NIO EL6: conforto premium e 490 cavalos de força

Luís Leitão,

Trocar um emblema alemão por um construtor que ainda tem de provar tudo na Europa custa 67 mil euros. Em troca recebemos um poço de potência e mordomias dignas da melhor classe executiva asiática.

Comprar um carro de 67 mil euros em Portugal é um ato que exige convicção. Convicção de que o produto vale o dinheiro, de que a marca vai continuar a existir quando a hora da revisão chegar, e de que os vizinhos não vão perguntar “isso é chinês, não é?”. O NIO EL6 obriga o comprador a responder afirmativamente às três perguntas, e é precisamente por isso que a viagem do ECO a Sesimbra, no início de junho, com a Serra da Arrábida a fazer o melhor que sabe, foi feita com as perguntas certas na bagageira.

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A NIO não é uma marca que apareceu da noite para o dia com um PowerPoint bonito e uma fábrica que ninguém visitou. Fundada em 2014 em Xangai, ficou conhecida em 2017 quando o seu hiper-carro EP9 pulverizou recordes de tempo em Nürburgring e mais tarde surgiu em Goodwood.

Desde então, a marca apostou nos SUV de luxo e desenvolveu uma proposta tecnológica invulgar: a troca de bateria em menos de cinco minutos nas chamadas Power Swap Stations, que conta já com mais de 100 milhões de trocas realizadas na China e cerca de 250 mil trocas feitas na Europa. O problema é que em Portugal essa rede não existe, e o ambicioso plano europeu da NIO esbarrou em custos operacionais que não estavam nos planos de negócios iniciais e em dívidas que tornaram a expansão muito mais lenta do que a marca prometia nos seus comunicados.

Linhas limpas, puxadores embutidos e um coeficiente aerodinâmico de 0,263 resumem a filosofia do NIO EL6. Com quase cinco metros de comprimento, o SUV impõe presença sem precisar de recorrer a adornos desnecessários.NIO

Quem comprar um EL6 por terras lusitanas carrega como toda a gente: num posto rápido de até 180 kW com o ciclo de 10 a 80% a completar-se em cerca de 40 minutos na versão Long Range de 100 kWh. A autonomia WLTP declarada é de 529 km para essa versão e de 406 km na versão base que carrega uma bateria de 75 kWh.

Por fora, o EL6 é um SUV que não precisa de gritar para ser notado. Com 4,85 metros de comprimento, quase dois metros de largura e 1,7 metros de altura, e uma distância entre eixos de 2,9 metros, o design é contido e europeu na leitura das formas, sem excessos estéticos que delatem a origem de imediato.

Os puxadores embutidos na carroçaria, que a Tesla popularizou neste tipo de abordagem aerodinâmica, conferem ao conjunto uma limpeza visual que concorrentes alemães nesta categoria ainda não ousaram adotar. O único elemento que quebra a harmonia é a unidade LiDAR no tejadilho: funcional, necessária para os sistemas de assistência à condução, mas que a certa luz matinal dá ao carro o ar de um táxi autónomo que saiu do aeroporto antes do previsto. O coeficiente de resistência aerodinâmica Cx de 0,263 confirma que a preocupação com a eficiência não foi apenas estética.

O interior é onde o EL6 assenta território sem hesitações. Pele vegana de qualidade, painel de instrumentos sólido com ecrã de 10,2 polegadas para o condutor e ecrã central vertical de 12,8 polegadas, bancos dianteiros e traseiros com ventilação e massagem, e uma funcionalidade que os concorrentes diretos ainda não integraram de série: o modo de viagem longa que permite ao passageiro reclinar o assento e apoiar os pés num suporte que emerge automaticamente da zona que deveria ser o porta-luvas. E aqui está a ironia: num carro de 67 mil euros com um suporte de pés automático para viagens longas, não há porta-luvas. A decisão deliberada da NIO de prescindir deste elemento é discutível em qualquer categoria de preço, mas num segmento premium irrita de uma forma desproporcional ao tamanho do compartimento que falta.

Quem compra um EL6 hoje está a apostar num produto sólido, mas também numa empresa que ainda tem de provar que estará cá quando a garantia for precisa.

A bagageira tem 579 litros declarados, a que acresce um piso amovível com compartimento adicional. Não há ‘frunk’, o que numa plataforma elétrica dedicada ainda parece uma oportunidade que ficou na gaveta. O peso em ordem de marcha da versão Long Range ronda os 2.341 kg, número que explica em parte os consumos e justifica a atenção da suspensão adaptativa de duplo braço oscilante a trabalhar.

Também não há Apple CarPlay nem Android Auto, opção deliberada da marca, que considera o seu sistema nativo suficiente. E o sistema é, de facto, capaz: resposta rápida, menus logicamente organizados, e compatibilidade com Bluetooth, Wi-Fi e um cartão SIM integrado para serviços de conectividade. Mas a ausência de integração com os dois ecossistemas mais usados no mundo é uma posição de força que pode revelar-se uma fraqueza comercial no mercado europeu, onde a maioria dos compradores neste segmento de preço está habituada a essa integração como dado adquirido.

No centro do tablier vive o NOMI, o assistente de voz da NIO numa forma arredondada que reage com animações ao que se diz. Em teoria, basta dizer “Hey NOMI” para ajustar temperatura, navegação ou música. Na prática, a sensibilidade ao comando de voz nem sempre é imediata, o que gera, ocasionalmente, uma conversa unilateral com um objeto redondo que parece estar propositadamente a ignorar o condutor. Quando funciona, é genuinamente útil. Quando não funciona, é genuinamente irritante.

Na estrada, entre a cidade e a Serra da Arrábida até Sesimbra, o EL6 comportou-se com a maturidade que o preço exige. Com 360 kW (489 cv) e 700 Nm de binário total distribuídos por dois motores elétricos em tração integral permanente, os 0-100 km/h em 4,5 segundos são realidade e não promessa comercial — com velocidade máxima limitada eletronicamente a 200 km/h.

A entrega de potência é linear e calibrada, sem o impulso nervoso de alguns rivais que parecem ter confundido SUV familiar com veículo de emergências. O isolamento acústico em modo Conforto é notável: a conversa dentro do carro faz-se a tom normal mesmo em autoestrada, e a suspensão adaptativa absorve o piso com eficácia.

A distância entre eixos de quase 2,92 metros traduz-se num espaço traseiro generoso — dois adultos altos instalam-se sem negociações — e o sistema de som premium de 23 altifalantes que equipa a versão Long Range transforma o habitáculo num auditório privado de qualidade convincente.

Por 67 mil euros na versão Standard Range, o EL6 entra numa discussão com o BMW iX3, o Mercedes GLC elétrico e o Volvo EX60. A NIO não é mais barata, mas o equipamento de série inclui o que nos concorrentes alemães são opções pagas: o teto panorâmico de correr, os bancos com massagem a quatro zonas, o sistema de som, a carga a 182 kW na versão Long Range.

O consumo WLTP declarado é de 20,1 kWh por 100 km na Standard Range, valor que em utilização real sobe para a casa dos 22 a 25 kWh, aceitável para um SUV de 2.300 kg com tração integral.

O que nenhum equipamento de série compensa é a dúvida legítima sobre a continuidade da NIO no mercado europeu a médio prazo: a rede de Power Swap Stations não avançou ao ritmo prometido, os custos operacionais mostraram-se mais pesados do que o plano de negócios antecipava, e as dívidas deixaram cicatrizes nos balanços europeus da marca.

Quem compra um EL6 hoje está a apostar num produto sólido, mas também numa empresa que ainda tem de provar que estará cá quando a garantia for precisa, e essa não é uma pergunta que 67 mil euros devessem deixar em aberto.

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