Acordo reduz pressão, mas inflação ainda deverá subir antes de desacelerar

Economistas advertem que impacto na inflação não deverá ser imediato, uma vez que os efeitos das subidas anteriores continuam a ser transmitidos à economia durante semanas ou meses.

A inflação da Zona Euro deverá ainda subir temporariamente antes de começar a desacelerar, apesar do acordo para o conflito entre os Estados Unidos e o Irão, que reduz o risco geopolítico e pressiona à queda do preço do petróleo. Isto porque a inflação tende a reagir com atraso aos choques energéticos, mas também devido aos serviços.

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O choque económico provocado pela guerra no Irão levou as principais instituições económicas a reverem em alta as previsões para a taxa de inflação e em baixa para o crescimento económico e, na última reunião, o Banco Central Europeu (BCE) a subir, pela primeira vez desde 2023, as taxas de juro em 25 pontos base. O acordo entre Teerão e Washington, que será assinado na sexta-feira, na Suíça, levou agentes económicos e decisores governamentais na Europa a suspirar de alívio, mas o efeito ainda demorará meses ou anos a chegar à economia real, como economistas destacaram em declarações ao ECO.

Para já, a expetativa é que a pressão se reduza, não se concretizando os piores cenários, como o do BCE que, no quadro mais severo, prevê a taxa de inflação nos 4% este ano, aumentando para 5,3% em 2027. Contudo, mesmo que o preço do petróleo caia, o impacto na inflação não será imediato, uma vez que os efeitos das subidas anteriores continuam a ser transmitidos à economia durante semanas ou meses, enquanto os fluxos de energia começam a recuperar.

Qualquer melhoria na oferta de energia não será imediata. A normalização das compras de petróleo na região exigirá tempo, enquanto o mercado europeu do gás deverá continuar pressionado, à medida que os países reconstroem as suas reservas esgotadas ao longo do verão“, destaca Thomas Hempell, responsável pela análise dos mercados macroeconómicos na Generali Investments.

No entanto, assinala que se os fluxos energéticos regressarem à normalidade, “as perspetivas para a inflação melhorarão significativamente, reduzindo a pressão sobre os bancos centrais preocupados com um eventual regresso de choques inflacionistas impulsionados pela energia“.

Os preços do petróleo ainda estão suficientemente elevados para manter a inflação muito acima do objetivo na maioria das principais economias.

Christian Schulz

Economista-chefe da Allianz Global Investors

Também Christian Schulz, economista-chefe da Allianz Global Investors (Allianz GI) alerta que “os preços do petróleo ainda estão suficientemente elevados para manter a inflação muito acima do objetivo na maioria das principais economias, enquanto qualquer recuperação da procura poderá inclinar a perspetiva para um ambiente reflacionista em vez de um ambiente ‘ideal’ (crescimento estável, inflação baixa)”.

Ademais, como recordou o governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, em causa não estão apenas o disparo nos preços da energia na sequência do conflito, mas também dos fertilizantes e de outros bens e serviços. Pelo que a reação da inflação global na Zona Euro não será imediata. Por exemplo, em maio, a taxa de inflação homóloga dos países do Euro deverá ter aumentado para 3,2%, contra 3% registados em abril e os 1,9% registados em maio de 2025.

De acordo com os dados do Eurostat, a energia terá alcançado a taxa de inflação homóloga mais elevada (10,9%, em comparação com os 10,8% de abril), seguida pelos serviços (3,5%, em comparação com os 3,0% de abril), componente na qual os preços tradicionalmente desaceleram a um ritmo mais lento.

Nos últimos anos, quando os preços de serviços subiram, demoraram um pouco mais a descer“, recordou o governador na conferência de imprensa do “Boletim Económico de junho”, que decorreu na segunda-feira na sede do banco central em Lisboa.

Desta forma, os benefícios do prometido início do fim do conflito para as economias são inegáveis, porém, os seus efeitos demorarão a fazer-se sentir nos principais indicadores. Após o pico da inflação energética em 2022, por exemplo — e ainda que os episódios tenham características diferenciadas –, foram necessários nove meses para que o pico da inflação de bens não energéticos se materializasse, enquanto o intervalo de tempo foi de 10 meses para alimentos e 14 meses para serviços, de acordo com uma análise recente do CaixaBank Research.

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