Continuidade da Nos no Alive “está num bom caminho”

Rafael Correia,

Álvaro Covões, diretor-geral da Everything Is New, diz ao +M, antecipa que a renovação do acordo com a Nos para o Alive deverá ser anunciada em breve, sem detalhar datas.

Álvaro Covões, fundador e diretor-geral da Everything Is NewEverything Is New

A Nos deverá manter-se como naming sponsor do Alive durante os próximos anos. A renovação da parceria, que remonta a 2008 — na altura com a Optimus, antes da fusão da empresa — , “deverá ser anunciada em breve”, antecipa Álvaro Covões, fundador e diretor-geral da Everything Is New.

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Em entrevista ao +M, à margem da apresentação do novo palco literário do “festival de cultura”, o promotor não detalha se o anúncio será feito antes ou depois da próxima edição do evento, que se realiza entre 9 e 11 de julho de 2026, no Passeio Marítimo de Algés.

Está tudo no bom caminho da continuação. É um projeto, creio, de grande visibilidade. É o festival português com mais notoriedade no mundo. Se viajar a qualquer parte do mundo, alguém que entenda de música já ouviu falar no Nos Alive”, explica o responsável pelo evento. E acrescenta: “Os artistas todos gostam e querem participar no festival, portanto é um festival que atingiu um patamar muito interessante nos festivais de música”.

Num momento em que todos os patrocinadores desta edição já foram anunciados, a Everything is New coloca o foco na sua mais recente novidade — a criação do oitavo palco, dedicado à literatura, uma ideia que germinava há cerca de dois ou três anos.

Questionado sobre o porquê desta aposta, o promotor ironiza: “Genuinamente, somos malucos”. Para a organização, o evento transcende a música. “Para nós, o Nos Alive não é apenas um festival de música, é um festival de cultura. Por isso fizemos um palco de fado, que era uma coisa que não existia. Nenhum festival de música tinha um palco de fado”, recorda. O mesmo raciocínio motivou a aposta na comédia, mas a equipa sentia que “faltava algo mais”. “O que faltava é aquilo que é muito importante para o consumo cultural, para o aumento dos hábitos culturais, que é a leitura”, aponta.

Apesar de Álvaro Covões notar que “falta sempre algo”, uma vez que “a cultura é muito vasta”, as restrições de espaço limitam a expansão para outros temas culturais. “Começámos o Nos Alive, creio, com três palcos. Já vamos em oito. A área é a mesma, portanto, temos de ser, do ponto de vista do planeamento urbanístico, muito eficazes para que tudo funcione“, considera. “Temos uma média de 41 apresentações por dia. São mais de 123 no conjunto de três dias. Portanto, isto é um mundo. É uma verdadeira feira cultural. É uma oferta gigantesca”, acrescenta ainda.

Ainda assim, a Everything is New nunca ponderou mudar a localização do festival. “A casa da ópera é o São Carlos. A casa do Benfica é o Estádio da Luz. A casa do Sporting é o Estádio de Alvalade e a casa do Nos Alive é o Passeio Marítimo de Algés. Portanto, o nosso objetivo não passará por isso“, garante.

A programação literária

Com a integração da vertente literária, as mais recentes confirmações do festival são Valter Hugo Mãe, Pedro Chagas Freitas, Luísa Sobral, Afonso Cruz, Ana Bárbara Pedrosa e Francisco Guimarães.

Durante a apresentação do palco, o curador do espaço, David Azevedo Lopes, salientou a profunda ligação histórica entre as duas artes. “Os livros não estão a precisar de ser resgatados, mas a leitura tem uma enorme oportunidade de progredir em Portugal“. O curador recorda que “quase todos [os grandes compositores] foram grandes leitores“.

“A possibilidade de ter não só músicos, mas autores a falarem de um tema comum que é a imaginação e a criatividade, e juntar estas duas disciplinas, ou seja, as dimensões artísticas e culturais fortíssimas que são a música e a literatura — são duas faces da mesma moeda — parece-nos uma oportunidade muito grande e muito feliz”, vincou.

Uma grande canção e um grande livro partilham a mesma ambição, que é permanecer connosco depois de terminarem“, apontou o curador do espaço.

A missão do palco, assumiu David Azevedo Lopes, é clara. “Continuamos nesta luta pela leitura, dizer-vos que ler continua a ser um ato de resistência à superficialidade. Achamos que este palco não vai competir com a música, vai complementá-la, vai dialogar com ela”.

Ana Markl, que assumirá a moderação das conversas no primeiro dia do Alive, reforça esta visão contemporânea sobre os livros. “Acho que precisamos de continuar na senda de a tornar uma coisa tão pop como a música, e até tão social, sendo uma atividade muito privada, muito pessoal”. A comunicadora nota que, “apesar de ser uma atividade privada, as pessoas também estão a gostar muito da capacidade e do lado social da leitura, o que se nota pela afluência à Feira do Livro, pelo desejo de que se criem bookclubs, ou até a comunidade criada nas redes sociais à volta dos livros”.

A programação do palco literário, curada por David Azevedo Lopes, divide-se pelos três dias do evento:

  • 9 de julho: Ana Markl modera as conversas com Valter Hugo Mãe e Pedro Chagas Freitas, a primeira dedicada à influência da escrita na música e a segunda dedicada à transversalidade dos livros.
  • 10 de julho: Pedro Boucherie Mendes junta os dois músicos e autores Luísa Sobral e Afonso Cruz numa conversa sobre o processo criativo que liga a escrita à música
  • 11 de julho: Ana Bárbara Pedrosa e Francisco Guimarães debatem os desafios dos jovens autores numa conversa moderada por David Azevedo Lopes.

A aposta na literatura não se fica pela programação. Para incentivar a compra de livros no recinto, a organização aliou-se aos CTT para oferecer um serviço gratuito de entrega dos livros. O objetivo, detalha Álvaro Covões, é que o público não tenha de carregar a obra autografada, permitindo andar de forma “muito mais descontraída para estar a passear e, acima de tudo, a dançar” nos concertos sem a preocupação de perder o livro.

O responsável nota que não vai existir um espaço físico de leitura no recinto, uma vez que esse não é o propósito do palco. Ao nível dos parceiros, o responsável destaca a clínica dentária Dental Light, que irá disponibilizar, de forma inédita no evento, um dentista no apoio médico.

Os autores Francisco Guimarães e Pedro Chagas Freitas, os moderadores Pedro Boucherie Mendes e Ana Markl, o curador David Azevedo Lopes e o diretor da Everything Is New, Álvaro Covões, a apresentação do novo palco literário do Nos AliveEverything is New

O impacto da cultura na economia

O alargamento da oferta cultural promovida pela Everything is New tem passado também por exposições, como as já realizadas com obras de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda ou a parceria com o Museu de Arte Antiga para a primeira exposição de pintura do século XVI do Museu do Prado. Ao mesmo tempo, o responsável lembra a vertente de responsabilidade social da promotora, que apoia uma bolsa de investigação científica do Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM) — um financiamento que já ultrapassou os 500 mil euros ao longo de 18 anos.

É com esta visão alargada que Álvaro Covões defende a existência de uma correlação direta entre o consumo cultural e a economia de um país. O promotor não esconde que trabalha com “um produto que vive da bilheteira, essencialmente” e, por isso, reconhece que “quanto maior for a capacidade económica dos portugueses, melhor também para a cultura, porque significa que as pessoas podem consumir mais”.

No entanto, sublinha que o problema estrutural do país reside noutro fator. O responsável nota que os “sucessivos governos das últimas décadas não têm atingido o objetivo que é melhorar significativamente o nível de vida dos portugueses ou atingir o patamar da Europa”, argumentando que “ainda ninguém percebeu que os hábitos culturais dos países mais ricos na Europa são elevados“. O diretor da Everything is New lembra que esses “são os países mais felizes, que criam mais riqueza e vivem melhor”, traçando o cenário do mercado nacional. “Em Portugal temos dos hábitos culturais mais baixos dos 27, e temos também quase o nível de vida mais baixo dos 27. Portanto, a correlação é absolutamente inequívoca“, argumenta.

Para inverter esta tendência, Covões considera imperativo “convencer os portugueses a consumir mais cultura“, desmistificando a ideia de que tal exige sempre capacidade financeira — apontando o recurso a locais de acesso gratuito, como as bibliotecas, no caso da literatura.

“O que é importante é consumir. Temos de consumir para nos enriquecermos individualmente a nós próprios. Porque vamos ganhar sentido crítico, vamos ganhar um pensamento diferente que nos vai fazer produzir mais. Produzir mais significa viver melhor, ter mais oportunidades”, conclui.

É por isso que o novo espaço faz sentido, no seu entender. “Este palco também é visto como uma forma de incentivar a leitura, de dar visibilidade aos autores. As pessoas têm de ir mais ao teatro, têm de ir mais aos museus, têm de consumir mais cultura e, obviamente, que venham a mais espetáculos de música”.

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