De Espanha à Noruega, como os países usam os fundos soberanos para impulsionar a economia?

Portugal vai seguir o exemplo espanhol e avançar com a criação de um fundo soberano. Focados em incentivar o crescimento da economia e gerar recursos para o futuro, saiba como investem estes fundos.

Cerca de meio ano depois de Espanha ter anunciado a criação de um fundo soberano que poderá mobilizar até 120 mil milhões de euros, o primeiro-ministro português avançou que Portugal também vai ter um fundo soberano, juntando-se a vários países europeus que já têm um instrumento deste género para investir na economia, ou para gerir participações públicas. O fundo soberano da Noruega é o maior e mais conhecido do mundo, mas há outros veículos que gerem milhares de milhões.

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O Governo vai criar um Fundo Soberano para participar no capital de empresas estratégicas, em áreas como a energia, a banca, as comunicações ou as infraestruturas. “Será um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em setores estratégicos. Quero, dentro deste projeto, destacar que a intenção é de termos participações acionistas de forma a garantir um veículo de poupança para as gerações futuras e um instrumento de efetivar a soberania nacional. Estamos a falar de participações em áreas como a energia, mas não excluímos a banca, as comunicações ou mesmo a gestão de infraestruturas aeroportuárias se os concessionários das mesmas não cumprirem as suas obrigações”, anunciou Montenegro no congresso do PSD, este fim de semana.

Portugal deverá juntar-se, assim, a países como a Noruega, Espanha ou Irlanda, países que apostaram na criação destes fundos para investir na economia e gerar retorno para os cofres do Estado e para as populações.

Ao contrário de países que têm receitas do petróleo ou de outras matérias-primas, a vizinha Espanha, tal como Portugal, não dispõe destes recursos, mas decidiu apostar na criação de um fundo soberano para compensar o fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) previsto para este ano, permitindo manter o impulso na economia além do mega envelope europeu, criado para ajudar os países a recuperarem após a pandemia da covid-19.

Segundo anunciou Pedro Sánchez, o fundo terá uma dotação inicial de 10,5 mil milhões de euros provenientes dos fundos comunitários, bem como 2,8 mil milhões de euros adicionais sob a forma de transferências que não terão de ser reembolsadas. O veículo, denominado “España crece” (em português, “Espanha cresce”) será gerido pelo Instituto de Crédito Oficial (ICO) e vai mobilizar 23 mil milhões de euros para a construção de até 15 mil casas por ano destinadas a arrendamento acessível.

A expectativa do Governo liderado por Pedro Sánchez é que o dinheiro do fundo soberano possa ser multiplicado por via de instrumentos de dívida até 60 mil milhões de euros, e que esse valor duplique, por sua vez, até 120 mil milhões de euros através da participação de empresas privadas. O objetivo do fundo é cumprir objetivos a três níveis: social, ecológico e tecnológico.

Mas Espanha não é o único país sem petróleo que decidiu apostar na criação de um fundo soberano. A Irlanda, que ficou conhecida pela forte recuperação económica após o pedido de assistência internacional na crise financeira, também tem um fundo soberano, através de três veículos distintos. Gerido pelo Tesouro irlandês, o Ireland Strategic Investment Fund (ISIF) foi criado em 2014 e investe dinheiro do Estado para suportar a atividade económica e o emprego no país. O fundo, de cerca de 16 mil milhões de euros, investe em quatro grandes áreas: clima, habitação; empresas irlandesas; e alimentação e agricultura.

O segundo fundo soberano da Irlanda é o Future Ireland Fund. Com 7,7 mil milhões sob gestão, o fundo tem contribuições anuais de 0,8% do PIB até 2035, estando proibidos resgates até 2041. O fundo, focado num horizonte de longo prazo, tem como meta uma carteira composta por 80% de ações e 20% de obrigações.

Por fim, a Irlanda conta ainda com o Infrastructure, Climate and Nature Fund, um veículo criado para ajudar a financiar investimentos do Estado nestas áreas. A política do fundo prevê investimentos anuais de dois mil milhões de euros até 2030 e permite ao governo retirar dinheiro em momentos de abrandamento. A sua estratégia privilegia, assim, o investimento em ativos mais líquidos, funcionando quase como um fundo de emergência estatal em momentos de travagem na economia.

Fundo da Noruega gere dois biliões

Nicolai Tangen é o CEO da NBIM e responsável pela gestão do fundo da Noruega

Com mais de dois biliões de euros sob gestão, o fundo soberano norueguês é o maior do mundo. Criado na década de 1990 para gerir as receitas geradas pelo petróleo e gás natural, o fundo, gerido de forma independente pelo Norges Bank Investment Bank (NBIM), tem como objetivo preservar riqueza para as gerações futuras. Tudo começou em 1990 quando o parlamento norueguês aprovou uma legislação para apoiar essa iniciativa, criando o que hoje é o Fundo Soberano da Noruega (Government Pension Fund Global). Segundo a informação disponibilizada no site do fundo, o primeiro depósito no fundo ocorreu em 1996.

A receita do petróleo tem sido muito importante para a Noruega, mas um dia o petróleo acabará. O objetivo do fundo é garantir que usemos esse dinheiro de forma responsável, pensando a longo prazo e, assim, salvaguardando o futuro da economia norueguesa”, pode ler-se na página do fundo.

Fundo soberano da Noruega, que tem mais de 71% da carteira aplicada em ações de empresas globais e 26,5% em dívida, registou uma valorização de 15,1% em 2025, ou 247 mil milhões de dólares.

Através de um investimento diversificado focado no longo prazo, que privilegia a exposição a ações, o fundo tem assegurado um crescimento sustentado, com os retornos a serem responsáveis, no final de 2025, por mais de metade do valor global acumulado pelo fundo. Com participações em cerca de 7.200 empresas, algumas delas portuguesas, o fundo da Noruega é o maior investidor particular do mundo. Com uma política de investimento focada em pilares fundamentais como a eficiência, transparência e responsabilidade, o fundo, que tem mais de 71% da carteira aplicada em ações de empresas globais e 26,5% em dívida, registou uma valorização de 15,1% em 2025, ou 247 mil milhões de dólares.

O fundo da Noruega é considerado um exemplo, conseguindo maximizar os retornos das receitas geradas pelo petróleo. Vários países do Médio Oriente, assim como a Rússia ou Angola também têm fundos “alimentados” pelas receitas petrolíferas, ao passo que na Europa, estes veículos dependem de fundos dos orçamentos locais.

Criado em 2016, o fundo de desenvolvimento polaco (Polski Fundusz Rozwoju) é controlado pelo estado e gerido pelo tesouro da Polónia. Com mais de 15,7 mil milhões de euros de ativos, o fundo tem como objetivo investir no desenvolvimento da economia, apoiar projetos de infraestruturas e impulsionar a expansão internacional da economia polaca. Já o esloveno Slovenski državni (SSH) é o organismo criado para gerir as participações do Estado em empresas.

Seja com dinheiro público, ou com receitas do petróleo, o principal objetivo destes fundos soberanos é gerir os investimentos públicos, apoiar o crescimento da economia e aumentar a riqueza, num horizonte de longo prazo.

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