A máquina por trás da CazéTV. Como a LiveMode conquistou o Brasil antes de agitar o mercado em Portugal

Rafael Correia,

Com o rosto de Casimiro Miguel no Brasil, a LiveMode chegou a Portugal. Mas o que está por trás deste novo player que recrutou nomes como Quaresma para a emissão e Ronaldo para acionista?

ECO Fast
  • A LiveModeTV estreou-se no mercado audiovisual português ao garantir a transmissão de 34 jogos do Mundial de Futebol de 2026, superando as emissões das principais televisões.
  • Com mais de 1,5 milhões de visualizações durante o jogo de Portugal, a LiveModeTV demonstrou um crescimento significativo, enquanto a SIC alcançou 4,8 milhões de espectadores.
  • As críticas à falta de regulação das plataformas digitais e o impacto da LiveModeTV no setor audiovisual podem alterar a dinâmica das transmissões desportivas em Portugal.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A LiveModeTV entrou com estrondo no mercado audiovisual português, garantindo a emissão de jogos do Mundial de Futebol de 2026 antes mesmo das televisões generalistas. Com a transmissão de 34 partidas, superou os direitos assegurados pela RTP, SIC e TVI, que dividem entre si a transmissão de apenas 20 jogos. Em Portugal, a Sport TV garante a transmissão de todos os 104 jogos.

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O impacto deste novo player digital ficou provado na tarde desta quarta-feira. Durante o jogo de Portugal vs RD Congo, o canal de YouTube ultrapassou a fasquia dos 500 mil subscritores, um marco assinalado repetidamente durante a emissão.

A transmissão obteve mais de 1,5 milhões de visualizações (1.510.584 visualizações), com o livestream a obter um pico de 302,347 mil visualizações em simultâneo às 19h50 e a emissão diária do canal uma média de 102,814 mil visualizações em simultâneo – de acordo com dados do Playboard. Para comparação, a SIC — que emitiu em sinal aberto na televisão — afirma que contactaram como o jogo um total de 4 milhões 879 mil e 100 pessoas, ou seja, 49,2% da população em Portugal. O momento mais visto do jogo aconteceu às 19h58, no minuto final.

A entrada da LiveMode, com apoio da Google, motivou reações duras no setor. Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, dona da TVI, criticou abertamente a Google por “apoiar o arranque da LiveMode no nosso país”. “A FIFA viu neste projeto um bom instrumento para forçar as televisões abertas a aceitar os seus preços irrazoáveis”, apontou o gestor. Na altura, recorde-se, a FIFA exigia 430 mil euros pela transmissão televisiva de cada jogo do Mundial.

As críticas ao YouTube e à falta de regulação das plataformas globais dominaram debates no Congresso da APDC e no 11º Encontro de Produtores Independentes de TV, unindo os responsáveis das estações generalistas. O impasse com a FIFA foi tal que o acordo para a transmissão em sinal aberto só ficou fechado a menos de uma semana do arranque da competição.

Há também a questão da publicidade. O Código da Publicidade proíbe a publicidade a bebidas alcoólicas, na televisão e na rádio, entre as 7 horas e as 22 horas e 30 minutos. Já no Youtube essa restrição horária não existe. Há ainda diferenças nas abordagens possíveis a tópicos como os jogos e apostas, onde em televisão se aplica a mesma regra do álcool. A segmentação da publicidade no Youtube passa mais pela faixa etária.

O modelo “CazéTV” e a estratégia sem subscrições

Com raízes no Brasil, a LiveModeTV é a versão portuguesa do formato inaugurado pela CazéTV. O modelo de negócio assenta na disponibilização de desporto no YouTube, “sem depender de subscrições ou pagamentos diretos”, sublinhava a empresa em comunicado.

O foco está na relação com o público e na atenção que se cria ao longo do tempo, uma vez que a monetização surge de forma natural, através de parcerias onde a publicidade não interrompe e sim faz parte da história”, explicava a marca.

À semelhança do que acontece no mercado brasileiro — onde têm acordos com o Prime Video e Disney+ — , a operação portuguesa garantiu também presença na plataforma de streaming da Amazon. Entre as marcas que se associam à cobertura do Mundial 2026 em Portugal encontram-se BPI, Coca-Cola, Laboratórios Vichy, EDP, bwin, Betclic, Sagres e McDonald’s.

Se no Brasil, a cara principal do canal é o youtuber Casimiro Miguel, em Portugal, a LiveModeTV conta com Ricardo Quaresma, Luana do Bem, Márcia Pacheco, Tiago Almeida e MoveMind, entre os principais rostos. A estes nomes junta-se uma equipa alargada de creators — Ricardinho, Bruno Branco, Cátia Pacheco, Mário Cagica, Mário Falcão, Os Primos, Tomás da Cunha e Vítor Sá.

Os resultados no Brasil ilustram o potencial do projeto. De acordo com a LiveMode — empresa-mãe de ambos os canais –, pela primeira vez em mais de 20 anos, os direitos totais do Mundial no Brasil não estão nas mãos da TV aberta tradicional, tendo a CazéTV garantido a transmissão de todos os 104 jogos. Por exemplo, o jogo de estreia de Portugal no Mundial 2026 foi unicamente emitido pela CazéTV. Para comparação, a Rede Globo garantiu cerca de metade dos jogos — 57 — incluindo todas as participações do Brasil. O SBT conta com 32 jogos da competição, incluindo todos os jogos do Brasil e a final.

Na estreia da seleção brasileira no Mundial, a CazéTV ultrapassou 12,2 milhões de visualizações simultâneas, aponta a Exame. A própria plataforma diz ter registado 12,7 milhões de ecrãs ligados ao mesmo tempo durante o jogo, segundo o Meio & Mensagem.

A título de comparação, o grupo Globo alcançou 49,9 milhões de telespectadores na soma das transmissões da TV Globo (TV aberta), Sportv (TV paga) e GE TV (no streaming Globoplay), indicam dados do Ibope.

De 2017 à entrada de Cristiano Ronaldo

Mas o alcance da LiveMode vai além da simples emissão, atuando na gestão e comercialização de direitos de transmissão desportivos. Fundada em 2017 por Edgar Diniz e Sergio Lopes — executivos do antigo canal Esporte Interativo, vendido à Turner em 2015 — , a missão da empresa sempre foi construir modelos de negócio desportivos para o ecossistema digital.

A expansão no mercado dos direitos começou com alianças com a Federação Paulista de Futebol em 2021, mas o grande ponto de viragem deu-se em 2022. Em parceria com o youtuber Casimiro Miguel, a LiveMode lançou a CazéTV para transmitir 22 jogos do Mundial do Qatar. De acordo com o site da LiveMode, durante esse Mundial alcançou 6,9 milhões de dispositivos simultâneos.

Em 2025, a holding comprou os 100% do canal — detinha 51% — e integrou Casimiro como sócio global. Mais recentemente, em maio deste ano, foi a vez de Cristiano Ronaldo entrar no capital da empresa, sem se saber detalhes como o nível de participação.

O peso institucional da LiveMode tem crescido a par das audiências. Depois de terem sido contratados pela FIFA em 2021 para gerir os direitos das transmissões digitais no Brasil — após a Globo renegociar o contrato durante a pandemia e perder a exclusividade digital — , assumiram-se em 2024 como a agência exclusiva de vendas do Mundial de 2026 no mercado brasileiro. Em paralelo, gerem os direitos da Futebol Forte União (bloco de 35 clubes brasileiros) e cobriram as recentes Olimpíadas de Inverno de Milano Cortina 2026 — mais de 100 horas de transmissão.

A expansão da empresa resultou na entrada de fundos de investimento. Em 2024, a americana General Atlantic e um fundo de private equity da brasileira XP Asset compraram uma “fatia minoritária relevante” da empresa, solidificando o músculo financeiro que agora agita o mercado português.

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