Portugal tem o 3.º menor investimento público da Zona Euro. Banco de Portugal alerta para impacto na capacidade produtiva
Governador do Banco de Portugal recordou que, no passado, o peso do investimento público era "muito mais importante" na economia portuguesa e advertiu para a redução do stock de capital.
O peso do investimento público em Portugal tem diminuído na última década e meia, com o país a registar o terceiro menor rácio da Zona Euro no ano passado. Um cenário para o qual o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, alertou esta segunda-feira, destacando que se reflete numa deterioração dos níveis de stock de capital.
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“O investimento público costumava ser muito mais importante para a nossa economia, quer ao nível da despesa total, que chegou a ser 13,1%, quer ao nível do PIB, que chegou a estar perto de 6%. Com a crise em Portugal, uma parte significativa da consolidação orçamental aconteceu através da redução do investimento público. Tem havido uma ténue recuperação, mas continua a estar em níveis muito mais baixos do que era tradicional na economia portuguesa“, advertiu Álvaro Santos Pereira em declarações aos jornalistas, durante a apresentação do “Boletim Económico de junho”.
No documento apresentado esta segunda-feira, o Banco de Portugal destaca que, na última década e meia, o peso do investimento público no PIB diminuiu em Portugal, à semelhança do observado em vários países da Zona Euro. “Durante a crise das dívidas soberanas, a redução do investimento público acentuou-se, atingindo um mínimo de 1,6% do PIB em 2016”, recorda o banco central.
Porém, a partir de 2016 observou-se uma recuperação “muito gradual”, impulsionada mais recentemente pela execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Assumindo uma execução completa do PRR, a instituição liderada por Santos Pereira prevê que o investimento público atinja 3,6% do PIB e 7,9% da despesa total em 2026, reduzindo-se ligeiramente no restante horizonte de projeção.

O Banco de Portugal alertou ainda que, em 2025, Portugal apresentava o terceiro menor rácio de investimento público no PIB entre os países da Zona Euro e uma das maiores reduções face à média da década de 2000. Ainda assim, dá nota de que as comparações internacionais dos níveis de investimento público “devem ser interpretadas com cautela”, uma vez que podem incluir diferenças na delimitação do perímetro das Administrações Públicas.
A análise do regulador bancário concluiu ainda que o peso da saúde em Portugal é superior ao observado na Zona Euro, enquanto o da educação e dos assuntos económicos é inferior.
Ainda assim, o nível do investimento público em percentagem do PIB permanece abaixo dos observados antes da crise das dívidas soberanas. “A consequência é que tem havido uma diminuição bastante significativo do stock de capital público“, sintetizou o governador, destacando as consequências negativas para a capacidade produtiva da economia no médio e longo prazo.
Neste sentido, o Banco de Portugal destaca que “a inversão da tendência descendente do stock de capital público em percentagem do PIB exige um aumento pronunciado do investimento público“. Para ilustrar o esforço necessário, apresenta dois cenários alternativos.
No primeiro cenário, no qual o investimento público evolui em linha com a projeção apresentada no boletim até 2028 (marcado por um crescimento forte em 2026 e uma quebra em 2027), estabilizando em 3% do PIB em 2029–35, o stock de capital permaneceria estável em torno de 42% do PIB. O segundo cenário assume que o investimento público aumenta para 4% do PIB (próximo do nível da Zona Euro) em 2026–35, a trajetória de redução do stock seria revertida, mas o nível não ultrapassaria os 50% do PIB em 2035.
“Este cenário implica um crescimento médio do investimento público nominal de 6,6% ao ano, ao longo dos dez anos (3,6%, em média, no Cenário 1), o que compara com uma taxa de variação média em torno de 3% entre 1995 e 2025, e uma variação nula (-0,2%) entre 2010–25”, detalha.
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