Exclusivo Fundo soberano financiado pelo Orçamento. CGD fica de fora

Luís Montenegro anunciou no congresso do PSD um fundo soberano para entrar no capital de empresas ditas estratégicas. Vai ser financiado anualmente pelo orçamento e a CGD e a TAP ficam de fora.

Portugal vai ter um fundo soberano, à semelhança do que se sucede noutros países da União Europeia, como é o caso da SEPI em Espanha. O anúncio foi feito por Luís Montenegro no encerramento do congresso do PSD, e o objetivo é permitir a participação do Estado no capital de empresas de setores estratégicos e em áreas como a energia, a banca, as comunicações ou as infraestruturas. O fundo vai ser financiado anualmente pelo Orçamento do Estado, será gerido pelo IGCP e vai ter participações acionistas minoritárias, por isso a CGD vai ficar de fora, apurou o ECO junto de uma fonte governamental.

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Oficialmente, não há informação para lá da que foi anunciado pelo primeiro-ministro. “Será um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em setores estratégicos. Quero, dentro deste projeto, destacar que a intenção é de termos participações acionistas de forma a garantir um veículo de poupança para as gerações futuras e um instrumento de efetivar a soberania nacional. Estamos a falar de participações em áreas como a energia, mas não excluímos a banca, as comunicações ou mesmo a gestão de infraestruturas aeroportuárias se os concessionários das mesmas não cumprirem as suas obrigações”, revelou Luís Montenegro. Mas segundo apurou o ECO, a CGD e a TAP, que está em processo de privatização, mas o Estado vai manter uma posição de 50,01% do capital, não entram na gestão deste fundo.

Ainda não é claro o que vai suceder à Parpública, empresa que tem também participações no capital de empresas, como a AdP, com mais de 80%, ou da Galp, com cerca de 8%. De acordo com as informações a que o ECO teve acesso, este fundo vai ter apenas participações estratégicas, mas não maioritárias. A CGD, por exemplo, é controlada pelo Estado diretamente através da Direção Geral do Tesouro. Assim, mantendo-se o atual modelo, o Estado passa a ter três entidades com participações em empresas privadas, além do papel do Banco de Fomento. Gonçalo Regalado, aliás, andou meses a afirmar que o Banco de Fomento era o ‘banco soberano’ do país, uma posição que gerou mal-estar junto da administração da CGD e que terá mesmo merecido a censura do Banco de Portugal.

O anúncio de Luís Montenegro surpreendeu, e desagradou a diversas sensibilidades do PSD. Ainda em 2024, por altura da campanha eleitoral para as legislativas, o atual primeiro-ministro criticou duramente Pedro Nuno Santos, nomeadamente quando surgiu a discussão sobre a ideia de uma entrada no capital dos CTT. Montenegro não criticou apenas as contas do programa económico de Pedro Nuno Santos, atacou a matriz política, e procurou apresentar o líder socialista como herdeiro de uma visão em que o Estado escolhe setores, orienta investimento, intervém em empresas e responde aos problemas económicos com despesa, propriedade pública ou direção administrativa.

A participação pública na Galp, de cerca de 8%, vai passar para este fundo, mas Luís Montenegro detalhou mais dois setores em que o Estado pode vir a ter novas participações. A banca e as infraestruturas aeroportuárias, sem detalhar as empresas visadas, mas é público e notório que há movimentações em curso no BCP, porque a Fosun está a avaliar um negócio de venda de 20% do capital, enquanto nas infraestruturas, decorrem negociações com o concessionário de aeroportos, a Vinci, para a construção de um novo aeroporto em Alcochete.

O que é a SEPI?

A Sociedad Estatal de Participaciones Industriales (SEPI) é a holding através da qual o Estado espanhol gere as suas participações empresariais estratégicas. Criada em 1995 para suceder ao antigo Instituto Nacional de Industria (INI), um dos pilares da política industrial espanhola do século XX, a SEPI controla diretamente empresas como a Navantia, os Correos ou a Tragsa e detém participações relevantes em grupos cotados como a Telefónica e a Indra. Na prática, funciona como o braço empresarial do Estado espanhol, combinando objetivos financeiros com objetivos de política económica e industrial. Nos últimos anos ganhou renovada relevância ao liderar a aquisição de cerca de 10% da Telefónica, numa operação superior a 2.000 milhões de euros destinada a reforçar a presença do Estado numa empresa considerada estratégica para as telecomunicações e a segurança nacional.

A SEPI não é um fundo soberano no modelo norueguês, que investe essencialmente no exterior e evita interferir na economia doméstica. É antes um instrumento de intervenção económica direta, utilizado para proteger setores considerados críticos, apoiar empresas em momentos de dificuldade ou preservar centros de decisão nacionais. O modelo espanhol é frequentemente apontado como um exemplo de política industrial ativa, mas também suscita críticas recorrentes sobre o risco de interferência política na gestão empresarial e sobre a dificuldade em separar critérios económicos de objetivos governamentais de curto prazo.

 

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