BRANDS' ECO “Tornámo-nos vegetarianos numa jaula de leões”

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  • 15 Junho 2026

O espaço é hoje uma frente económica decisiva, diz Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa. O país tem hoje condições se posicionar nas cadeias de valor europeias do setor, garante.

Os AED Days, principal plataforma nacional dedicada às indústrias da aeronáutica, do espaço e da defesa, regressaram em formato renovado a Oeiras e Cascais, nos dias 27, 28 e 29 de maio. A 13.ª edição inaugurou a área de exposição Space², com o apoio institucional da Agência Espacial Portuguesa, reforçando a parceria estratégica entre a Agência e a AED Cluster Portugal na valorização e projeção do setor espacial nacional. Foi à margem deste encontro que Ricardo Conde, Presidente da Agência Espacial Portuguesa, traçou um retrato exigente, mas pragmático, da posição europeia no novo xadrez geopolítico e tecnológico global. Na entrevista, defende que o espaço deixou de ser apenas uma aposta científica ou estratégica para se afirmar como uma frente económica crítica, diretamente ligada à soberania, à segurança e à competitividade industrial

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Numa entrevista marcada por metáforas fortes e críticas à fragmentação europeia, Ricardo Conde argumenta que Portugal pode tirar partido da sua posição atlântica para ganhar relevância nas cadeias de valor europeias ligadas ao espaço e à defesa.

Quais os grandes desafios para Portugal e para a Europa para os próximos anos?

Um dos grandes desafios é a federação das capacidades na Europa, porque só assim teremos escala. O espaço é de escala. Por essa razão é que estamos a falar em IPOs da SpaceX, de valores astronómicos, e a falar das empresas mais valiosas, empresas americanas, que são as que marcam as tendências da exploração espacial. Isto é escala. Portanto, na Europa, por muito que tenhamos conhecimento técnico, temos uma falta de organização devido à dispersão política.

E como é que se conjugam estas vontades para termos escala?

Essa é que é a dificuldade. Não é uma questão técnica, é uma questão de escala. Nenhuma empresa europeia consegue sozinha ter a dimensão de uma SpaceX ou de uma Starlink, que têm um domínio mundial. Na Europa, nem com a federação de muitas vontades, que é o que o Estado está a fazer agora também com o programa Air Square. A nível nacional isto nunca vai funcionar. Só é possível com o ‘empurrão’ da Comissão Europeia.

Mas continua a haver barreiras?

As grandes barreiras são as soberanias e o medo de perder a influência. Temos muito receio de conceder a nossa soberania para ganhar no todo. E isso é comum à maior parte dos países europeus, não é uma questão portuguesa. Aliás, isto é uma questão nos principais países europeus, como a Alemanha ou França.

Que é quem tem mais a perder…

Claro. Não vamos ser ingénuos, porque sabemos que a Europa tem várias velocidades, tem vários motores, e Portugal não é um motor. Portugal é apenas um componente de um motor. Podemos aspirar a participar mais ativamente em determinadas áreas. Mas, para fazê-lo, temos de fazer parte de uma construção maior.

A Europa precisa de uma força externa para nos unir. Em nome das democracias, tornámo-nos vegetarianos numa jaula de leões

A principal dificuldade é uma organização política. O programa SAFE tem uma componente que faz toda a diferença, que é comprar agregadamente com os Estados para ganhar a tal dimensão.

Um alerta lançado pelo Relatório Draghi.

Sim. Disse que estamos fragmentados, que a Europa tem um déficit de competitividade – somos menos produtivos relativamente aos Estados Unidos -, e há uma ausência completa de uma estratégia uniforme para vários setores. Então é preciso agir. Mas somos muito reativos.

A Europa precisa de uma força externa para nos unir, de uma grande motivação externa. A certa altura, em nome das democracias, tornámo-nos vegetarianos numa jaula de leões. Esta expressão é impressionante. E quando acordámos, os leões já tinham comido. Costuma-se dizer: se não estás à mesa, és o menu.

Este conhecimento acumulado da humanidade parece que não nos serviu para nada. A paz é um intervalo que a guerra nos dá. O normal das civilizações é a guerra, não é a paz. E nós esquecemos, porque tínhamos ali alguém confiável [NATO e EUA], que tinha interesses económicos, culturais, e havia um relacionamento.

Só que, de repente, há um ano, verificámos que não tínhamos nada em comum. A Europa é a tal força comum de reação. A Ucrânia foi invadida pela Rússia, então somos todos pro-ucranianos, e muito bem. Agora, a administração de Trump invadiu os nossos princípios, as nossas alianças… foi uma invasão, não é? As ameaças externas obrigaram-nos a pensar da mesma forma. Então precisamos de reagir, não por estratégia, mas por necessidade.

O Atlântico dá dimensão à Europa, e Portugal é central nessa arquitetura de segurança. Não somos assim tão marginais na Europa

E em que pode Portugal contribuir para esta colaboração europeia?

A primeira coisa tem a ver com a nossa posição geográfica. Isto é mesmo algo que temos de pensar seriamente. Há anos que o oceano é o nosso desígnio e nunca fizemos nada. É que nem uma indústria naval potente, que devíamos ter, temos. Somos uma nação Atlântica e isso devia ser uma commodity. Este desígnio coloca-nos aqui, no contexto atual, numa posição absolutamente privilegiada. Porquê? Há uma grande discussão sobre o nosso posicionamento do Atlântico, em particular com a base das lajes.

Mas a verdade é que há uma coisa relevante nisto tudo. Posicionou o Atlântico, e, no contexto daquilo que é a arquitetura de defesa da Europa, é a fronteira oeste da Europa. O Atlântico dá dimensão à Europa, e Portugal é central na Europa nesse aspeto. Não somos assim tão marginais na Europa. Isto significa que temos a obrigação e a responsabilidade de fazer a gestão do Atlântico.

De que forma?

O Atlântico é um mar de recursos, e recursos que nos estão alocados. Portanto, temos a obrigação de o gerir. Explorar ou não, mas de o gerir. Acho que muito pouco foi feito, a todos os níveis. Desde a aquacultura à energia offshore, aos cabos submarinos. Todo um conjunto de coisas. Temos uma obrigação de cuidar da soberania. Porque no dia em que acontecer alguma fatalidade, vamos perceber o que é que não fizemos.

Ou seja, a dimensão de segurança, na nossa parte, é uma das portas de entrada da Europa. Logo, temos de assumir responsabilidades na dimensão de segurança da arquitetura europeia. Em particular, um programa que se está a tentar desenhar – o European Space Shield – vem exatamente com esse propósito. E isto arrasta depois um conjunto de empresas, e é aí que está o impacto económico.

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