Bancos centrais querem apostar mais em ouro e fugir do dólar

A instabilidade geopolítica e o receio da desvalorização do dólar estão a levar os bancos centrais a acumular ouro recorde, revela o inquérito anual do World Gold Council.

Num momento em que a instabilidade geopolítica e as pressões inflacionistas continuam a marcar a agenda económica global, os bancos centrais de todo o mundo estão a reforçar as suas reservas de ouro a um ritmo que não tem precedentes na história recente.

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Nos últimos quatro anos, estas instituições acumularam, em média, mil toneladas de ouro por ano, o dobro das 500 toneladas registadas na década anterior, segundo o relatório anual Central Bank Gold Reserves Survey 2026, publicado esta terça-feira pelo World Gold Council.

O inquérito, que este ano bateu o recorde de participação com 76 respostas de bancos centrais, retrata um setor cada vez mais convicto de que o ouro é, acima de tudo, um ativo estratégico para os tempos que correm.

  • 89% dos bancos centrais inquiridos acredita que as reservas globais de ouro vão aumentar nos próximos 12 meses, enquanto 45% prevê incrementar as suas próprias reservas, uma percentagem recorde desde que o inquérito foi lançado há nove anos.
  • 84% dos inquiridos acredita que o ouro vai representar uma quota moderada ou significativamente maior nas reservas totais em cinco anos, face a 76% que partilhava essa visão na edição anterior do relatório.

Entre as razões invocadas para reforçar as posições em ouro destacam-se (pela ordem com que foram citadas) a necessidade de cobertura face à inflação e à instabilidade do dólar americano (citada por 23 dos 34 bancos que planeiam comprar ouro), os riscos económicos crescentes nas economias emissoras de moedas de reserva e a subida do preço do metal.

“Tendo em conta que as compras de ouro por parte dos bancos centrais ultrapassaram a média histórica nos últimos quatro anos, e que novos bancos centrais continuam a aderir a esta tendência, é possível que a quota das reservas em ouro aumente no atual ambiente de incerteza“, refere um dos bancos centrais participantes citado pelo World Gold Council.

90% dos bancos centrais inquiridos considera que o desempenho do ouro em períodos de crise é um fator altamente ou moderadamente relevante na decisão de o deter em carteira.

Além da questão quantitativa, os dados revelam uma transformação de fundo na forma como estas instituições encaram o ouro enquanto classe de ativos, com 90% dos inquiridos a considerar que o desempenho do ouro em períodos de crise é um fator altamente ou moderadamente relevante na decisão de o deter em carteira — um máximo histórico para este indicador –, com 92% dos bancos centrais de mercados emergentes e em desenvolvimento a subscrever esta posição.

A instabilidade geopolítica, agravada pelo conflito no Irão, que decorreu durante o período de recolha de respostas, e as preocupações com a inflação foram igualmente apontadas como temas centrais nas decisões de gestão de reservas, com 79% e 54%, respetivamente, dos inquiridos a assinalá-los como relevantes.

A diversificação de portefólio e o papel do ouro como reserva de valor a longo prazo surgem também no topo das prioridades, citados por 84% e 83% dos respondentes. “A consistência nos três principais fatores relevantes demonstra que os bancos centrais, em todas as regiões do mundo, continuam a reconhecer o papel único e estratégico do ouro na gestão de reservas”, lê-se no relatório.

Menos confiança no dólar e aposta na soberania na gestão física do ouro

O declínio do dólar é o outro lado desta equação. Com base nos dados do FMI e na metodologia do World Gold Council, que inclui o ouro no cálculo total das reservas, o dólar representava 42% das reservas globais no terceiro trimestre de 2025, e 74% dos bancos centrais inquiridos prevê que essa quota seja inferior daqui a cinco anos, numa convicção partilhada tanto por economias avançadas como por mercados emergentes.

Esperamos que haja uma diminuição na quota das reservas totais detidas em dólares americanos. Esta redução virá principalmente de países cujas relações com os EUA têm probabilidade de ser afetadas pela política externa e pelas relações políticas dos EUA”, destaca um banco central citado no relatório. Outro participante vai mais longe, notando que, “em cinco anos, o dólar americano continuará a ser dominante, mas com uma quota menor. O ouro, o renminbi e outras divisas poderão alargar a sua fatia de alocações nos próximos cinco anos”.

A maioria dos inquiridos prevê que a quota do euro, que representa 15% das reservas globais, e do renminbi chinês, com apenas 1%, se mantenha inalterada no mesmo período, sendo o ouro o principal beneficiário da redistribuição.

A par da aposta nas reservas de ouro, o relatório regista também uma viragem nas práticas operacionais destas instituições, com uma aceleração clara da diversificação dos locais de custódia.

  • De acordo com os dados do relatório do World Gold Council, 9% dos bancos centrais aumentou o armazenamento doméstico de ouro nos últimos 12 meses e 10% alargou os seus locais de guarda no estrangeiro, valores que comparam com 5% e 2%, respetivamente, na edição anterior do mesmo inquérito.
  • Além disso, 7% dos bancos centrais planeia aumentar o armazenamento doméstico e 9% tenciona diversificar os locais de custódia no exterior, uma tendência que contrasta com os apenas 2% que tinham esse plano no ano anterior.

O Banco de Inglaterra mantém-se como o destino preferido para guardar ouro, com 57% das preferências, mas o armazenamento doméstico surge já em segundo lugar com 49%, seguido do Banco de Pagamentos Internacionais com 16%, registando-se assim uma crescente soberania na gestão física do ouro, num sinal de que estas instituições já não querem depender apenas de terceiros para guardar o seu ativo mais estratégico.

O ouro encontra-se atualmente a negociar com uma subida de 0,8% para 4.340 dólares por onça, encaminhando-se para a quarta sessão de ganhos consecutivos.

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