Como é a redação do futuro? Não existe uma resposta única, aponta estudo da WAN-IFRA e FT Strategies

Rafael Correia,

A inteligência artificial, a criação de confiança da audiência e especialização são alguns dos tópicos elencados pelo estudo "Future Newsrooms 2026", promovido pela WAN-IFRA e pela FT Strategies.

“Não existe uma resposta única para como deve ser a sua redação do futuro, mas há questões que vale a pena fazer para estruturar o rumo a seguir.” É com esta premissa que a primeira edição do estudo Future Newsrooms, promovido pela WAN-IFRA e pela Financial Times Strategies (FT Strategies), encerra a sua análise, lançando o mote para a transformação do setor. Questões como “O que torna o nosso jornalismo e a experiência da audiência significativamente diferentes das alternativas?” ecoam ao longo de um relatório que mapeia o caminho a seguir, e que serve de bússola para este artigo.

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Com base em 448 respostas únicas de redações em 86 países, o estudo revela um retrato de ambições e desafios. Se o envolvimento da audiência é o principal objetivo para 2026, a sustentabilidade do negócio surge como a prioridade com maior peso. Contudo, concretizar estas metas revela-se complexo.

Há uma conclusão fundamental a reter: “Quando o conteúdo genérico se torna mais fácil de produzir, a vantagem muda para o que é mais difícil de replicar: jornalismo original, relações de confiança e comunidades que dão às audiências um motivo para regressar. Para competir neste ambiente, as redações terão de redefinir alguns dos seus pressupostos fundamentais”.

Analisemos as quatro grandes áreas onde essa redefinição tem estado a acontecer.

A estratégia — o fosso entre ambição e instinto

O relatório é claro no seu aviso: “Os líderes das redações afirmam ter uma estratégia, mas a ligação entre as prioridades editoriais, os objetivos de negócio e a tomada de decisões do dia a dia tem de ser fortalecida. Onde este alinhamento é mais fraco, as redações parecem menos preparadas para o futuro”.

O estudo alerta que “as redações não precisam de perseguir todas as plataformas, mas devem definir como as suas plataformas próprias se podem tornar destinos únicos — e como esse valor se estende para além da marca”.

O estudo revela também que 25% das redações tomam decisões sobretudo por instinto. Aqui, “as prioridades editoriais são, na sua maioria, impulsionadas por eventos noticiosos imediatos e pelo julgamento dos editores, com pouca referência explícita às prioridades estratégicas”.

A estas juntam-se 42% de redações com um alinhamento vago — a estratégia informa as prioridades gerais, mas as decisões do dia a dia são independentes. Apenas 32% demonstram um alinhamento estruturado. Este alinhamento está associado a melhores resultados orçamentais. Embora 38% das redações tenham visto os orçamentos crescer no último ano — contra 35% que sofreram cortes –, o segredo está na disciplina de portefólio: 50% das redações que reveem e descontinuam iniciativas sistematicamente registaram aumentos orçamentais, em comparação com apenas 28% daquelas que o fazem de forma ad hoc.

Apenas uma a duas funções — normalmente editores-chefes e diretores — definem a estratégia em 62% das redações. Contudo, os maiores níveis de alinhamento estruturado ocorrem quando funções não tradicionais — líderes de plataforma e audiência — se sentam à mesa.

A complementar este cenário, 45% das redações assumem os dados como uma métrica analisada apenas após a publicação. O estudo sugere que ferramentas como os “bots de comissionamento” da IA podem ajudar os editores a “combinar o julgamento noticioso com dados”, colocando as audiências no início da tomada de decisões. Contudo, a maioria das redações (64%) continua a criar histórias a pensar primeiro no meio, com apenas 21% a moldar a história a partir de uma necessidade real da audiência.

Este mapeamento detalha as quatro funções vitais que estão a transformar o setor: estratégia de audiência, inovação em IA, produto/design e engenharia de redação. O quadro ilustra como a inovação está a ser aplicada na prática por gigantes como CNN, Politico e The New York Times.Future Newsrooms Study 2026

A construção da confiança da audiência

“As redações estão conscientes da importância da confiança da audiência, mas a forma como procuram cultivá-la pode ficar aquém”, destaca o estudo neste capítulo. A mostrar esta desconexão, aponta-se como é feita a gestão do tempo das redações. 38% é gasto em produção e apenas 11% no envolvimento da comunidade.

O tempo gasto nas histórias varia consoante o modelo. As redações focadas em publicidade passam menos tempo na pré-publicação, “refletindo um foco mais forte na distribuição, no alcance da audiência e na maximização do desempenho do conteúdo”. Já as redações orientadas para o leitor dedicam-se mais à pré-publicação, “sugerindo uma maior ênfase na descoberta de histórias originais, no desenvolvimento de análises mais profundas e na criação de jornalismo diferenciado pelo qual valha a pena pagar”.

A dificuldade em servir o público estende-se a áreas menos visíveis. 52% dos inquiridos admitem não ter uma abordagem explícita para a cobertura de grupos sub-representados, apontando para limitações na forma como as estruturas atuais servem as minorias.

Na era da IA, as redações encaram cada vez mais os explicadores (explainers) como a abordagem narrativa de maior valor — 74%. Seguem-se as reportagens de fundo — 51% –, as entrevistas — 51% — e o jornalismo de contexto — 49%. As notícias de última hora — 49% — continuam a ter importância, embora os líderes editoriais permaneçam divididos sobre o seu futuro à medida que a IA evolui.

A mudança mais ampla no setor vai “no sentido de um jornalismo que tenha uma originalidade clara e ofereça um valor distintivo através de perspetivas únicas, reportagens no terreno e análises originais”. É aqui que os vídeos curtos ganham destaque — usados por 60% para gerar alcance e um formato em que 79% das redações se vão focar –, enquanto o texto se mantém prioritário (97%) — os textos profundos vão ser o foco de 72% das redações.

As redações de meios tradicionais continuam a ser mais fortes em formatos nos quais possuem uma longa especialização — incluindo liveblogs, jornalismo visual/de dados e podcasts rápidos de briefing diário.

As redações da era dot-com estão a apostar fortemente em podcasts de conversação e orientados para a opinião. As redações nativas digitais estão a investir mais em formatos impulsionados pela comunidade — como sessões de Q&A com a audiência e eventos ao vivo — juntamente com vídeo de formato longo.

Capacitação e a abordagem à IA

Este pilar foca-se na estrutura e nas ferramentas de que a redação dispõe. “As redações sabem que a mudança de hábitos e de expectativas das audiências exige uma resposta. Mas algumas ainda estão a arrastar-se no que toca a garantir que têm as ferramentas instaladas.” A confiança é baixa. Apenas 14% dos líderes confiam que as suas ferramentas responderão às necessidades do futuro. Enquanto 55% das redações consideram que as estruturas atuais funcionam hoje em dia, a confiança nas estruturas organizacionais cai 13 pontos percentuais quando projetada a três anos.

“A forma como as redações estão a implementar a IA é apenas um exemplo do desafio mais amplo que existe na criação de espaço, propriedade e estruturas de apoio necessárias“. A integração esbarra em barreiras como a falta de conhecimentos (61%), a resistência cultural e o ceticismo (52%) e os casos de uso pouco claros (45%).

Há, aliás, uma desconexão evidente na medição do impacto da Inteligência Artificial. O “tempo poupado” é a métrica de sucesso da IA citada por 42% das redações — descurando objetivos maiores como receitas e envolvimento –, e o uso autónomo por parte de agentes de IA (agentic usage) permanece marginal — em 4% ou menos na maioria das categorias, não indo além dos 10% na transcrição.

A desconfiança nas ferramentas cai de 32% para 13% quando os jornalistas são incluídos nas decisões tecnológicas. A infraestrutura também conta: redações com melhores sistemas de backend relatam um uso mais elevado da IA. Nas 22% de redações que já têm funções de IA integradas na secção editorial, quase metade (46%) relata elevada literacia e uso de IA. As conclusões sugerem que “as redações que queiram tirar o máximo partido da IA beneficiariam da incorporação destas funções no ambiente de redação”.

 

Competências e a importância da especialização

Enquanto a Capacidade olha para a estrutura tecnológica, as Competências focam-se no talento e nas habilidades dos profissionais. E o estudo traça uma mudança drástica de perfil: “As redações preparadas para o futuro estão a passar de um generalismo alargado para uma especialização mais acentuada. Estão a investir em competências que combinam a arte jornalística e a profunda especialização num tema, com a fluência de formatos, a inteligência de audiências e a literacia técnica”.

Esta nova exigência reflete-se na progressão de carreira. Para promover alguém a um cargo de chefia editorial, 69% dos inquiridos valorizam acima de tudo a liderança e a colaboração (superando a reportagem original ou a produtividade).

Embora 55% concordem que as competências atuais nas suas redações são suficientes para os objetivos de hoje, esse número cai para os 39% quando se projeta o cenário a três anos. A falta de competências é, aliás, a principal barreira (61%) à adoção de IA, como mencionado anteriormente. E a justificação é clara: mais de metade das redações (61%) não tem programas formais de formação.

O estudo sublinha que as audiências “estão a mudar cada vez mais a sua confiança das instituições para os indivíduos”. Por isso, 78% das redações concordam que pode ser necessária uma estrutura de pagamentos que diferencie os jornalistas proeminentes. “Estão também a aprender com os criadores e a desenvolver formas de trabalhar melhor com eles”.

Com esse intuito, cerca de 41% das empresas tentam formar os seus jornalistas para atuarem como criadores (adotando vídeos longos ou podcasts de conversação), mas 68% destas redações “não desenvolveram até ao momento programas formais de treino para ‘presença perante as câmaras'”. Já no trabalho com criadores externos — caminho escolhido por 34% das redações — , 37% dessas redações continua a priorizar o alinhamento com a marca como o seu critério principal de escolha.

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