“A reforma obrigatória aos 70 anos é um erro. É retirar um direito constitucional”
Maria da Glória Ribeiro defende que não devia haver idade da reforma e que as pessoas deviam passar à pensão "quando quisessem", ainda que sujeitas a cortes face ao valor normal.
Afinal, a idade da reforma vai ou não baixar? O Chega exigiu uma descida como condição para viabilizar a reforma laboral, mas o Governo não mostrou abertura para isso. Já Maria da Glória Ribeiro atira que não devia haver sequer idade da reforma. No novo episódio do podcast “Trinta e oito vírgula quatro”, a especialista em recrutamento executivo e managing director da Amrop Portugal defende também que a passagem à pensão coerciva aos 70 anos é “um erro”.
“De forma direta, acho que não devia haver idade da reforma. As pessoas reformavam-se quando queriam e recebiam uma pensão correspondente à correlação com o tempo que trabalharam“, explica Maria da Glória Ribeiro, que entende que as contas para garantir a sustentabilidade do sistema devem, sim, ser feitas, mas o direito à reforma deve ficar à decisão do próprio.
-
Maria Glória Ribeiro, Managing director da Amrop, em entrevista ao podcast do ECO "Trinta e Oito vírgula Quatro" Hugo Amaral/ECO -
Maria Glória Ribeiro, Managing director da Amrop, em entrevista ao podcast do ECO "Trinta e Oito vírgula Quatro" Hugo Amaral/ECO -
Maria Glória Ribeiro, Managing director da Amrop, em entrevista ao podcast do ECO "Trinta e Oito vírgula Quatro" Hugo Amaral/ECO
Por outro lado, a responsável sublinha que “a reforma coerciva numa determinada idade é um erro“, e argumenta que inibir as pessoas de trabalhar depois dos 70 anos é mesmo “retirar um direito constitucional”.
Neste momento, o Código do Trabalho não prevê um travão ao trabalho das pessoas nessa faixa etária, mas está estabelecido que os vínculos permanentes são automaticamente convertidos em contratos a prazo, que vigoram por seis meses, sendo renovados por períodos iguais e sucessivos, sem limite. A legislação determina que a caducidade desse novo contrato não implica o pagamento de qualquer compensação ao trabalhador, ao contrário do que aconteceria, por exemplo, com um vínculo permanente.
Já na Função Pública, está previsto que o vínculo de emprego público caduca quando o trabalhador completa 70 anos. A Lei Geral do Trabalho em Funções Pública admite que esse funcionário se mantenha nas mesmas funções, mas só em casos de “interesse público excecional, devidamente fundamentado”.
Esta discussão em torno da idade da reforma surgiu no âmbito da revisão do Código do Trabalho. Sobre esse processo, Maria da Glória Ribeiro questiona: “Aquela lei laboral foi feita há quanto tempo, para que sociedade e em que sistema? As pessoas — não estou a falar de quem quer dirigir as pessoas –, na sua maioria, não querem ter aquele tipo de proteção. Querem estar livres para cumprir outros objetivos”.
A managing director da Amrop Portugal realça que tem de haver, sim, “uma enorme proteção àqueles em projetos de início de vida ou revida, e àqueles que são mais frágeis“.
Usar a IA para sermos “super humanos”

Maria da Glória Ribeiro não esconde: a revolução promovida pela Inteligência Artificial vai, sim, provocar “sofrimento” em muitos setores, ao nível da empregabilidade.
“Vai haver sofrimento, porque as pessoas estão habituadas a uma determinada rotina. Tiraram um determinado curso, arranjaram um emprego estável e habituaram-se a uma determinada rotina das nove às cinco. A inteligência artificial vai entrar como faca em manteiga em tudo que são lugares e funções transacionais. Tudo o que não precisa do nosso sentido intuitivo para melhorar o assunto vai ser feito pela IA”, frisa a responsável no podcast “Trinta e oito vírgula quatro”.
"A inteligência artificial vai entrar como faca em manteiga em tudo que são lugares e funções transacionais. Tudo o que não precisa do nosso sentido intuitivo para melhorar o assunto vai ser feito pela IA.”
A especialista em recrutamento executivo deixa, contudo, claro que o que é preciso é tirar partido do que essa tecnologia pode dar aos trabalhadores humanos, tornando-os “super humanos”.
Além disso, Maria da Glória Ribeiro “convida” os profissionais de hoje a não pensarem em carreira, mas em vida, alinhando na projeção de que, em vez de funções estanques, os humanos assumirão múltiplos e sucessivos projetos.
Já sobre o recrutamento executivo, afirma que “o maior erro de avaliação está na tendência de arrumar as pessoas em grupos padrão, como se arrumam as caixinhas na despensa“.
"O maior erro de avaliação está na tendência que temos em arrumar as pessoas em grupos padrão, como se arrumam as caixinhas na despensa. As pessoas são um complexo individual.”
“Nesse futuro que estamos a imaginar, as funções não vão ser pré definidas. Há uma necessidade pré definida, mas, se um dos potenciais candidatos, além dessa área, também tiver acumulado conhecimento e experiência noutra área, pode juntar”, antecipa a managing director, neste que foi o último episódio desta temporada do podcast do Trabalho by ECO.
O “Trinta e oito vírgula quatro” é um podcast quinzenal com entrevistas a decisores, líderes e pensadores sobre os temas mais quentes do mercado de trabalho. Numa década, a duração média estimada da vida de trabalho dos portugueses cresceu dois anos para 38,4. É esse o valor que dá título a este podcast e torna obrigatória a pergunta: afinal, se empenhamos tanto do nosso tempo a trabalhar, como podemos fazê-lo melhor.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
“A reforma obrigatória aos 70 anos é um erro. É retirar um direito constitucional”
{{ noCommentsLabel }}