BRANDS' ECONTAS Compliance Talks: O Fiscalista do Futuro
A IA está a mudar a fiscalidade, mas não substitui o conhecimento técnico. Neste contexto, qual será o perfil do fiscalista do futuro? A resposta foi dada no sétimo episódio das Compliance Talks.
A automação, a inteligência artificial e a transformação digital estão a redefinir o papel dos profissionais da área fiscal. À medida que as tecnologias ganham espaço nas organizações, surgem novas oportunidades de eficiência, mas também novos desafios relacionados com competências, adaptação e capacidade crítica. Afinal, como será o fiscalista do futuro? Estarão as equipas preparadas para integrar o novo idioma da IA sem perder o conhecimento técnico que continua a ser essencial?
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No sétimo episódio das Compliance Talks, Manuela Cordeiro, Responsável de Fiscal e Contabilidade na NOS, e André Vasconcelos, Partner Fiscal e Consultoria Tecnológica na Deloitte, apresentaram as principais características que os fiscalistas devem ter para acompanharem as mudanças e se tornarem fiscalistas do futuro, e ainda partilharam os exemplos de adaptação que estão a ser seguidos nas suas organizações.
“Este é um tema de grande mudança. E isto é verdade ao nível das organizações, mas também ao nível da consultoria. Tem sido um desafio porque estas novas tecnologias exigem que as nossas equipas sejam mais eficientes e, portanto, temos de embutir tecnologia na oferta que temos. Isto obriga a que as pessoas criem uma sensibilidade para saber que tecnologias usar em cada tarefa para que depois consigamos ser mais eficientes na oferta“, começou por dizer André Vasconcelos.
Além desse desafio, Manuela Cordeiro destacou a dificuldade que é trazer estas competências e respetiva mudança para as áreas de contabilidade e fiscalidade e, neste contexto, deu o exemplo da NOS: “Quando se fala em Inteligência Artificial, a prioridade numa organização como a NOS é o negócio porque é aí que também está a geração de receita. E, de facto, as potencialidades da IA aí são aumentadas com, por exemplo, os chatbots aplicados no apoio ao cliente. Mas quando queremos trazer isso para a fiscalidade, não podemos pensar só nas declarações fiscais e na nossa função específica porque a função fiscal bebe de todos os dados a montante e precisa que existam dados estruturados e padronizados para eu depois conseguir aplicar tecnologia sobre eles“.
“Ou seja, nós temos que olhar a visão win to win desde o processo de compra, de negociação, de ordens de encomenda, de receção de mercadorias, de contabilização de faturas, o processo contabilístico e, depois, no final, temos a fiscalidade, que agrega todos esses dados a montante e faz a comunicação e a preparação de todas as obrigações declarativas para entregar à Autoridade Tributária. Portanto, tudo isto tem de estar integrado no nosso ERP, usando agora competências de IA“, explicou.
No entanto, André Vasconcelos destacou três “barreiras ao desenvolvimento” na área fiscal: “A primeira é que a prioridade dos fundos nas organizações vai para as áreas onde há a maior captação de receita. E isso faz com que a área de suporte à área de suporte acabe por ficar um pouco mais para o final da fila. A segunda tem a ver com a complexidade técnica, já que a área fiscal, de facto, é complexa, e depois existe uma constante alteração da legislação que faz com que aquilo que nós tenhamos desenvolvido deixe de estar atual e obriga a estar constantemente a atualizar. A par disto, há outra barreira, que eu diria que é de segunda ordem, que é o “babysitting” que as soluções precisam. Ou seja, não basta desenvolver. Depois precisamos de manter as soluções a funcionar com atualizações. E isto exige que haja alguma dedicação“.
“Eu acrescentava também um outro ponto a esta dificuldade, relacionada com os ERP. No caso dos ERP de contabilidade, posso comprar soluções à medida, que são iguais em Portugal e noutros países. Já na fiscalidade cada país tem as suas especificidades. E isso faz com que o próprio ERP não responda. Esta especificidade de cada país dificulta comprar soluções à medida“, acrescentou.
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Manuela Cordeiro, Responsável de Fiscal e Contabilidade na NOS, e André Vasconcelos, Partner Fiscal e Consultoria Tecnológica na Deloitte, no 7º episódio das Compliance Talks -
Manuela Cordeiro, Responsável de Fiscal e Contabilidade na NOS -
André Vasconcelos, Partner Fiscal e Consultoria Tecnológica na Deloitte -
Manuela Cordeiro, Responsável de Fiscal e Contabilidade na NOS, e André Vasconcelos, Partner Fiscal e Consultoria Tecnológica na Deloitte, no 7º episódio das Compliance Talks
Além disso, o facto de Portugal ser muito pequeno faz com que seja “pouco apetecível” para os fornecedores de software fazerem grandes desenvolvimentos o país, o que ainda dificulta mais a inovação. “Num país grande, como França ou Alemanha, um desenvolvimento específico vai ter uma utilização bastante massificada. Mas quando comparamos com Portugal já não é tão apetecível porque a utilização já não vai ser assim tão grande e isso levanta as tais soluções mais one-size-fits-all. Isso faz com que nós, aqui em Portugal, tenhamos de nos adaptar um bocadinho aos moldes fiscais dos principais ERP, que não são tão apetecíveis porque, na verdade, o que eu tenho ali é uma solução standard que não encaixa bem na nossa realidade“, disse André Vasconcelos.
Ainda assim, as empresas tentam ao máximo reinventar-se com as soluções disponíveis. No caso da NOS, criaram o “NOS GPT”, uma ferramenta de pesquisa e assistente de conversação baseado em Inteligência Artificial, que garante a confidencialidade de todas informações inseridas. Manuela Cordeiro garante que “ainda não há ali um especialista que substitua o humano ou o consultor nas questões mais complexas“, mas reconhece que o “NOS GPT” dá muita informação que não tinham à disposição, tais como “a pesquisa de acórdãos, resumos, pedidos de informação vinculativa, comparação e identificação de cláusulas contratuais, ajuda também na standardização dos dados, em ler PDFs, resume, traduz, melhora o texto, prepara respostas”.
Apesar das vantagens associadas, André Vasconcelos considera que ainda existem algumas funções em que a IA não é eficaz: “Na inter-relação de dados, sinto que a IA ainda não nos dá os outputs desejados. Embora haja aqui algum efeito acelerador, a produção do conteúdo baseado em inter-relacionar dados através de múltiplos ficheiros, relacionando-os com a legislação, não traz um caminho cognitivo que nos permita dar bastante fiabilidade. Aqui, a legislação também não ajuda. Temos múltiplas fontes e os temas são complexos”.
Por essa razão, o responsável da Deloitte afirmou que o fiscalista do futuro “é alguém que vai ter de dominar três valências essenciais”: “a primeira é uma valência técnica, que se relaciona com a capacidade crítica de aplicação da norma e a revisão e validação; a segunda é uma valência mais estratégica, que envolve o fiscalista desde o início para ser parte envolvida na definição estratégica; e a terceira é a literacia tecnológica, que os faça ser capazes de entender as tecnologias que estão ao dispor e escolher as mais adequadas para cada tarefa e, portanto, acho que, no futuro, o fiscalista que irá vingar será o que irá dominar estas três valências”.
“Fala-se do risco de sermos substituídos, mas acho que ainda não estamos nesse caminho porque, olhando para o fiscalista do futuro, ele vai ter que continuar a perceber as normas de IRC, de IVA, de preços de transferência, de normas de contabilidade, porque não se pode acreditar em tudo que a IA nos diz. Tem que haver espírito crítico e, a meu ver, não há espírito crítico sem uma base de conhecimento. Portanto, temos de continuar a ter nas nossas equipas pessoas com formação nestas matérias”, concluiu Manuela Cordeiro.
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