Tecnológica DE-CIX defende impostos consoante capacidade dos data centers

CEO considera que uniformizar taxas evitaria “desvantagens na Europa” e explica que a forma como os dados viajam pela infraestrutura da internet influencia toda a experiência de ver jogos do Mundial.

A tecnológica alemã DE-CIX considera que a Europa devia uniformizar mais as taxas que são cobradas aos centros de dados. O CEO da empresa especializada em pontos de troca de tráfego de internet, Ivo Ivanov, defende um modelo em que os impostos são atribuídos consoante a capacidade de energia e de armazenamento do espaço, até porque há países onde a taxa é cobrada numa geografia ou concelho e os recursos são consumidos noutros.

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“A uniformização servia para evitar desvantagens na Europa”, explicou Ivo Ivanov, durante um encontro com jornalistas na mais recente viagem de Colónia até Lisboa. Definir um padrão é especialmente importante quando determinadas zonas europeias, como a Península Ibérica, se vão desenvolvendo em termos de ligação a cabos submarinos, investimento em data centers e nuvens soberanas. “A Europa do Sul não já não é a borda da Europa, porque tem o seu próprio portal digital. Vemos uma grande concentração de capacidade e data centers e desenvolvimento de cloud soberana. A Península Ibérica agora é uma capital digital distribuída”, sublinhou.

O CEO da DE-CIX endereçou ainda as críticas que se multiplicam sobre o baixo número de empregos diretos criados pelos centros de dados que, cada vez mais frequentemente, vão abrindo portas no Velho Continente. “Há uma cadeia indireta, que envolve engenheiros, técnicos… Não vamos ver centenas de pessoas a passar nos corredores dos data centers, mas os políticos não entendem que há, de facto, criação de emprego. Depois, criam ainda mais trabalho nas zonas onde se inserem, que se desenvolvem com o data center”, realçou sobre o movimento que ocorreu em Sines.

A tecnológica que liga operadoras de rede (carriers) e fornecedores de serviços de Internet e redes corporativas garante que está atenta à evolução deste mercado e tem vindo a lançar serviços de interconexão que deem resposta às novas necessidades, nomeadamente um serviço de processadores para quando uma empresa quer utilizar diferentes data centers – por exemplo, dois no distrito de Lisboa e um em Sines – e pretende manter a latência entre todos nivelada (GPU as a service).

A infraestrutura não é um negócio de speed dating.

Ivo Ivanov

CEO da DE-CIX

No entanto, apesar dos “progressos significativos” que Portugal fez na conectividade de fibra de alta velocidade, ainda há um desafio por resolver na internet de casa e do escritório dos portugueses: a estabilidade. A partir de um estudo realizado pela Netsonda junto de 600 utilizadores, a DE-CIX concluiu que os internautas nacionais continuam a enfrentar problemas de latência (lag), bloqueios (freezes), paragens para carregamento (buffering) e curtas quebras de ligação, mesmo quando utilizam fibra ótica.

Quase um em cada cinco inquiridos (22%) sente atrasos na Internet pelo menos uma vez por semana. Entre os utilizadores com planos de internet de alta velocidade de 500 megabits por segundo (Mbps) ou mais, quase um em cada quatro (23%) regista interrupções como bloqueios, lag ou quebras de ligação pelo menos uma vez por semana.

Aliás, nos sete dias anteriores ao inquérito feito entre os dias 11 e 20 de maio, metade (51%) dos participantes deparou-se com páginas ou aplicações que demoravam demasiado tempo a carregar, enquanto 46% registou curtas quebras de ligação. Mais de um terço (36%) teve problemas com streaming de vídeo e 33% reportou bloqueio de vídeo ou áudio durante chamadas pessoais, de trabalho ou escolares.

Auditorias para evitar Mundial sem freeze no ecrã ou golos atrasados

Na semana em que arrancou o Campeonato do Mundo de Futebol 2026, o CEO da DE-CIX aproveitou para a ocasião para alertar para a importância de os adeptos — que não estão nos estádios do México, Estados Unidos e Canadá — terem uma verdadeira experiência de jogo em tempo (mesmo) real. Segundo Ivo Ivanov, mais do que ter uma internet rápida, importa o caminho que ela faz pelas redes. Se a rota for indireta, haverá influência no atraso dos golos ou remates que vê no ecrã.

“Eventos como o Mundial, que vão ocupar as próximas quase seis semanas, reúnem muita gente a ver os jogos por streamings ou VPN [rede privada]. Mas não é só a velocidade que interfere com a transmissão. Também o routing [o caminho que a internet faz] e a latência [tempo de resposta] interferem, ainda mais em jogos nos Estados Unidos. Não vais querer celebrar um golo 30 segundos a seguir ao teu vizinho”, afirmou o gestor búlgaro.

Ivo Ivanov deu como exemplo o caso paradigmático de quando a Netflix fez a transmissão em direto do combate de boxe entre Mike Tyson e Jake Paul, a 15 de novembro de 2024, e enfrentou problemas técnicos generalizados. Com mais de 65 milhões de pessoas ligadas, a emissão do evento desportivo sofreu de falhas e gerou uma onda de críticas, além de um processo no tribunal da Florida. “Na Netflix, o conteúdo on-demand funciona, mas para as emissões ao vivo é importante existir routing direto. Eles construíram infraestrutura para on-demand e não se preocuparam com as emissões ao vivo, o que traz danos reputacionais e comerciais”, referiu, em declarações à imprensa.

E quem tem culpa dos erros do congelamento do ecrã? Em Portugal, 39% dos utilizadores aponta o dedo aos prestadores de serviços de Internet (ISP) e 28% para o congestionamento geral da rede, de acordo com o relatório da Netsonda.

São situações como a que aconteceu na plataforma de streaming norte-americana do que levam o líder da DE-CIX a sugerir mais auditorias à latência, à semelhança das certificações que existiam para os pacotes de Internet. No fundo, os selos de qualidade que confirmavam que determinado pack tinha efetivamente 10 GB, como prometia. “O termo de zero falhas vai-se tornar muito comum nos próximos anos”, portanto, investir na telemetria da latência permite analisar os atrasos na ligação de dados entre dispositivos e redes e pode ser uma solução para as empresas que pretendem ganhar credibilidade perante clientes e patrocinadores, sugere Ivo Ivanov.

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