Euronext lança ‘via verde’ para atrair PME até à bolsa

As pequenas e médias empresas europeias têm agora uma via mais rápida e barata para entrar em bolsa com o programa IPOgo da Euronext, que reduz a burocracia e os custos de admissão ao mercado.

ECO Fast
  • A Euronext lançou o IPOgo para reduzir a burocracia e os custos que afastam as pequenas e médias empresas europeias dos mercados de capitais.
  • O programa simplifica a documentação exigida, digitaliza o processo de admissão e abre as ofertas aos investidores de retalho, incluindo a opção de alocar até 100% da oferta junto de pequenos investidores.
  • O IPOgo está disponível por enquanto apenas em França e não resolve os problemas de liquidez e valorização que continuam a travar as PME.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A pesada carga burocrática e os elevados custos de admissão continuam a travar o acesso das pequenas e médias empresas europeias aos mercados de capitais. Para tentar atenuar este obstáculo, a Euronext escolheu Lisboa para lançar esta quinta-feira o IPOgo, uma solução construída para simplificar as exigências documentais e encurtar os prazos de entrada no mercado Euronext Growth.

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O anúncio surgiu no decorrer da edição de 2026 do programa de preparação IPOready, que reuniu na capital mais de 160 empresas de 22 países, entre as quais seis nacionais, com dimensão para concretizar uma oferta pública inicial nos próximos dois anos.

Para facilitar o salto destas empresas para a bolsa, a estrutura do IPOgo avança com três pilares:

  • Documentação de admissão simplificada, baseada no modelo do EU Growth Prospectus previsto no Listing Act europeu que entrou em vigor a 5 de junho. Na prática, as PME deixam de ter de preparar o prospeto tradicional (um documento extenso, caro e demorado, pensado para grandes operações) e passam a poder recorrer a um modelo padronizado e menos exigente, desenhado especificamente para empresas de menor dimensão. A simplificação documental é uma das principais barreiras que a Euronext diz pretender eliminar, uma vez que os custos associados à preparação de um prospeto completo chegam a inviabilizar economicamente uma operação de menor escala.
  • Execução digital de ponta a ponta através da infraestrutura proprietária da Euronext, o que significa que todo o processo de admissão — da submissão da documentação à distribuição da oferta — passa a decorrer numa plataforma digital integrada, eliminando parte significativa dos circuitos manuais e presenciais que tornam o processo mais lento e oneroso. Esta componente está, contudo, disponível apenas em França e em Itália, os dois mercados onde a Euronext já dispõe desta infraestrutura tecnológica, sem prazo anunciado para a extensão aos restantes países, incluindo Portugal.
  • Possibilidade de abrir as ofertas iniciais a investidores de retalho, incluindo a opção de alocar até 100% da oferta a pequenos investidores (como já sucede na bolsa italiana gerida pela Euronext), no caso das empresas que pretendam captar até 12 milhões de euros e estejam domiciliadas em França. Esta medida inverte a lógica tradicional das operações públicas iniciais (OPI, do inglês “IPO”), em que os investidores de retalho ficam habitualmente remetidos a uma fatia residual da oferta, com a parte dominante reservada a fundos e institucionais. A Euronext fundamenta esta opção no crescimento do peso do retalho nos volumes de negociação do EuronextGrowth, que em 2025 representou cerca de um terço do total transacionado, o valor mais alto desde 2021.

“Apesar da profundidade dos mercados de capitais europeus, demasiadas PME de sucesso ainda não acedem ao financiamento nos mercados públicos”, refere Mathieu Caron, Head of Primary Markets da Euronext, notando que “estas empresas são a espinha dorsal da economia europeia, criando emprego, impulsionando a inovação e ancorando a atividade económica nas comunidades locais.”

O Euronext Growth, mercado onde o IPOgo se aplica, conta com mais de 550 empresas cotadas em toda a Europa, e desde 2018 que cerca de 70 empresas do Euronext Growth para os mercados regulamentados da Euronext.

O objetivo do IPOgo consiste em “reconectar a poupança europeia com as necessidades de financiamento das PME”, salienta ainda Mathieu Caron, com o intuito de tornar as OPI “duas vezes mais rápidas, mais simples e mais rentáveis”.

O lançamento deste programa, que por enquanto estará disponível apenas em França (sem prazo anunciado para a extensão a outras geografias, incluindo a Portugal), acontece num contexto em que o Euronext Growth, mercado onde o IPOgo se aplica, já alberga mais de 550 empresas cotadas em toda a Europa, com uma capitalização bolsista total de cerca de 40 mil milhões de euros, e conta com uma base de mais de 600 investidores institucionais distribuídos por 29 países.

Desde 2018, cerca de 70 empresas transitaram do Euronext Growth para os mercados regulamentados da Euronext, o que a bolsa apresenta como prova de que o segmento funciona como rampa de lançamento e não como destino final.

Porta de entrada das empresas para a bolsa

O pano de fundo do IPOgo é o IPOready, o programa de formação pré-IPO da Euronext que este ano voltou a Lisboa e que desde 2015 acompanhou 40 empresas (inclusive da portuguesa Raize) que chegaram a transacionar em bolsa, captando mais de 1,8 mil milhões de euros em conjunto, segundo dados da Euronext.

A edição de 2026 do IPOready foi a maior de sempre, refere a Euronext, selecionando as empresas por critérios de capacidade de inovação, desempenho económico e potencial de entrada em bolsa nos próximos 18 a 24 meses.

Entre os participantes encontram-se startups tecnológicas conhecidas como a estoniana Bolt (mobilidade) e a neerlandesa Fairphone (smartphones sustentáveis), além de empresas nacionais como a consultora de engenharia GWIC e a tecnológica MHSi. Este grupo de empresas apresentou este ano uma faturação média de 191 milhões de euros, um salto considerável face aos 38 milhões de euros da coorte de 2015.

Nesta edição, 69% das empresas participantes vieram de setores tecnológicos, e pela primeira vez foi criada uma vertente específica para empresas de aeronáutica e defesa, com mais de 30 participantes.

O desafio real para o IPOgo está precisamente no que o programa não controla: a liquidez do mercado secundário, as valorizações que os investidores estão dispostos a oferecer às PME e o custo efetivo de manter uma empresa cotada — como encargos de compliance, auditoria e relações com investidores — que continuam a pesar na decisão de ir a bolsa, independentemente de o processo de admissão ser mais ou menos ágil.

A Euronext reconhece que o IPOready, apesar de uma década de existência e de uma evolução crescente, converteu apenas 40 empresas em cotações efetivas, um rácio que levanta perguntas sobre a distância que ainda existe entre preparar as empresas para os mercados e convencê-las a dar o passo.

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