Taxa de poupança das famílias resiste à inflação e permanece acima da média até 2028, prevê BdP
As famílias vão continuar a poupar mais do que o habitual nos próximos dois anos, segundo o banco central. A incerteza geopolítica e as taxas de juro elevadas travam o consumo de outros tempos.
- Em 2026, a inflação vai pressionar as famílias a gastar mais, mas não o suficiente para travar o ciclo de poupança elevada que se estende até ao final de 2028.
- O Banco de Portugal admite não conseguir distinguir se as famílias estão simplesmente a adiar o consumo ou se mudaram definitivamente os seus hábitos financeiros.
- Juros altos, instabilidade geopolítica e receio do futuro mantêm a poupança das famílias em máximos históricos, num equilíbrio que o banco central vê durar até 2028.
A poupança das famílias vai manter-se em níveis acima da média histórica até 2028. É esta a previsão do Banco de Portugal, que no Boletim Económico de junho, publicado esta segunda-feira, identifica dois fatores principais por detrás dessa tendência: as taxas de juro mais elevadas e a incerteza geopolítica, “que induz maior aforro por motivo de precaução”.
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Ainda que o banco central antecipe uma ligeira descida da taxa de poupança este ano face aos 12,13% de 2025, “refletindo algum alisamento do consumo face ao choque sobre o poder de compra” provocado pela subida da inflação associada ao conflito no Médio Oriente, essa correção deverá ser limitada, insuficiente para devolver a poupança das famílias aos níveis anteriores à pandemia.
Para perceber como se chegou aqui, o Banco de Portugal construiu um modelo econométrico que cobre os últimos 25 anos, de 1999 ao final de 2025, com quatro determinantes centrais: o rendimento disponível, a riqueza financeira líquida, as taxas de juro reais e a confiança dos consumidores.
Os choques sucessivos dos últimos anos — pandemia, inflação, guerra — “poderão ter induzido efeitos persistentes sobre o comportamento das famílias, em particular conduzindo a maior poupança por motivos de precaução”, refere o Banco de Portugal.
Os resultados revelam um percurso em quatro fases distintas:
- No período pré-pandemia, entre 2014 e 2019, o consumo cresceu em média 2,4% ao ano, sustentado por rendimentos em alta, confiança elevada e maior riqueza financeira, com a taxa de poupança a rondar os 7%.
- A pandemia inverteu tudo: o consumo colapsou por força das restrições — não por falta de rendimento, que foi protegido por medidas orçamentais –, e a poupança disparou para uma média de 11,5%.
- Em 2022 e 2023, as famílias “desaforraram”: com a reabertura da economia, o consumo cresceu acima do rendimento, a poupança caiu para cerca de 8%, e as taxas de juro reais negativas, num contexto de inflação galopante, incentivaram ainda mais os gastos.
- Nos últimos dois anos, no entanto, a equação mudou: o rendimento disponível cresceu a um ritmo historicamente elevado, mas o consumo ficou aquém desse crescimento, e a poupança voltou a subir.

O banco central liderado por Álvaro Santos Pereira admite que “é difícil distinguir, com base no exercício empírico, entre um ajustamento ainda incompleto do consumo ao aumento do rendimento e alterações mais estruturais do comportamento das famílias conducentes a uma maior propensão à poupança”.
Ainda assim, aponta razões concretas para esta tendência, como é o caso das medidas fiscais de 2024 e 2025 em sede de IRS, que beneficiaram proporcionalmente mais os agregados de rendimento mais elevado (que poupam mais do que gastam), e o forte crescimento de outros rendimentos (dividendos, rendas e juros), que também se concentrou nesses mesmos grupos, atenuando a transmissão ao consumo.
Acresce a esta análise que o modelo econométrico usado pelos técnicos do Banco de Portugal pode não captar integralmente o impacto da transição para um regime de taxas de juro mais elevadas, depois de um longo período em que as taxas foram próximas de zero.
As condições financeiras e o clima de incerteza continuam a travar uma descida mais expressiva da poupança das famílias, refere o Banco de Portugal.
A estes fatores juntam-se tendências de fundo que o Banco de Portugal coloca igualmente em cima da mesa, como o facto de o envelhecimento da população alterar os padrões de poupança das famílias ao longo do tempo, à medida que os agregados acumulam ativos para a reforma.
Entre as gerações mais jovens, a literatura internacional tem documentado uma maior propensão a poupar associada à necessidade de financiar a compra de casa num contexto de preços elevados. E os choques sucessivos dos últimos anos — pandemia, inflação, guerra — “poderão ter induzido efeitos persistentes sobre o comportamento das famílias, em particular conduzindo a maior poupança por motivos de precaução”.
A magnitude e a persistência destes efeitos são, reconhece o banco central, difíceis de quantificar. O fenómeno não é, aliás, exclusivamente português: a mesma evolução observou-se “na generalidade dos países da área do euro, embora a taxa de poupança em Portugal seja historicamente inferior à da área do euro”.
É neste quadro que assentam as projeções para 2026–28. Mesmo com as famílias a gastar mais para defender o nível de vida face a uma inflação mais elevada — o banco central projeta agora uma subida do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) para 3,1% em 2026 –, as condições financeiras e o clima de incerteza continuam a travar uma descida mais expressiva da poupança: as taxas de juro mais elevadas encarecem o crédito e reforçam o incentivo a acumular liquidez; a instabilidade geopolítica alimenta a cautela.
O resultado, segundo o Banco de Portugal, é um equilíbrio em que a poupança das famílias se mantém estruturalmente acima da média histórica, mesmo que, por ora, ninguém consiga dizer por quanto tempo.
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