BRANDS' ECO Pedro Antão Alves: “A energia passa a ser um ativo de competitividade”
O CEO da Cleanwatts defende que o futuro do setor passa pela aposta na produção local, nas comunidades de energia e no armazenamento. É preciso, diz, produzir energia "de forma mais eficiente".
Durante décadas, a energia foi sobretudo vista como um custo a gerir e uma fatura a pagar. Para Pedro Antão Alves, CEO da Cleanwatts, essa lógica está a mudar. O autoconsumo e as comunidades de energia estão a transformar empresas, municípios e cidadãos em participantes mais ativos do sistema energético, numa transição que já não se resume a produzir energia limpa, mas a produzir e gerir energia “de forma mais eficiente, próxima e alinhada com as necessidades reais da economia”.
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O autoconsumo e as comunidades de energia têm ganho peso neste esforço conjunto rumo à transição energética. Esta é uma mudança estrutural na forma como empresas e consumidores se relacionam com a energia?
Sim, é uma mudança estrutural. Durante décadas, a energia foi vista, quase exclusivamente, como algo que se comprava a partir de um sistema centralizado, distante do consumidor e com pouca margem de intervenção por parte das empresas, dos municípios ou dos cidadãos. O autoconsumo e as comunidades de energia alteram essa lógica, pois permitem que quem consome possa também produzir, partilhar e gerir energia de forma mais ativa.
Mais do que uma solução tecnológica, estamos perante uma nova forma de organizar a energia: mais local, mais colaborativa e mais resiliente
Esta evolução transforma o consumidor num participante do sistema energético. No caso das empresas, isso significa passar de uma postura reativa, perante a fatura energética, para uma abordagem estratégica, em que a energia passa a ser um ativo de competitividade, sustentabilidade e gestão de risco. Para os consumidores e comunidades locais, significa maior proximidade, maior transparência e maior participação nos benefícios da transição energética.
Mais do que uma solução tecnológica, estamos perante uma nova forma de organizar a energia: mais local, mais colaborativa e mais resiliente.
Num contexto de preços voláteis e maior preocupação com a segurança energética, que vantagens pode trazer a produção local de energia renovável para as empresas e para a economia?
A produção local de energia renovável traz uma vantagem muito clara: reduz a exposição à volatilidade dos mercados energéticos. Quando uma empresa consegue produzir uma parte relevante da energia que consome, ou beneficiar de energia produzida na sua proximidade, ganha maior previsibilidade de custos e reduz a dependência de fatores externos que não controla.
Num contexto empresarial, essa previsibilidade é essencial. A energia tem um peso significativo em muitos negócios e a instabilidade dos preços pode afetar margens, investimento e planeamento. As soluções locais de energia renovável permitem às empresas antecipar os custos, reforçar a competitividade e acelerar os objetivos de descarbonização.
Para a economia, o impacto também é relevante. A produção descentralizada reduz perdas na rede, valoriza recursos locais, cria atividade económica nos territórios e contribui para uma maior segurança energética. Ou seja, não se trata apenas de produzir energia limpa. Trata-se de produzir energia de forma mais eficiente, próxima e alinhada com as necessidades reais da economia.
A Cleanwatts tem trabalhado em soluções descentralizadas de produção de energia. O modelo energético português continua demasiado centralizado ou já estamos a assistir a uma democratização da produção energética?
Portugal tem feito progressos importantes, mas o sistema energético continua ainda muito marcado por uma lógica centralizada. A boa notícia é que já estamos, claramente, a assistir ao início de uma democratização da produção energética.
O autoconsumo e as comunidades de energia representam uma descentralização não apenas da produção, mas também dos benefícios económicos e ambientais associados à energia
O que está a mudar é o papel dos diferentes agentes. Empresas, autarquias, instituições e cidadãos começam a perceber que podem participar diretamente na transição energética, seja através do autoconsumo individual, do autoconsumo coletivo ou de comunidades de energia. Isto representa uma descentralização não apenas da produção, mas também dos benefícios económicos e ambientais associados à energia.
Na Cleanwatts, acreditamos que esta democratização é essencial para acelerar a transição. A energia renovável tem de chegar de forma prática e acessível a quem dela pode beneficiar: empresas, famílias, municípios e comunidades locais. Para isso, é preciso combinar tecnologia, financiamento, gestão operacional e conhecimento regulatório. Só assim a produção descentralizada deixa de ser uma intenção e passa a ser uma realidade escalável.
A descarbonização da economia europeia é frequentemente apresentada como um desafio industrial. É possível reduzir emissões sem comprometer competitividade, investimento e previsibilidade de custos energéticos?
Não só é possível, como é indispensável. A descarbonização não deve ser vista como um custo adicional imposto às empresas, mas como uma oportunidade para modernizar a economia, reduzir dependências e aumentar a competitividade.
A chave está em desenhar modelos que permitam às empresas reduzir emissões ao mesmo tempo que ganham previsibilidade e eficiência. A energia renovável descentralizada, em particular, pode desempenhar um papel decisivo porque aproxima a produção do consumo e permite às empresas aceder a energia limpa com maior estabilidade de custos.
Naturalmente, a transição exige investimento e planeamento. Mas o risco de não agir é muito maior: maior exposição à volatilidade energética, maior pressão regulatória, perda de competitividade e maior dificuldade em responder às exigências de clientes, investidores e cadeias de valor. A descarbonização bem executada é uma estratégia industrial, não apenas ambiental.
As baterias e o armazenamento de energia são muitas vezes apontados como a próxima grande etapa da transição energética. Que papel vão ter na consolidação do autoconsumo e das comunidades de energia?
As baterias vão ter um papel determinante. O autoconsumo e as comunidades de energia já permitem produzir e partilhar energia renovável localmente, mas o armazenamento acrescenta uma nova dimensão: a capacidade de gerir melhor quando essa energia é utilizada.
A produção solar, por exemplo, nem sempre coincide com os momentos de maior consumo. Com o armazenamento, é possível aumentar o aproveitamento da energia produzida localmente, reduzir desperdícios, otimizar fluxos de energia e aliviar pressão sobre a rede. Isto torna os projetos mais eficientes e aumenta o valor económico da energia renovável.
Nas comunidades de energia, as baterias podem funcionar como um elemento de flexibilidade coletiva. Permitem equilibrar produção e consumo entre diferentes participantes, melhorar a resiliência local e criar modelos mais sofisticados de gestão energética. A próxima fase da transição não será apenas produzir mais energia renovável; será gerir melhor essa energia.
O setor fala frequentemente do “trilema energético” do custo, segurança e resiliência. As soluções descentralizadas conseguem responder a estes três desafios ao mesmo tempo?
Sim, e essa é, precisamente, uma das suas maiores vantagens. As soluções descentralizadas conseguem atuar simultaneamente sobre custo, segurança e resiliência.
Do ponto de vista do custo, permitem reduzir a exposição a preços voláteis e melhorar a previsibilidade da fatura energética. Do ponto de vista da segurança, diminuem a dependência de energia produzida longe dos centros de consumo ou de mercados externos. E, do ponto de vista da resiliência, tornam o sistema mais distribuído, mais flexível e menos vulnerável a falhas concentradas.
Naturalmente, as soluções descentralizadas não substituem a necessidade de uma rede elétrica robusta e de um sistema energético bem planeado. Pelo contrário, complementam-no. O futuro será feito de uma combinação entre produção centralizada, produção distribuída, armazenamento, flexibilidade e gestão digital. O valor está em integrar todas estas dimensões de forma inteligente.
Portugal definiu metas ambiciosas no Plano Nacional de Energia e Clima 2030. O enquadramento regulatório atual está preparado para acelerar a produção descentralizada e as comunidades de energia?
Portugal tem, hoje, um enquadramento regulatório que reconhece o papel do autoconsumo e das comunidades de energia, o que é um passo muito importante. As metas do PNEC 2030 são ambiciosas e confirmam que a transição energética é uma prioridade nacional.
Mas reconhecer o modelo não chega. Para acelerar verdadeiramente a produção descentralizada, é necessário simplificar processos, reduzir tempos de licenciamento, clarificar procedimentos e garantir maior previsibilidade para promotores, empresas e comunidades. A regulação deve acompanhar a inovação e criar condições para que bons projetos possam avançar com rapidez e segurança.
A energia deixará de ser vista apenas como uma commodity e passará a ser entendida como uma infraestrutura estratégica de competitividade, sustentabilidade e autonomia
O potencial existe, a procura existe e a tecnologia existe. O desafio está em transformar esse potencial em projetos concretos, escaláveis e acessíveis. Se conseguirmos alinhar ambição política, estabilidade regulatória e capacidade de execução, Portugal pode ser uma referência europeia nas comunidades de energia e na produção descentralizada.
Quando olha para os próximos dez anos, como é que imagina o sistema energético português?
Imagino um sistema energético mais renovável, mais digital, mais descentralizado e mais próximo das pessoas e das empresas. A rede elétrica continuará a ser essencial, mas será cada vez mais complementada por milhares de pontos de produção distribuída, por comunidades de energia, por sistemas de armazenamento e por plataformas digitais capazes de gerir recursos energéticos em tempo real.
Nos próximos dez anos, acredito que a energia deixará de ser vista apenas como uma commodity e passará a ser entendida como uma infraestrutura estratégica de competitividade, sustentabilidade e autonomia. As empresas vão integrar cada vez mais a energia nas suas decisões de investimento. Os municípios terão um papel mais ativo na gestão energética local. E os consumidores serão participantes mais informados e envolvidos.
Portugal tem condições muito fortes para liderar esta transformação: bons recursos renováveis, conhecimento tecnológico, experiência acumulada e metas ambiciosas. O que precisamos agora é de escala, rapidez e capacidade de execução. O futuro do sistema energético português será mais distribuído, mais inteligente e mais colaborativo.
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