“Liguem os motores”. Mercados antecipam abertura de Ormuz com petróleo a aliviar e ações a acelerar
Donald Trump pediu que se deixe "fluir o petróleo" com o acordo com Irão e os mercados financeiros reagem em conformidade. Brent desce 5% e ações europeias atingem novo recorde.
“Esta manhã, os mercados estão em ebulição, pois, após 107 dias e uma série aparentemente interminável de falsas esperanças, temos finalmente um acordo entre os EUA e o Irão para pôr fim à guerra e reabrir o Estreito de Ormuz”, escreveu Jim Reid, global head of macro research and thematic strategy no Deutsche Bank, no seu relatório matinal, resumindo os acontecimentos de domingo à noite e segunda de manhã.
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O presidente americano, Donald Trump, anunciou no domingo um acordo com o Irão, focando principalmente na reabertura do Estreito de Ormuz. Teerão confirmou o acordo o fim imediato e definitivo da guerra e das operações militares em várias frentes, incluindo o Líbano. Na prática, o memorando de entendimento prolonga o cessar-fogo e as negociações para um acordo permanente por 60 dias. Período em que as duas partes tentarão, com a mediação do Paquistão, resolver uma das principais questões: a capacidade nuclear do Irão.
O acordo vai ser assinado na sexta-feira, data na qual o crucial Estreito irá reabrir após desminagem — e o conteúdo também vai ser divulgado nessa altura. Portanto, persistem várias dúvidas – principalmente sobre o que foi acordado em termos das ambições nucleares de Teerão e sobre como o canal marítimo por onde passava cerca de 20% do comércio global de petróleo antes do conflito irá ser gerido.
“Os pontos principais são a confirmação do cessar-fogo, a navegação segura através do Estreito de Ormuz e o alívio das sanções contra o Irão”, referiu Norbert Rücker, head economics and next generation research no banco privado suíco Julius Baer. “Em resumo: muitas ‘cenouras’ depois de as punições se terem revelado menos eficazes do que o esperado”, sublinhou, notando contudo que “é claro que, como ficou mais uma vez demonstrado este fim de semana, este caminho diplomático não agrada a todos na região e é provável que haja percalços pelo caminho”.
Antes disso, contudo, a reação imediata dos investidores e analistas foi positiva, apesar de alguma cautela. “A notícia do acordo entre os EUA e o Irão, como era de esperar, animou o ânimo dos mercados”, escreveram os analistas do banco britânico Lloyds, numa nota aos clientes.
Crude em mínimos de três meses
Os preços do petróleo desceram para o nível mais baixo dos últimos três meses. Os futuros do petróleo Brent – referência para a Europa – descem 5,07% para 82,67 euros, enquanto o de West Texas Intermediate dos EUA, recuam para 80,16 dólares, uma descida 5,55%. Ambos os contratos caíram para os níveis mais baixos desde 10 de março na segunda-feira, após terem registado uma queda superior a 3% na sexta-feira.
Trump afirmou no domingo que o Estreito de Ormuz ficaria aberto “sem portagem” e que o bloqueio naval norte-americano aos portos iranianos também terminaria, enquanto a agência de notícias semi-oficial iraniana Mehr afirmou que o projeto de acordo previa a reabertura do Estreito de Ormuz no prazo de 30 dias, ao abrigo de disposições iranianas.
No entanto, já esta manhã, segundo avançou a agência de notícias semi-oficial iraniana Fars, o Irão diz que foi acrescentada uma cláusula de última hora às negociações com os EUA, estipulando a imposição de taxas pelos serviços marítimos no estratégico estreito de Ormuz.
“Nos momentos finais das negociações, o texto do memorando de entendimento foi alterado, destacando de forma clara e explícita a questão da soberania iraniana-omani sobre o estreito de Ormuz”, refere a Fars, citando uma fonte anónima. “A utilização do termo ‘serviços marítimos’ na versão final significa que os EUA vão exigir o pagamento de taxas ao Irão”, esclareceu a agência.
Em qualquer caso, “levará tempo até que o petróleo se aproxime do nível pré-crise de 20 milhões de barris por dia a passar por este ponto de estrangulamento e as estimativas para o reinício total do tráfego variam entre semanas e meses”, afirma Tamas Varga, analista da PVM Oil Associates, citado pela Reuters.
“Os investidores financeiros estão, portanto, apenas a antecipar o abastecimento físico futuro, daí a atual descida dos preços do petróleo. A lenta retoma poderá resultar num défice de abastecimento ao longo de 2026″, explica ainda.
Na Europa, Stoxx 600 recupera perdas do conflito
Nos mercados acionistas asiáticos, os principais índices reagiram em forte alta, com o japonês Nikkei a ganhar, o sul-coreano KOSPI a avançar 5,4% e as blue chips chinesas a valorizaram 1,4%.
O sentimento alastrou-se à Europa, onde o índice STOXX 600 abriu a segunda-feira a ganhar 1,2% para um nível recorde, com a maioria dos setores em alta. Com essa subida registadas na segunda-feira, o índice de referência recuperou todas as perdas relacionadas com o conflito, enquanto o índice de volatilidade Euro STOXX atingiu o seu nível mais baixo desde o início do conflito, no final de fevereiro.
Desde março que as ações europeias têm apresentado, em geral, um desempenho inferior ao das suas congéneres nos EUA e na Ásia, em grande parte devido à dependência do continente do Estreito de Ormuz para o abastecimento de petróleo essencial e à sua menor exposição a ações do setor da tecnologia de inteligência artificial.
“Se o fluxo de petróleo voltar realmente a fluir de forma sustentável, isso dará um verdadeiro impulso aos mercados europeus”, afirmou Chris Beauchamp, analista-chefe de mercados do IG Group.
Os futuros dos principais índices de Wall Street também apontam para uma subida, com os do Dow a avançarem 0,94%, os S&P 500 1,29% e os do tecnológico Nasdaq 2,2% — este último ainda animado pela estreia estelar da SpaceX de Elon Musk na sexta-feira.
“Se as notícias da noite passada sobre um acordo entre os EUA e o Irão se revelarem credíveis e duradouras, isto deverá ser considerado positivo, enquanto os contratempos provavelmente serão vistos como menos negativos pelos ativos de risco”, afirmou Max Kettner, estratega-chefe de múltiplos ativos da HSBC Global Investment Research, à Reuters.
Ouro ganha 2,7%
Os preços do ouro sobem para o nível mais alto em quase uma semana, com o preço spot a ganhar 2,7% para 334,48 dólares por onça. Os preços têm estado sob pressão desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, no final de fevereiro, uma vez que o aumento da inflação impulsionado pelo petróleo reforçou as expectativas de taxas de juro mais elevadas por mais tempo.
Embora o ouro seja normalmente visto como uma proteção contra a inflação, perde o seu apelo num contexto de taxas de juro elevadas, uma vez que aumenta o custo de oportunidade de deter um ativo que não gera rendimento.
“Os participantes no mercado estão a descontar os aumentos das taxas de juro devido aos preços mais baixos do petróleo, o que está a impulsionar o metal amarelo», afirmou o analista do UBS Giovanni Staunovo. “A curto prazo, espero alguma consolidação, até obtermos alguma clareza da Fed no final desta semana”:
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