APREN alerta que Portugal pode perder investimento com atrasos no leilão eólico no mar

  • Lusa
  • 15 Junho 2026

Energia eólica assegura 25,4% do consumo em 2025, mas metas exigem resposta célere, alerta ainda a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN).

Portugal pode perder investimento para outros mercados se continuar a adiar decisões sobre eólica no mar (‘offshore’), alertou a APREN no âmbito da divulgação de um estudo sobre parques eólicos.

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Em declarações à Lusa, a propósito do relatório “Parques Eólicos em Portugal”, divulgado no Dia Mundial do Vento, a coordenadora de Políticas e Inteligência de Mercado da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), Susana Serôdio, disse que continua a existir interesse dos promotores na eólica no mar.

O relatório, elaborado pelo INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial – em parceria com a APREN, aponta para uma produção eólica de 13,5 terawatts-hora (TWh) em 2025, equivalente a 25,4% do consumo de eletricidade em Portugal continental.

Questionada sobre o leilão para a eólica ‘offshore’, que tem sofrido atrasos, Susana Serôdio afirmou que continua a haver “bastante contacto com algumas empresas que manifestaram logo interesse desde o início”, mas admitiu que os primeiros projetos só deverão surgir depois de 2030, mesmo que o processo avance rapidamente.

“Se as coisas fossem agilizadas e se entretanto [houvesse] o procedimento e um calendário, provavelmente […] só iríamos ver os primeiros projetos depois de 2030”, afirmou, apontando para o “início de 2030, 2031, 2032”.

Para Susana Serôdio, o atraso no lançamento do leilão pode fazer Portugal perder uma janela de oportunidade, numa altura em que outros mercados se estão a posicionar.

“Ao atrasarmos esta decisão, enquanto outros mercados se posicionam, podemos estar a perder investimento que poderia vir para os projetos nacionais e que vão acabar por ir para outros, bem como alguma cadeia de valor ligada à eólica ‘offshore'”, afirmou.

Segundo a responsável, Espanha tem conseguido posicionar-se mais rapidamente, o que pode condicionar a capacidade de Portugal atrair projetos e investimento no mercado ibérico. “O que estamos a ver […] é que, efetivamente, Espanha está a conseguir sempre dar um passo à frente do nosso”, disse.

A APREN defende ainda que Portugal deve olhar para modelos usados noutros mercados europeus para viabilizar novos projetos eólicos, como contratos de aquisição de energia diretamente com consumidores, os chamados PPA, e contratos por diferenças, ou CfD. “Olhando para a Alemanha e para outros mercados, estão com uma aposta muito grande efetivamente nos CfD tanto para projetos novos como para projetos de reequipamento”, afirmou.

No caso dos PPA, a responsável apontou Espanha como exemplo, referindo que o país “apostou muito” neste tipo de contratos e tem instalado “à volta de um gigawatt por ano” nos últimos três anos.

Em Portugal, o principal obstáculo aos PPA é o tecido empresarial, composto sobretudo por pequenas e médias empresas, cujas condições financeiras nem sempre dão estabilidade suficiente para tornar os projetos financiáveis, explicou.

“Aqui temos discutido muito com o Governo que seria necessário alguma garantia sobre estes PPA, que se acontecesse alguma coisa àquela empresa havia aqui alguma segurança até se encontrar outro consumidor”, disse.

Energia eólica assegura 25,4% do consumo em 2025, mas metas exigem resposta célere

A energia eólica assegurou 25,4% do consumo de eletricidade em Portugal continental em 2025, mas as metas definidas para 2030 exigem maior ambição e aceleração de novos projetos.

O relatório “Parques Eólicos em Portugal”, elaborado pelo INEGI – Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial – em parceria com a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), aponta para uma produção eólica de 13,5 terawatts-hora (TWh), face a um consumo total de eletricidade de 53,1 TWh em Portugal continental.

Tendo em conta que o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030) prevê uma capacidade geradora de 10,4 gigawatts (GW) de eólica em terra (‘onshore’) e a concretização de 2 GW de eólica no mar (‘offshore’) até 2030, o estudo considera que este conjunto de metas é “muito ambicioso e exigente”.

Nesse sentido, defende que a sua concretização depende de uma “estreita colaboração entre os agentes públicos e privados”, que permita acelerar o desenvolvimento de novos projetos.

Em declarações à Lusa, a coordenadora de Políticas e Inteligência de Mercado da APREN, Susana Serôdio, afirmou que “efetivamente nos últimos anos tem havido aqui uma estagnação da energia eólica” e que esta fonte “não tem acompanhado o que seria expectável face ao que está no PNEC2030”.

“O primeiro [fator], claramente, é a questão do licenciamento e a falta de visibilidade de prazos, dificuldades em algumas áreas de avaliação de impacto ambiental, mas também claramente questões das condições do mercado atual e também de rede”, disse.

De acordo com o mesmo estudo, após um período de crescimento, 2025 evidenciou uma “nova estagnação da capacidade adicional instalada em Portugal”.

Em 2025, encontravam-se mapeados 446,8 megawatts (MW) de potência em fase de construção, dos quais cerca de 80% correspondem a novos projetos, incluindo os parques de Tâmega Norte, com 194,4 MW, e Tâmega Sul, com 79,2 MW.

A maioria destes novos projetos está, contudo, associada a hibridizações, isto é, à combinação de um projeto eólico com outro projeto renovável já existente, como hídrico ou solar, aproveitando pontos de rede já disponíveis.

Os projetos de reequipamento (‘repowering’), que consistem na substituição ou modernização de equipamentos existentes por outros mais eficientes, representam 14% da potência em construção, enquanto os restantes 6% dizem respeito a sobreequipamento, ou seja, à instalação de uma potência de geração superior à capacidade de injeção.

Com 6 GW de capacidade instalada acumulada, Portugal mantém-se no ‘top 10’ europeu da capacidade eólica, num ranking liderado pela Alemanha, com 77,7 GW, e por Espanha, com 33,2 GW.

Em termos geográficos, Viseu mantém-se como o distrito com maior potência eólica instalada em território nacional, com 1.231,1 MW ligados à rede, seguido de Coimbra, com 745,7 MW, Vila Real, com 696,3 MW, e Guarda, com 653,2 MW. Évora continua a ser o único distrito de Portugal continental sem qualquer aerogerador instalado. As regiões autónomas concentram um total de 106,4 MW operacionais, repartidos entre 63,8 MW na Madeira e 42,6 MW nos Açores.

Questionada sobre o crescimento futuro em terra, Susana Serôdio defendeu que “o futuro passa pelo reequipamento”, mas ressalvou que “existe, efetivamente, ainda margem para crescer em terra”.

A responsável acrescentou que a hibridização com solar está a ganhar relevância, devido à queda dos preços nas horas de maior produção fotovoltaica. “À hora de produção solar, efetivamente, os preços são muito baixos e a rentabilidade dos projetos começa a ser muito pequena. E, se hibridizarem com o eólico, geram aqui outro potencial ao projeto”, afirmou.

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