Acabou a pausa. BCE vai aumentar os juros e já olha para a próxima subida (em julho ou setembro)

Evitar o erro de 2022, tratar do presente com uma subida de 25 pontos, e do futuro com cautela. Com um olho no impacto da guerra, deverá ser esta a estratégia que o BCE vai mostrar esta quinta-feira.

ECO Fast
  • O Banco Central Europeu deverá aumentar as taxas de juro em 25 pontos base na reunião desta quinta-feira, segundo o consenso dos economistas.
  • Mais de 90% dos economistas consultados preveem uma subida da taxa de Facilidade Permanente de Depósito para 2,25%, refletindo a pressão inflacionária na Zona Euro.
  • As expectativas de novas subidas de taxas em julho ou setembro dependem da evolução do mercado e da inflação, gerando incertezas sobre o futuro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

“Qualquer decisão que não seja um aumento das taxas de juro na reunião do Conselho do BCE esta quinta-feira constituiria uma grande surpresa”. A frase de Carsten Brzeski, global head of macro no banco de investimento neerlandês ING, resume na perfeição o consenso entre investidores e economistas sobre o que o banco central liderado por Christine Lagarde vai decidir no encontro em Frankfurt: uma subida de 25 pontos base no custo do euro.

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Numa sondagem da agência Reuters divulgada a 3 de junho, mais de 90% dos economistas consultados, ou 74 em 80, apontam para uma subida da taxa de Facilidade Permanente de Depósito para 2,25% e as taxas de refinanciamento e de cedência de liquidez nos 2,40% e 2,65%, respetivamente.

Segundo o ECB Watch, uma ferramenta do BCE para divulgar as probabilidades implícitas no mercado relativamente às decisões sobre as taxas de juro, há certeza, uma chance de 100% de uma subida de 25 pontos base.

Depois de sete reuniões de pausa, incluindo as últimas duas com cautela devido à incerteza sobre os impactos da guerra do Médio Oriente, o BCE vai agir, no que os analistas do think tank Oxford Economics apelidam de “recalibração e não um ciclo de aperto monetário”.

“O Conselho deu a entender que um choque mais persistente nos preços da energia, num contexto de expectativas de inflação mais elevadas, pressões de custos generalizadas e agravamento dos estrangulamentos na oferta, exigirá algum aperto da política monetária para conter os riscos de inflação a médio prazo”, referiram.

Evitar o erro passado e olhar para o futuro

O histórico ainda poderá estar a assombrar os pensamentos dos membros do Conselho. “O BCE não quer cometer novamente o mesmo erro de subestimar a inflação“, afirmou Bas van Geffen, estratega macroeconómico sénior do Rabobank, referindo-se às críticas de que o banco central foi alvo em 2022 por ter reagido de forma tardia à espiral inflacionária provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. “O custo de manter as taxas inalteradas, em termos de credibilidade na luta contra a inflação, é provavelmente mais elevado nesta fase do que o risco de as aumentar”.

Deixando o passado para trás, e lidando com o presente via a ‘recalibração’ dos juros esta quinta-feira, o foco estará no futuro e nos sinais que a presidente do BCE poderá dar na conferência de imprensa ou através das novas projeções macroeconómicas do staff.

“A conferência de imprensa de Lagarde deverá, portanto, centrar-se principalmente nas especulações sobre quando e se será realizada uma nova subida das taxas de juro”, escreveram os analistas do britânico Lloyds Bank. “A menos que ocorram desenvolvimentos excecionalmente dramáticos a curto prazo no intervalo entre as reuniões, parece haver motivos para nos concentrarmos nas novas previsões trimestrais dos especialistas BCE“, referiram, apontando para uma nova subida em setembro.

Para Carsten Brzeski, do ING, “não é expectável que o BCE se comprometa antecipadamente com quaisquer medidas futuras a 11 de junho, mas que, em vez disso, saliente a abordagem de reunião a reunião“. Isto até porque não se esperam grandes alterações às projeções económicas face às divulgadas em março.

Embora a guerra no Médio Oriente tenha durado muito mais tempo do que qualquer um poderia ter previsto, as variáveis de mercado não evoluíram em consonância com o prolongamento do conflito, explicou Brzeski, recordando que os preços do petróleo, as taxas de câmbio e as taxas de rendibilidade das obrigações estão atualmente a ser negociados perto dos níveis registados em março.

“Consequentemente, não esperamos alterações significativas nas novas projeções macroeconómicas do BCE, mas prevemos que estas se mantenham próximas dos níveis de março“, adiantou. “Se houver alguma alteração, a previsão de inflação para este ano poderá ser revista ligeiramente em alta; o crescimento poderá ser revisto marginalmente em baixa e é improvável que o panorama para 2027 e anos seguintes se altere”.

Julho ou setembro?

Na provável ausência de muitos sinais claros por parte do BCE, os analistas divergem sobre o timing da próxima subida nas taxas de juro. Enquanto os do Lloyds olham para setembro, os do Oxford Economics acreditam que poderá acontecer já em julho.

“Mantemos a nossa previsão de duas subidas de taxas e consideramos que a segunda ocorrerá provavelmente em julho”, apontaram. “Na nossa previsão de base, um acordo permitirá que o tráfego pelo Estreito de Ormuz seja retomado no terceiro trimestre e tendo em conta a queda dos preços da energia, o fraco crescimento e a fraqueza dos mercados de trabalho, subidas de taxas em setembro ou mais tarde parecem improváveis”.

Na sondagem da Reuters, mais de 6 % dos economistas inquiridos, 49 em 80, previam um novo aumento das taxas este ano, provavelmente em setembro, o que está, em linhas gerais, em consonância com as expectativas do mercado. Quase um terço previa um ou nenhum aumento, enquanto apenas um pequeno número esperava três ou mais.

Segundo o ECB Watch, a probabilidade de uma nova subida de 25 pontos base em 23 de julho está neste momento em 37%, subindo para 54,7% para a reunião de 10 setembro.

O ‘código’ Trichet

Nesta conjuntura de incerteza, os analistas do Lloyds’ Bank oferecem uma espécie de cheat sheet, um código para tentar interpretar os sinais do BCE, recordando as mensagens de Jean-Claude Trichet, que foi presidente do banco central entre 2003 e 2011.

“Para quem tem idade suficiente para se lembrar, talvez seja útil recordar o mandato de Trichet como presidente do BCE”, escreveram. “Se ainda estivesse no cargo, a sua mensagem poderia muito bem consistir em falar de ‘vigilância’ na conferência de imprensa de junho, para indicar que se avizinha outro aumento das taxas, caso tudo corra conforme o previsto, e depois de ‘forte vigilância’ em julho, como forma de sugerir um aumento posteriormente, em setembro“.

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