Acelerador NATO DIANA vai ‘multiplicar’ deftechs nacionais
Depois de integrar Portugal na rede do acelerador NATO DIANA, a idD Portugal Defence e o Instituto Pedro Nunes estão a preparar um 'DIANA nacional' para ajudar a acelerar mais deftechs portuguesas.
Uma “oportunidade única para empresas nacionais de tecnologia dual use” que poderá funcionar como “catalisador” de deftech e reforçar a competitividade tecnológica do país. É desta forma que o ecossistema de defesa português reage à integração do país da rede de aceleradores NATO DIANA. O objetivo é “colocar Portugal no centro do desenvolvimento de tecnologias emergentes e disruptivas de duplo uso”. E, para isso, a idD Portugal Defence e o Instituto Pedro Nunes estão ainda a preparar um ‘DIANA nacional’.
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Ajudar as empresas nacionais a desenvolver tecnologia especificamente para responder às necessidades do setor militar, o seu cliente final, está entre os objetivos do acelerador NATO DIANA (Defence Innovation Accelerator for the North Atlantic) em Portugal, uma parceria entre a idD Portugal Defence e o IPN, o gestor operacional do programa.
Ricardo Pinheiro Alves explica. “A função do acelerador é pegar empresas que têm uma tecnologia, que precisa de ser desenvolvida para ficar mais madura, para que possam ter acesso a centros de teste de militares de forma a perceberem quais são as necessidades dos militares”, diz. “Muitas vezes é um problema que nós temos com a nossa tecnologia, é desenvolvida, mas não está a ser pensada para fins de defesa, está a ser pensada para fins civis e depois as aplicações não são exatamente as mesmas”, diz o presidente da idD Portugal Defence, entidade que agrega as participações do Estado português no setor de defesa, ao ECO/eRadar.
As empresas portuguesas pensam muito em função da União Europeia, porque é onde há fundos, financiamento. Mas a realidade é que a parte do cliente final, a parte militar, funciona no âmbito da NATO, não da União Europeia. E, portanto, é necessário que as empresas mudem um bocadinho o chip.
Mas não só. Há que colocar na mira das startups o cliente final: as forças armadas e a NATO, organização com um papel fulcral na definição das necessidades dos 32 países membros da Aliança Atlântica. “As empresas portuguesas pensam muito em função da União Europeia, porque é onde há fundos, financiamento. Mas a realidade é que a parte do cliente final, a parte militar, funciona no âmbito da NATO, não da União Europeia. E, portanto, é necessário que as empresas mudem um bocadinho o chip“, recomenda Ricardo Pinheiro Alves. E dá um exemplo. “É como se fossemos comprar uma casa. Quando vamos comprar uma casa, vamos ver a casa, escolhemos e depois vamos ao banco pedir o dinheiro emprestado. No caso da defesa, o banco é a União Europeia, mas a casa, que é o mais importante, é a NATO. E as empresas estão muito focadas para o financiamento, mas pouco para o que é que podem fazer na área da defesa”, detalha.
“O planeamento que foi feito no âmbito da NATO no ano passado pelos países da Aliança foi um planeamento a 20 anos, e foi aí que foi decidido o que é que Portugal ia comprar, não foi a nível da União Europeia”, realça Ricardo Pinheiro Alves. Motivo pelo qual a idD Portugal tem promovido várias iniciativas de aproximação da indústria de defesa nacional junto da organização.
Em junho, por exemplo, em conjunto com a representação permanente de Portugal junto da Aliança, a idD Portugal Defence, no âmbito do “Dia da Indústria de Defesa de Portugal” — o primeiro desta natureza a ser realizado no quartel-general da NATO — levou 41 empresas nacionais a expor os seus produtos a diplomatas estrangeiros e agências da NATO.
Efeito “multiplicador” do acelerador
O ecossistema mostra-se expectante com o impacto que a integração de Portugal na rede de aceleradores NATO DIANA que, além de Portugal conta com mais 16 aceleradores em vários países da Aliança como Espanha, Itália, possa ter na dinamização não só na indústria de defesa, como em todo o tecido industrial português.


“Se Portugal conseguir aproveitar a oportunidade criada pela NATO DIANA para consolidar um verdadeiro cluster de tecnologias de defesa e sistemas autónomos, o impacto poderá estender-se muito para além do setor da defesa, reforçando a competitividade tecnológica e industrial do país como um todo”, defende Dário Pedro, CEO da Beyond Vision.
O responsável da fabricante de drones fala por isso de uma “oportunidade única para empresas nacionais de tecnologia dual use“. E explica porquê. “Quanto maior for a dinâmica gerada num determinado setor, mais forte se torna todo o ecossistema. Temos exemplos claros como Shenzhen, na China, que se tornou uma referência mundial em robótica, eletrónica e sistemas autónomos, ou a Silicon Valley, nos Estados Unidos, que consolidou a sua liderança através da concentração de empresas tecnológicas, talento, investidores e centros de conhecimento.”
Se Portugal conseguir aproveitar a oportunidade criada pela NATO DIANA para consolidar um verdadeiro cluster de tecnologias de defesa e sistemas autónomos, o impacto poderá estender-se muito para além do setor da defesa, reforçando a competitividade tecnológica e industrial do país como um todo.
“Portugal, pela sua dimensão geográfica e proximidade entre os diferentes atores, funciona quase como estas regiões em escala reduzida. Quando se criam clusters focados e existe massa crítica suficiente, os resultados tendem a crescer mais rapidamente do que a simples soma das partes. O efeito de rede faz com que 1+1 deixe de ser apenas 2, porque empresas, universidades, investidores e utilizadores finais passam a potenciar-se mutuamente, acelerando a inovação, a criação de talento e a geração de negócio”, argumenta.
E não é o único a partilhar desta visão otimista sobre o impacto do acelerador: Este “coloca o país mais perto dos principais circuitos aliados de desenvolvimento, teste, validação e adoção de tecnologias emergentes e disruptivas de uso civil e militar”, considera Pedro Petiz, diretor de desenvolvimento estratégico da Tekever.
“Para um país como Portugal, isto é particularmente importante. Temos talento científico e tecnológico muito forte, boas universidades, bons centros de investigação e empresas com capacidade de competir internacionalmente em áreas como inteligência artificial, autonomia, espaço, comunicações, cibersegurança e sistemas não tripulados. O que muitas vezes falta é precisamente a ponte entre tecnologia, aplicação operacional, financiamento, mercado e adoção por utilizadores finais”, argumenta.
“A rede NATO DIANA pode ajudar a criar essa ponte. Pode dar às startups e PME portuguesas acesso a desafios reais, centros de teste, mentores, investidores e potenciais clientes dentro da Aliança. Isso pode acelerar a maturidade de soluções nacionais e ajudar Portugal a posicionar-se em nichos de alto valor tecnológico”, acredita. “Quanto mais forte for o ecossistema português de deftech, melhor para Portugal e melhor para a Europa”, sintetiza.
A rede NATO DIANA pode ajudar a criar essa ponte. Pode dar às startups e PME portuguesas acesso a desafios reais, centros de teste, mentores, investidores e potenciais clientes dentro da Aliança. Isso pode acelerar a maturidade de soluções nacionais e ajudar Portugal a posicionar-se em nichos de alto valor tecnológico. Quanto mais forte for o ecossistema português de deftech, melhor para Portugal e melhor para a Europa.
André Marquet é mais contido na sua avaliação. Embora considere a entrada de Portugal na rede de aceleradores NATO DIANA “um passo na direção certa, que só peca por tardio”, para o CEO da Productized o “principal impacto” será mais ao nível da visibilidade do programa no país.
“O número de candidaturas portuguesas ao programa tem ficado bastante abaixo do potencial real do país, o que também se tem vindo a traduzir no reduzido número de startups portuguesas aceites no acelerador”, aponta. “Esperamos que com uma representação nacional, esta situação se altere já nas próximas chamadas do programa”, refere o cofundador da Productized, empresa que já organizou em Lisboa duas edições dos EDTH.
Um efeito multiplicador é o que Álvaro Patrício considera que o acelerador pode vir a ter no ecossistema. “O efeito que antecipo para Portugal é de multiplicação: champions como a Tekever e a Beyond Vision já mostraram o caminho, e com esta infraestrutura de aceleração o ecossistema nacional passa a ter as condições para produzir a próxima geração dessas empresas”, defende o cofundador da deftech que desenvolveu uma solução que ajuda os drones a saber, em tempo real sem GPS, a sua localização e a voar de forma autónoma e que começou a ganhar asas no European Defense Tech Hackathon (EDTH), em Varsóvia, hackathon financiado pelo Fundo de Defesa Europeu.
O número de candidaturas portuguesas ao programa tem ficado bastante abaixo do potencial real do país, o que também se tem vindo a traduzir no reduzido número de startups portuguesas aceites no acelerador. Esperamos que com uma representação nacional, esta situação se altere já nas próximas chamadas do programa.
Em Portugal havia um fosso em termos de infraestrutura de aceleração dedicada, gap que o NATO DIANA vem preencher. Mas, para o empreendedor a mais-valia do acelerador — mais até do que o financiamento — é o acesso à NATO e isso, diz, “não tem preço”.
“Estar dentro da rede NATO significa que quando se bate à porta de qualquer membro da Aliança, de Portugal aos Estados Unidos, passando por toda a Europa, já não se é uma startup desconhecida. É uma empresa validada pelo próprio ecossistema de defesa atlântico. E num setor onde a confiança e a credibilidade são tudo, isso vale infinitamente mais do que qualquer cheque”, destaca Álvaro Patrício. “Para uma empresa de defesa tech, estar dentro da NATO é estar dentro do maior mercado de defesa do mundo”, reforça.
Acesso à NATO e aprender a ‘falar’ com a Aliança
Anualmente, a NATO DIANA abre uma call à qual empresas dos 32 países aliados da NATO podem candidatar-se. Na última call, dos milhares de candidatos, apenas 150 foram selecionadas, destas duas — a Neurospace e a Connect Robotics — são portuguesas. Cada uma recebeu um investimento inicial de 100 mil euros, acesso a uma rede de mais de 180 centros de teste da NATO para validar a tecnologia em ambientes operacionais reais e, mais tarde, tem a possibilidade de concorrer a um financiamento adicional de até 300 mil euros.
“Mais do que o dinheiro, o ‘selo NATO’ dá uma credibilidade imediata perante investidores de capital de risco internacionais e mesmo para o ecossistema global nacional”, atira Ana Manuel Martins, chief operating officer (COO) da Connect Robotics, ao ECO/eRadar.
Estar dentro da rede NATO significa que quando se bate à porta de qualquer membro da Aliança, de Portugal aos Estados Unidos, passando por toda a Europa, já não se é uma startup desconhecida. É uma empresa validada pelo próprio ecossistema de defesa atlântico. E num setor onde a confiança e a credibilidade são tudo, isso vale infinitamente mais do que qualquer cheque.
Para uma empresa de defesa tech, estar dentro da NATO é estar dentro do maior mercado de defesa do mundo.
“O mercado de Defesa português, isoladamente, é pequeno. Ao entrar nesta rede, ganhamos um posicionamento totalmente diferente num mercado potencial de aquisições públicas em 32 países da Aliança. Portugal deixa de ser apenas um mero comprador de tecnologia de Defesa para se afirmar como um polo ativo de desenvolvimento tecnológico e estratégico com impacto global. É uma oportunidade soberba para o país”, diz a COO.
E uma oportunidade para a empresa. “Retirámos da experiência uma proximidade brutal com o utilizador final. No setor da Defesa, é incrivelmente difícil falar com quem realmente opera no terreno. Através do DIANA, tivemos mentoria direta de forças armadas e decisores da NATO. Isso permitiu-nos ajustar o nosso produto que nasceu no mercado civil para responder exatamente aos requisitos exigidos num cenário militar e no contexto da defesa”, descreve.
A participação trouxe também uma “enorme curva de aprendizagem sobre o ciclo da Defesa e o seu procurement, que é radicalmente diferente do mercado civil”, indica e aprender a falar a linguagem NATO. “No mundo das startups, estamos habituados ao ‘move fast and break things‘, com ciclos de venda de semanas ou meses. Na Defesa, o paradigma é o oposto: o foco está na segurança absoluta, na interoperabilidade e na mitigação de riscos. O programa foi fundamental para nos ensinar a descodificar esta burocracia, a falar a “linguagem NATO” e a ter a paciência estratégica que os contratos militares exigem. Aprendemos a gerir o rigor do procurement de Defesa com toda a paciência que exige”, aponta.
Mas não só. “O acesso à rede de centros de teste e a realização de exercícios operacionais da NATO permitirá validar a nossa tecnologia em ambientes operacionais complexos de forma muito mais rápida. Esse processo de ‘testar, falhar e corrigir’ com o apoio de peritos de elite poupa-nos anos de desenvolvimento e de alinhamento estratégico”, destaca ainda.
No mundo das startups, estamos habituados ao ‘move fast and break things’, com ciclos de venda de semanas ou meses. Na Defesa, o paradigma é o oposto: o foco está na segurança absoluta, na interoperabilidade e na mitigação de riscos.
O programa foi fundamental para nos ensinar a descodificar esta burocracia, a falar a “linguagem NATO” e a ter a paciência estratégica que os contratos militares exigem.
E, por fim, o financiamento obtido também teve um efeito “imediato” na operação da Connect Robotics — “ajudou-nos a focar na inovação pura” — mas o verdadeiro impacto foi “o ganho de escala”. “Hoje, graças à visibilidade do programa, estamos ativamente em conversações com entidades de vários países da Aliança. O DIANA retirou-nos da nossa zona de conforto e deu-nos a maturidade necessária para jogar na primeira liga global da inovação”, realça Ana Manuel Martins.
Acelerador vai receber 6-12 empresas
Desde o início de junho, até 3 de julho, as empresas podem candidatar-se a uma nova call para o programa de aceleração. As empresas entram em processo de avaliação até 14 de agosto, em setembro decorre a fase seguinte de entrevistas individuais, sendo as empresas notificadas em novembro. O programa de aceleração arranca em janeiro, terminando em junho de 2027.
“No IPN esperamos receber cerca entre 6 a 12 empresas. Serão empresas provenientes dos diferentes país da aliança, pois o programa DIANA segue a política de agrupar por áreas tecnológicas, expondo-as a diferentes desafios, num contexto internacional, por forma a melhor as preparar para as exigências dos diferentes mercados”, explica João Gabriel Silva, presidente do IPN ao ECO/eRadar.
O nosso objetivo é colocar Portugal no centro do desenvolvimento de tecnologias emergentes e disruptivas de duplo uso.
O IPN, que incubou as duas empresas nacionais selecionadas na call anterior do NATO DIANA, é o gestor do acelerador em Portugal, tendo já realizado um webinar que contou com 50 participações. E face à recetividade e vantagens que aponta ao programas — “colocar as empresas participantes em contacto com as Forças Armadas de todos os países da NATO, em particular os seus departamentos de aquisição” e o financiamento que pode ser uma “ajuda decisiva” para “adaptar uma tecnologia civil a um caso de uso militar” —, João Gabriel Silva está convencido que “a participação ativa no programa DIANA irá resultar num aumento significativo da presença portuguesa no mercado da defesa, mas nesta fase inicial ainda não conseguimos quantificar”.
Mas a ambição é clara. “O nosso objetivo é colocar Portugal no centro do desenvolvimento de tecnologias emergentes e disruptivas de duplo uso”, sintetiza.
Ricardo Pinheiro Alves mostra-se otimista com o efeito que o programa poderá vir a ter no ecossistema. “Acho que vão aparecer muito mais startups e empresas novas — aliás, já estão a aparecer — com preocupações de duplo uso também, mas com duplo uso que esteja também orientado para a defesa“, aponta o responsável da idD Portugal Defence.
Impacto que quer ainda vá para além das startups recebidas no âmbito do acelerador. “O DIANA tem uma dimensão limitada, ou seja, escolhe duas empresas portuguesas no universo dos 32 países da NATO. Por isso, estamos a desenvolver um programa complementar ao DIANA, uma espécie de DIANA nacional, juntamente com o IPN, para que esse programa possa abranger mais empresas e não fique limitado só às que o DIANA escolhe“, revela. “O programa está mais ou menos desenhado, falta agora começar a sua implementação, mas a ideia é começar este ano.”
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