão é que este valor suba para 241 milhões. No que diz respeito à recolha, até abril de 2026, a SPV regista um aumento de 2% nas toneladas recolhidas seletivamente, com os materiais aço, plástico e ECAL a evoluírem no sentido negativo. Questionados outros atores do setor, como o regulador, municípios e ambientalistas, estes defendem que a revisão em alta dos valores de contrapartida é justificada.

“O setor precisa de uma reforma profunda ao nível da recolha, precisa de concorrência, e concorrência é chamar outros operadores para virem complementar a operação que já existe neste momento no país“, defende Ana Trigo Morais. A CEO defende que os municípios sabem o que há para fazer, têm outras prioridades para gerir, pelo que apela a que mais atores sejam autorizados a recolher resíduos. Questionada se a própria SPV está interessada em introduzir-se na recolha, a gestora não exclui a hipótese: “Nós estamos interessados em discutir todos os modelos em que nós podemos contribuir para aumentar a meta de reciclagem”.
Em paralelo, a CEO da SPV realça que é necessária inovação das centrais de tratamento de resíduos: “Precisam de imensa inovação e imenso investimento. Temos tecnologia que não é alterada há 10 anos”. Na sua visão, a tecnologia existe e está madura, mas é preciso trazê-la ao terreno.
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